Nunca esqueci a primeira vez que vi “Perruque”. Estava no Palácio da Ajuda, em 2013, como um eco barroco ao lado do retrato de D. Maria Pia, pintado por Carolus-Duran, na Sala do Retrato da Rainha.
Reencontrei-a agora no Palácio de Liria, em Madrid, exposta junto ao célebre retrato da 1.ª Duquesa de Alba, pintado por Goya, um dos ícones do acervo da Casa de Alba… um lugar indissociável da última duquesa, Cayetana de Alba: a sua irreverência, os cabelos inconfundíveis, a liberdade com que ocupou o seu lugar no mundo.
Feita com os mestres da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, “Perruque” não é apenas um objeto belíssimo em ébano, amaranto e embutidos. É uma personagem. Nas suas formas cónicas, rematadas por perucas de várias cores e feitios, entre o belo e o absurdo, encarna o que tantas vezes se esperou do feminino: ornamentar, brilhar, disfarçar.
Talvez por isso me diga tanto. O meu próprio cabelo, encaracolado e sensível ao humor da meteorologia… com chuva, transforma-se num manifesto. Com humidade, num protesto silencioso. Entre difusores, cremes, óleos e secadores de emergência, sou forçada a coreografias diárias.
Todos os que me conhecem sabem das minhas mudanças de humor sempre que o tema é o cabelo. Não digo isto para me comparar a rainhas ou duquesas. Apenas para lembrar que rainhas e duquesas também são mulheres. Apenas pisamos palcos diferentes da vida.
O Palácio de Liria, residência oficial da Casa de Alba, guarda uma das coleções privadas histórico-artísticas mais importantes do mundo. Mas, para além da grandiosidade dos seus salões e obras, é também palco das rotinas diárias de uma família. Ali brincam os netos do atual Duque de Alba, sob o olhar atento (e elegantíssimo) de Sofia Palazuelo, futura duquesa consorte de Alba, cujo estilo discreto e contemporâneo já é um exemplo de sofisticação.
Aconselho, mesmo aos mais cépticos quanto ao valor e interesse da obra de Joana Vasconcelos, a visitarem esta exposição. Tal como aconteceu no Palácio da Ajuda, para além da arte, é sempre uma oportunidade para conhecer este belíssimo palácio, onde a história e a vida se entrelaçam nas coisas do quotidiano.
Uma confissão, a propósito: sempre admirei a última Duquesa de Alba, os seus excessos, o seu salero, a sua raça, o seu compromisso com o nome de Alba e com Espanha. A forma como assumiu por inteiro a sua linhagem, de abanico e peineta, foi, e é para mim, a de uma mulher inesquecível.
Goya pintou com alma. Joana reage com engenho. E Cayetana… Cayetana dançou tudo isso de abanico na mão.
Olé!
Ana Príncipe
