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Poema ponto de vista

Antigamente, só os ricos tinham automóvel,
Então objecto de luxo e de estimação.
Hoje, só alguns pobres não tem automóvel,
objecto útil, de desgraça, e com interesse.

Antigamente, os fatos só quando velhos,
levavam remendos e fundilhos.
Hoje, já se compram novos com joelheiras
e rasgados, com remendos de cabedal.

Antigamente, as famílias prolíferas viviam felizes.
Hoje, só as pouco prolíferas ou mesmo estéreis
Parecem felizes.
Antigamente, as criadas ofereciam-se
e ouviam as senhoras.
Hoje, as senhoras pedem criadas
e aceitam as exigências destas.

Antigamente, liam-se aos serões romances.
Hoje, adormece-se ao som dos anúncios da T. V.

Antigamente, reuniam-se as famílias
para trocarem ideias e comunicarem-se.

Hoje, reúnem-se as famílias,
para em silêncio ouvirem a T. V.

Antigamente, lamentávamos os primeiros cristãos
por viverem nas catacumbas de Roma.

Hoje, andamos de metropolitano,
e terroristas suicidas transforma-os em sepulturas
e carruagens para a sucata.

Antigamente, os filhos-famílias andavam asseados.
Hoje, os filhos-famílias andam mal vestidos,
porcos, guedelhudos, e outros quase nus.

Antigamente, os pais eram respeitados,
Hoje, os pais calam-se e ouvem os filhos.

Antigamente, os pais eram obedecidos.
Hoje, a maioria dos pais são mandados.

Antigamente, haviam pais que batiam nos filhos
por estes jogarem a bola.

Hoje, há pais que batem nos filhos
por estes não jogarem a bola.

Antigamente, era o verbo que seduzia os homens,
Hoje, è a verba que seduz os homens.

Antigamente, os homens empobreciam com a política,
Hoje, os homens enriquecem com a política.

Antigamente, toda a gente se compenetrava nos seus deveres.
Hoje, ninguém quer compromissos, fala-se só em direitos.

Antigamente, os produtos impunham-se pela sua qualidade,
Hoje, a mídia e a publicidade impõe-nos os produtos.

Antigamente, pedia-se por favor isto e aquilo,
Hoje, exige-se este mundo e também o céu.

Antigamente, a pobreza era envergonhada.
Hoje, muita gentinha e a pobreza é desavergonhada.

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