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Paula Macedo Weiss: as memórias por um mundo mais tolerante

Nascida numa família de políticos, em Londrina, interior do Paraná, Paula Macedo Weiss cursou mestrado e doutorado em direito na Universidade Eberhard Karls, em Tübingen, Alemanha, país em que vive, desde 1995. Após dedicar-se à advocacia, hoje trabalha em projetos culturais entre Brasil e Alemanha. Com a ascensão da extrema direita em seu país natal e os retrocessos econômicos e sociais por ela representados, decidiu escrever e publicar suas memórias, intituladas Entre Nós (Folhas de Relva Edições, 2020).

Conforme bem observou o escritor e diplomata Alexandre Vidal Porto, seu livro “Trata-se de um exercício de autodefinição associado à análise histórica, sobre o encontro de um país e de uma mulher consigo mesmos, tendo à frente o desconhecido cheio de promessa.”.

Quando a decisão de que era o momento de registrar suas memórias e publicá-las em livro?

Desde a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil, em 2018, vinha ruminando sobre uma forma de mostrar para meus filhos e a geração mais jovem o que isso representava para meu país de origem. Como pudemos retroceder tão rapidamente, colocando em risco os valores democráticos e direitos humanos pelos quais tanto lutamos? Esta e outras indagações me levaram a escrever uma autoficção sobre a minha infância e adolescência, tendo como pano de fundo os 21 anos de ditadura e a retomada da democracia no Brasil.

Pode nos contar um pouco sobre a relação de sua família com a história recente do Brasil?

Meu pai foi um político da oposição durante a ditadura militar e vivi muito de perto os momentos cruciais da retomada da democracia.

Em que momento percebeu as contradições ideológicas entre sua família paterna e materna?

Não havia diferença ideológica entre as duas famílias. Na verdade, elas eram de classes sociais diferentes e era fácil, até para uma criança, constatar, mesmo sem ser tematizado. Quanto às diferenças ideológicas entre meu pai, político oposicionista, e meu avô materno, situacionista, nunca houve desentendimento. Os dois se respeitavam mutuamente. Com a morte prematura do meu avô, havia uma crítica velada da família materna. O clássico antagonismo de classe, uma posição arrogante e típica das classes mais abastadas, em relação à classe média baixa. Obviamente, quanto mais meu pai crescia politicamente e se tornava uma pessoa pública, era mais benquisto. Mas, isso, são especulações. Ele foi um grande intelectual e por esse estofo sempre foi admirado pelos membros da família materna, mesmo que a contragosto. Ele era um social-democrata que lutou sempre pelos mais fracos e oprimidos da nossa sociedade. Meus tios não se interessavam por isso, viviam suas vidas burguesas, distantes desses assuntos.

O que a levou a escolher o direito como formação acadêmica e a abandoná-lo, após vários anos de atuação como advogada?

Estudei direito por exclusão. Sabia que queria as ciências humanas, mas não tinha muito certeza de qual caminho gostaria de galgar. Estudei direito e sociologia. Esta última, não levei até o final. Adorei estudar direito. Na teoria, era inebriante, tanto que continuei os estudos, fazendo mestrado e doutorado, na Alemanha. Nessa época, pensava em me tornar professora universitária, na área de direito público, me tornar uma constitucionalista. Porém, durante o meu doutorado, percebi que a atividade acadêmica era muito solitária e que eu precisava interagir com pessoas para desabrochar. Iniciei minha carreira num grande escritório de advocacia alemão, que atuava primordialmente na área comercial e financeira. Trabalhei por sete anos, mas descobri que a área econômica, lato sensu, não era a minha praia e que precisava me dedicar a uma atividade mais humana, onde eu pudesse transformar, melhorar, nem que fosse um pouquinho, a nossa sociedade. Depois do nascimento do meu quarto filho, resolvi me dedicar exclusivamente ao fomento de atividades e trocas culturais entre o Brasil e a Alemanha.

A decisão de deixar o Brasil, em meados dos anos 1990, para fixar-se na Alemanha, deveu-se a que razões?

Vim para a Alemanha fazer mestrado e, no final, fui convidada pelo meu orientador para fazer um doutorado. Uma coisa levou à outra.

Como foi adaptar-se a uma cultura tão diversa da brasileira?

Apesar de ter sido uma decisão consciente e de livre e espontânea vontade, não foi simples. Para você se sentir em casa, numa nova língua e cultura, demora anos. Por um lado, é um grande presente, a chance de nascer novamente. Duas vidas em uma. Como um nascituro, você precisa passar por diferentes fases de aprendizado e de codificação cultural. Demora muito para você rir das mesmas coisas, descobrir as nuances de comportamento, o que pode e não pode. As regras consuetudinárias, as entrelinhas, é disso que vive uma cultura. Nem sempre foi fácil, mas hoje me sinto parte integrante e ativa da sociedade alemã, que tanto admiro e a quem devo muito.

Há um quarto de século fora do Brasil, como tem sido olhar para o país vivendo longe dele há tanto tempo?

Com muita tristeza e pesar. Somos uma nação de grande diversidade e potência. Infelizmente, vimos sendo dilacerados por políticas egoístas e desumanas. Me recitando: vivi – e os brasileiros vivem – de improviso, num maravilhoso país tupiniquim, de espírito aventureiro e antropofágico, marcado pela cordialidade, pela passionalidade, pelo “jeitinho” e pela gambiarra. Temos tudo para dar certo. Mas, estamos desgovernados, à deriva. A nossa presidência está nas mãos de um ignóbil, um genocida, que há de pagar pelos seus crimes.

Em que os setores progressistas da vida política brasileira terão falhado a ponto de vivermos o trágico retrocesso atual?

Eu acredito que nos iludimos em pensar que a classe dominante iria abrir mão de seus privilégios tão facilmente. Por outro lado, parte da esquerda cometeu erros graves, que a levaram a um descrédito generalizado. Ao mesmo tempo, somos parte de um movimento global que pende para a direita. É terrível, mas terá fim.

Como tem sido trabalhar em projetos culturais entre Brasil e Alemanha? Acredita que o intercâmbio possa se expandir? 

Trabalhar no fomento cultural entre dois mundos que me são tão caros e importantes é um luxo e ao mesmo tempo uma tremenda responsabilidade. Responsabilidade, pois vejo a intermediação cultural como uma atividade essencial para a inclusão social . Indo mais além, acredito que a troca cultural é um elemento fundamental na concepção de um mundo mais tolerante. Espero, sinceramente, que possamos fazer cada vez mais intercâmbios, porém, no momento, a pandemia nos impede de planejar o amanhã. O futuro está muito incerto.

O que um alemão de cultura mediana conhece sobre o Brasil, além dos estereótipos?

Acho que ainda temos muito a fazer para acabar com as reduções: samba e futebol. Mas há um grupo muito bem informado, que conhece as nossas pérolas. Tanto na música, nas artes plásticas, como na cultura. Bolsonaro vem nos ajudando a estar em todas as bocas, sendo manchete de jornais, por razões assustadoras: desmatamento e incêndio na Amazônia, desgoverno, genocídio, políticas anti-indigenistas, etc. Cada dia, um absurdo maior. Isto ajuda, indiretamente, a população em geral, a se informar mais sobre o Brasil, suas riquezas e suas mazelas.

Sobre o autor da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

 

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