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Porquê Telavive?

Embora o tenha já classificado como «inócuo festival de música ligeira», esta é a segunda vez que, nas páginas do bomdia, me refiro ao Concurso da Eurovisão. Na primeira (cf. «Contra a uniformização do pensamento europeu», 20.01.2015), deplorei a insólita atitude da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia, que, na edição de 2014, tinham apelado à exclusão da Áustria por o seu representante, com o pseudónimo artístico de Conchita Wurst, ser — escândalo dos escândalos! — transgénero (mais propriamente, um «transgénero ocasional», a saber, um indivíduo do sexo masculino que, de vez em quando, se apresenta com aparência exterior de mulher; e, como indivíduo do sexo masculino que é, também de vez em quando deixa crescer a barba, assim se tendo apresentado no festival: elegantes trajos de mulher, mas barba).

Ora, acontece que a edição deste ano terá lugar em Israel, o país que, com a canção Toy, interpretada por Netta Barzilai, venceu a edição de 2018. Note-se que Israel já antes vencera o festival por três vezes: em 1978, com Abanibi; em 1979, com Halleluyah; e em 1998, com Diva, interpretada por Dana International (curiosamente, esta última é também uma mulher transgénero, mas, pelo que se viu, os pruridos moralistas de certas sociedades mais conservadoras não se sentiram então particularmente atiçados). O festival, no entanto, apenas por duas vezes teve lugar em Israel: em 1979 e em 1999; embora a edição de 1980 lhe competisse, por ter vencido a do ano anterior, a IBA (direção da televisão israelita) alegou impossibilidade de financiar outra produção internacional em tão curto espaço de tempo e conseguiu convencer a televisão neerlandesa a assumir esse encargo.

De qualquer modo, nas duas ocasiões em que a organização do festival esteve a cargo de Israel, o local escolhido foi a cidade de Jerusalém. Na verdade, independentemente do controverso estatuto desta cidade como capital do Estado hebraico, qualquer país membro da Eurovisão é livre de escolher a localidade mais adequada para o efeito. Inicialmente planeada, pois, para Jerusalém, a edição deste ano acabou por ser transferida para a capital económica e financeira, Telavive — e isto na sequência de uma forte campanha de dimensões internacionais no sentido de que o festival não se realizasse em Jerusalém.

Confesso que me sideram cedências deste tipo a pressões irracionais. Alega-se que Israel deveria voltar às fronteiras imediatamente anteriores à chamada Guerra dos Seis Dias, um conflito-relâmpago que, em junho de 1967, o opôs a quatro dos seus vizinhos árabes, apoiados por outros cinco, com vitória do Estado hebraico e ampliação fulgurante das suas fronteiras, as quais chegaram a incluir a península do Sinai (mais tarde devolvida ao Egito). Nessa guerra, Israel conquistou à Jordânia a parte oriental de Jerusalém, onde se situam os lugares mais sagrados do judaísmo e cuja devolução a uma soberania árabe dificilmente poderá, portanto, ser alguma vez equacionada. O que há de irracional no argumento de que um festival internacional não deve ocorrer numa «cidade ilegalmente ocupada» é que a soberania israelita sobre a parte ocidental de Jerusalém nunca foi questionada pelos países da comunidade internacional que reconhecem a existência de Israel. Com efeito, logo após a declaração da independência, em 1948, e a retirada das tropas britânicas que administravam a Palestina, deu-se o primeiro conflito armado entre o novel Estado e os seus vizinhos árabes, na sequência do qual Israel ficou senhor da parte ocidental da cidade, onde instalou as estruturas administrativas pelas quais funciona qualquer Estado: presidência da república, parlamento, sede do governo, ministérios, poder judicial. Aqui se realizaram as edições da Eurovisão de 1979 e de 1999.

Obviamente, para os países e forças que negam o direito à própria existência do Estado hebraico, eventos internacionais em território israelita serão sempre contestáveis. Mas, a nível da Organização das Nações Unidas, a soberania israelita sobre a parte ocidental de Jerusalém é tão legítima como sobre Telavive ou Haifa. De onde o absurdo de toda esta campanha internacional que levou Israel a transferir o concurso para Telavive.

Sob a capa de um progressismo discutível, o que subjaz ao boicote contra Israel são os resquícios do milenar antissemitismo europeu. Têm-se escrito miríades de teorias sobre as causas do preconceito antijudaico, e não serei certamente eu que agora descobrirei a explicação suprema. No fundo, essa explicação está há muito alvitrada e parece simples: a aversão e o ódio ao diferente, ao que não se funde na massa homogeneizante. Há uma objeção a este argumento: na Europa (e no mundo ocidental, em geral) proliferam minorias (raciais, culturais, religiosas), qual delas a mais «diferente», pelo que o ódio ao «outro» não bastaria para explicar a particular animosidade histórica contra os judeus. É certo, mas importa assinalar que, historicamente, o caráter multiétnico da Europa é recentíssimo. Durante séculos, senão milénios, a Europa foi caraterizada por comunidades relativamente homogéneas adentro dos seus limites identitários, comunidades onde predominava o padrão cultural cristão. Nelas, a minoria mais notória pela sua relutância à assimilação eram os judeus. Havia outros, sim, como, por exemplo, os ciganos, mas estes raramente sobressaíam do seu tradicional perfil de relegados — ao passo que os judeus, se eram uma minoria relutante a assimilar-se, por outro lado eram a única com influência: judeus eram os comerciantes e artesãos mais prósperos e empreendedores, os banqueiros e prestamistas, os mercadores, os sapientes membros das academias e das profissões liberais nascentes, os nomes maiores nas artes. Isto talvez lance luz sobre as razões da animosidade contra um grupo identitário que «ousava» prosperar teimando na sua diferença religiosa — e se as crenças religiosas têm tido peso ao longo da história da humanidade! Por outras palavras, o antissemitismo europeu consolidou-se em épocas remotas durante as quais o judeu era praticamente o único «outro» hostilizável. Com o rolar dos séculos, esse antissemitismo assumiu, não raro, proporções cataclísmicas: os ataques a comunidades judaicas, de que Portugal, infelizmente, não ficou isento, a sua relegação a guetos ou judiarias, a Inquisição, os pogroms da Europa oriental, enfim, a política de extermínio programada pela governação nazi da Alemanha há pouco mais de oito décadas. E o triunfo do Estado de Israel alimentou ainda mais o rancor de quem, odiando de morte os judeus, os vê constantemente ressurgirem dos reveses.

Respondem-me que não. Que não se trata de antissemitismo, de hostilidade a um grupo identitário, mas, pelo contrário, da humanista tomada de posição a favor de um outro povo, esse sim, oprimido pelo Estado de Israel. Porque «há os palestinos».

Os palestinos… Podemos dividi-los em três categorias: os que permaneceram no território do que é hoje Israel; os que saíram desse território e se refugiaram nas vizinhas nações árabes nascidas da desintegração do império otomano; e os habitantes de territórios que Israel ocupa desde a mencionada Guerra dos Seis Dias (basicamente, a margem ocidental do Jordão e a faixa de Gaza). Os primeiros, os que nunca abandonaram o território de Israel, são seus legítimos cidadãos, uma minoria étnica que goza de direitos cívicos e políticos idênticos aos dos judeus e de um nível de vida superior ao da grande maioria do mundo muçulmano (diz-se até que, se lhes falarem em independência ou algo similar, responderão: «Trate da sua vida e deixe-nos em paz»). Os casos mais problemáticos são, claramente, os campos de refugiados nos países árabes vizinhos e a faixa de Gaza.

Façamos então uma pequena recolha de acontecimentos comparáveis na história recente da humanidade. As guerras greco-turcas, no final do século XIX e entre 1919 e 1922, implicaram a deslocação de populações de língua grega do território turco para a nova pátria grega e de populações de língua turca no sentido inverso, e essas populações integraram-se com relativas rapidez e tranquilidade. No final da 2.ª Guerra Mundial, afluíram à Alemanha, à arruinada Alemanha, milhões de cidadãos germânicos dos territórios onde formavam comunidades seculares: da Silésia e do corredor de Dantzig, respetivamente no sul e no norte da Polónia, dos Sudetas, no ocidente da Boémia, e até da Prússia Oriental, a partir de então integrada na Rússia com o nome de Calininegrado (ainda que sem contiguidade com a nova «mãe-pátria»). A todos a Alemanha, destruída, soube receber e abrigar, e hoje as longínquas terras de origem são tão-só uma memória. Após a retirada britânica do subcontinente indiano, dois países principais emergiram: Índia, onde os hindus eram maioritários, e Paquistão, onde a maioria professava a fé muçulmana. Esta partilha implicou deslocações de grupos humanos a uma escala gigantesca e inédita, pontuadas de atos de violência, mas o equilíbrio acabou por se estabelecer. Poderíamos também falar dos pieds-noirs, os europeus residentes na Argélia que, com a independência desta antiga colónia francesa, se deslocaram em massa para a Metrópole, onde acabaram por se integrar. E, porque não?, da pacífica e relativamente rápida integração dos «retornados» das colónias portuguesas de África ou de Goa.

Todavia, mais de sete décadas após a formação do Estado de Israel, os países árabes vizinhos não conseguiram ainda integrar os seus irmãos deslocados da Palestina. Podê-lo-iam, se para tal tivessem vontade política. De resto, eram países nascidos duas ou três décadas antes, na sequência da desintegração do império turco, com fronteiras algo arbitrárias, muito ao sabor dos interesses franceses e britânicos e dos potentados locais, não se podendo propriamente reclamar de identidades nacionais consolidadas. Mas talvez esses países não queiram assimilar os deslocados da Palestina. Relegaram-nos para campos de refúgio onde constituem uma conveniente arma de arremesso.

Dos dirigentes palestinos, também já houve quem dissesse que nunca perdem a oportunidade de perder uma oportunidade. Quando foi declarada a independência de Israel, recusaram-se a admitir sequer a existência do novo país. Declararam-lhe guerra… e perderam-na, só fazendo com que as fronteiras israelitas se alargassem. Seguiram-se conflitos vários, com destaque para a guerra de 1967, no final da qual o território hebraico mais do que duplicou. Sempre que assomaram perspetivas de paz e acordo, o radicalismo dos líderes palestinos boicotou-as (é certo que o mesmo têm feito as fações mais radicais de Israel). Com isto, os palestinos sofrem derrotas sucessivas nas suas pretensões, com a agravante de também fazerem acentuar em Israel o apoio às forças políticas mais relutantes em reconhecer direitos nacionais aos palestinos. Reclama-se hoje o regresso de Israel às fronteiras imediatamente anteriores à guerra de 1967; mas essas eram as fronteiras existentes quando uma coligação de vários Estados árabes desencadeou a guerra que, pretensamente, eliminaria de vez a «entidade sionista»… e já então incluíam a parte ocidental de Jerusalém. Hoje, parece remota uma solução.

Certas tendências alegadamente progressistas, no Ocidente, argumentam que se trata de um problema de direitos humanos, pois a faixa de Gaza é um gigantesco campo de concentração, um espaço exíguo onde se acumulam mais de dois milhões de pessoas, com Israel a bloquear-lhes os pontos de entrada e saída. Mas Israel justifica o bloqueio com o facto de que, mal se retirou e a devolveu à governação palestina, Gaza caiu sob o controlo de um movimento — o Hamás — cujo objetivo, em aliança com o Irão, é a aniquilação do Estado judaico. Enfim, de qualquer modo, Gaza faz fronteira com o Egito: curiosamente, essa fronteira está também quase sempre selada, ou não temessem as autoridades do Cairo o radicalismo dos seus «irmãos» palestinos; mas o libelo acusatório só é lançado sobre o governo «sionista». Deve, aliás, assinalar-se que, na altura do nascimento de Israel, em 1948, a faixa de Gaza fazia parte do Egito. Só mais tarde este último país abdicou da sua possessão, remetendo Gaza para o Estado-pária que passou a ser designado por Palestina (juntamente com a margem ocidental do Jordão, de que a Jordânia também abdicara). O apoio aos direitos nacionais dos habitantes de Gaza poderia, pois, passar igualmente por uma preconização da sua plena cidadania egípcia.

Com este arrazoado, pretendi demonstrar o contrassenso do boicote a um evento internacional (ainda que simples concurso de cantigas) na cidade de Jerusalém.

Jorge Madeira Mendes