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Polémica sobre “petróleo branco” chegou a Vila Real

Vila Real é apontado como um distrito rico em lítio, mas as minas a céu aberto são contestadas pelas população afetadas, com destaque para Boticas e Montalegre, que se uniram em associações para lutarem contra a exploração.

O lítio é um tema polémico em Portugal. De um lado estão os que temem os prejuízos ambientais resultantes da exploração e do outro os que defendem o lítio como energia de futuro, o investimento e os postos de trabalho.

É também um assunto que promete entrar na campanha para as eleições legislativas de 6 de outubro.

A procura mundial pelo lítio, usado por exemplo na produção de baterias para automóveis ou telemóveis, está a aumentar e Portugal é reconhecido como um dos países com reservas suficientes para uma exploração comercial economicamente viável.

A associação ambientalista Quercus diz que 10,1% do território nacional está identificado para prospeção de lítio e, em vários distritos, têm sido apresentados pedidos de prospeção e pesquisa de depósitos minerais.

Mais avançados estão os projetos de Morgade (mina do Romano/Sepeda), no concelho de Montalegre, e em Covas do Barroso (mina do Barroso), concelho de Boticas, onde, depois da prospeção, o próximo passo é já a exploração.

Nestes locais, as duas empresas mineiras estão em fase de elaboração dos respetivos estudos de impacto ambiental (EIA) e as populações lutam contra as minas.

“O que nos preocupa é ser uma exploração a céu aberto, independente de ser de lítio ou de outra coisa qualquer. E preocupa-nos esta e a quantidade de pedidos de prospeção que já estão feitos no nosso concelho, sete até ao momento”, afirmou à agência Lusa Armando Pinto, porta-voz da Associação Montalegre Com Vida.

Preocupações relacionadas com a dimensão da cratera da mina, com os prejuízos ambientais, as consequências para a qualidade da água e do ar ou os impactos sobre os solos são comuns entre as populações de Montalegre e de Boticas.

O presidente da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), Nelson Gomes, referiu que a “maior parte da população está contra” o projeto e disse acreditar que ainda “é possível travar a mina”, porque é um “projeto megalómano que não se integra nesta região”, classificada como Património Agrícola Mundial em 2017.

A área classificada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) abrange os concelhos de Boticas e de Montalegre.

O presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga (PSD), disse que, neste momento e com os dados de que dispõe, é “liminarmente contra a exploração de lítio” no seu concelho.

“Pela forma como dizem que vai feita a exploração, os efeitos ambientais, na saúde pública e nos lençóis de água e a devastação que vai ser feita naquele território, eu sou contra”, salientou o autarca, que adiantou estar à espera do EIA.

Fernando Queiroga referiu ainda que a estratégia do município para o Património Agrícola Mundial, de atração de visitantes, não se compatibiliza com uma mina que pode causar impactos na paisagem e nos produtos locais, como na carne e no mel.

Em Boticas, a Savannah Lithium Portugal já adiantou que a intenção da empresa é começar a exploração no final de 2020. No local, as prospeções revelaram uma reserva de “27 milhões de toneladas de espodumena (mineral), com um teor médio de 1,06% de lítio por tonelada”.

“Neste momento, para as reservas que temos, o investimento é de cerca de 100 milhões de euros”, salientou João Barros, gerente da empresa.

O responsável apontou ainda a criação de 300 postos de trabalho diretos e cerca de 600 indiretos.

No concelho vizinho de Montalegre, a Lusorecursos Portugal Lithium, S.A, empresa que em março assinou o contrato de concessão com o Estado para a mina do Romano, anunciou um plano de negócios de 500 milhões de euros, a criação de cerca de 500 postos de trabalho e a implementação de uma unidade industrial.

O diretor executivo (CEO) da Lusorecursos, Ricardo Pinheiro, esclareceu, entretanto, que a exploração da mina vai ser mista, primeiro a céu aberto, passando depois, à cota das aldeias, para túnel.

“O lítio é a besta negra que está a tirar o sossego às populações”, afirmou à Lusa o presidente da Câmara de Montalegre, Orlando Alves (PS).

O autarca disse ainda que espera que este seja um processo “sabiamente interrompido”.

“Os desígnios nacionais, neste caso os energéticos, não podem ser desenvolvidos sempre à custa dos mesmos. Depois das barragens, em que nos levaram os melhores terrenos, depois da ocupação dos nossos montes com os parques eólicos, sermos agora confrontados com a tentativa de esventramento do território barrosão, obviamente que isso não é simpático”, salientou.

Orlando Alves aguarda “serenamente o EIA” e referiu que será “preciso reagir” se o EIA “não for favorável às pretensões” locais.