Poesia portuguesa no feminino chega a novos públicos internacionais
Um novo projeto literário estreia este ano com a missão de levar a poesia de mulheres portuguesas além-fronteiras, através da publicação de edições bilíngues. A iniciativa inclui obras de autoras consagradas como Natália Correia e Florbela Espanca, bem como poemas de fadistas como Amália Rodrigues e Teresinha Landeiro.
O projeto é da responsabilidade da Shantarin, intitula-se “Poesia Noun Feminine – Women’s Voices from the Southwest” e será lançado em março.
Serão publicadas em simultâneo sete edições bilíngues, com obras de 12 autoras, canónicas e contemporâneas, incluindo uma antologia de poemas de fado escritos por várias gerações de fadistas mulheres.
O projeto, cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa Europa Criativa, permitirá que durante a primavera os poemas de Florbela Espanca, por exemplo, sejam publicados em até seis idiomas.
A editora realça que, com este esforço, o seu catálogo alcançará 11 línguas nos primeiros meses do ano, ao lado de novas edições de Luís de Camões e Fernando Pessoa: “Reunindo vozes como Florbela Espanca, Amália Rodrigues, Natália Correia, Fernanda Botelho, Ana Luísa Amaral, entre outras, o projeto ‘Poesia Noun Feminine’ dá visibilidade internacional a grandes autoras que, com talento e ousadia, enfrentaram a tradição patriarcal da poesia portuguesa”.
Com traduções para inglês, espanhol e ucraniano, a coleção pretende reforçar a presença internacional da poesia portuguesa escrita por mulheres e criar um espaço interartístico que dialogue com a música e a imagem.
Entre os títulos do projeto, conta-se “Song of Emerging Homeland and Other Poems” (português-inglês), de Natália Correia, organizada por Cláudia Pazos-Alonso e Andrzej Stuart-Thompson (Universidade de Oxford), com ilustrações de Tamara Alves.
Outra edição prevista é “Mis Versos, Mi Voz: poemas escritos por fadistas mujeres” (português-espanhol) e “My Verse, My Voice” (português-inglês), com textos de fadistas como Amália Rodrigues, Aldina Duarte, Mafalda Arnauth, Cuca Roseta, Carminho e Teresinha Landeiro.
Com edição de Maria de São José Côrte-Real e Maria Espírito Santo (Universidade Nova de Lisboa), traduções de María Matta e Andrzej Stuart-Thompson e ilustrações de Tamara Alves, “a obra evidencia o cruzamento virtuoso entre palavra, música e imagem”, destaca a Shantarin.
“Primera persona: escritoras y artistas mujeres en revolución” (português-espanhol) e “First Person: Women Writers and Artists in Revolution” (português-inglês) é o título da obra que reunirá textos de Natália Correia, Fernanda Botelho, Tatiana Faia e Margarida Vale de Gato, em diálogo com obras de artistas visuais, como Paula Rego, Júlia Ventura, Ana Pérez-Quiroga e Susana Mendes Silva.
Organizada por Bruno Marques (Universidade Aberta e Instituto de História da Arte da Nova) e Eunice Ribeiro (Universidade do Minho), a cujos textos críticos se juntam os de Emília Ferreira (IHA/Nova e Centro Interdisciplinar de Estudos de Género, da Universidade de Lisboa) e Daniel Rodrigues (Universidade de Clermont-Auvergne), a obra explora o autorretrato no feminino antes e depois da Revolução do 25 de Abril.
“Êxtase do outono a ser”, título da obra de Ana Luísa Amaral a ser publicada em edição bilingue português-ucraniano, com organização de Andrzej Stuart-Thompson, tradução de Anna Kotova e ilustrações de Tamara Alves, este livro “atravessa os principais temas da poesia da autora, como a complexidade da experiência feminina e a procura da identidade de género, a incerteza da pós-modernidade e o ecofeminismo”, explica a editora.
Já “Rimas perdidas, vendaval disperso” (obra bilingue em português-ucraniano) “oferece aos leitores a força lírica e emocional de Florbela Espanca, pioneira da grande poesia de mulheres portuguesas do século XX”, acrescenta.
Organizada por Cláudia Pazos-Alonso (Universidade de Oxford), com tradução de Tatiana Badenko e ilustrações de Margarida Fleming, a obra reúne poemas sobre temas universais como a paixão, a liberdade sexual, a perda, a saudade e a morte.
Além da edição em ucraniano incluída nesta coleção, chegam também em março as edições em português, inglês, francês, espanhol e italiano da mesma antologia de Florbela Espanca.
“A poucos anos do centenário do desaparecimento trágico de Florbela, e a pouco menos de um ano de Évora se tornar Capital Europeia da Cultura, esta coleção representa um esforço inédito na divulgação internacional da sua obra”, realca a Shantarin, destacando que todas as obras do seu catálogo estarão disponíveis em todo o mundo, nas versões de papel e ‘eBook’.
Além da poesia feminina, serão publicadas novas edições de Fernando Pessoa e Luís de Camões. Em “Lisboa do Desassossego”, a cidade torna-se protagonista do universo de Pessoa através da voz de Bernardo Soares, que revela ruas, becos, colinas e cafés como cenários de sonho, melancolia e epifania, numa seleção de Diego Jiménez, ilustrada por Giulia Cavallo.
A obra “Amore e disordine del mondo: Sonetti e altre poesie” passa para o italiano uma seleção da lírica de Camões, evidenciando a riqueza do Renascimento e do Maneirismo portugueses, com tradução de Valeria Tocco e ensaio de Vítor Aguiar e Silva.
A nova antologia essencial do “Livro do Desassossego”, organizada por Diego Giménez, com ilustrações de Marta Nunes e prefácio de João Costa, vai ser traduzida para alemão, árabe e russo até junho, e em farsi e chinês até dezembro, depois de ter sido editada no ano passado em português, inglês, francês, espanhol e italiano.
Também a antologia “O Sábio Árabe”, publicada em 2025, que reúne escritos de Fernando Pessoa sobre a civilização arábico-islâmica, terá, ao longo deste ano, novas traduções, em árabe, francês e espanhol.