De que está à procura ?

Colunistas

Passa a outro e não ao mesmo

© dr

Em meados de junho de 1980, Lisboa ardia sob uma vaga de calor de 40 graus à sombra. Eu passara pela faculdade para conhecer alguns dos meus futuros colegas. Ia retomar os estudos de Psicologia após uma interrupção de um ano.

E lá estava ele, um homem alto e robusto, rodeado por um grupo de meninas airosas e suadas. Trajava calças de ganga justas, um cinto de couro castanho e uma camiseta branca cingida que lhe realçava os músculos. «Popeye, o marinheiro…», murmurei para mim mesma. Chamava-se Luís. Cumprimentou-me efusiva e ruidosamente e quase me esmagou os dedos ao apertar-me a mão. Tinha ouvido falar muito de mim e regozijava-se por – enfim! – podermos travar conhecimento.

Em setembro, começaram as aulas. Pouco tardou até que eu desenvolvesse uma forte alergia ao rapaz. A sua mera presença no canto oposto do anfiteatro bastava para me deixar indisposta. Detestava tudo nele: os casacos em tons pastel, as gravatas berrantes, o grande anel que usava no anelar direito, os seus incontáveis apelidos, a voz tonitruante, a autoconfiança com que se movia e, sobretudo, a facilidade com que se elogiava a si próprio.

Luís sabia o que queria fazer da segunda metade da sua vida. Contava 38 anos, muitos mais do que a maioria dos colegas. Antes de ser estudante de Psicologia, servira no exército e contraíra uma doença profissional misteriosa e invisível, garante de cuidados médicos nos EUA, de uma reforma antecipada e de uma pensão de invalidez substancial. Dizia sem rodeios: «Quero dinheiro. Quero que a comunidade anglófona que vive no Algarve se torne minha cliente. Sabias que as americanas ricas voam para os Estados Unidos para consultarem os seus psicanalistas? Pois quero que elas deixem de voar e venham ao meu consultório!». «Mercenário…», pensava eu.

Dois anos depois, o destino pregou-me uma bela rasteira: ofereceu-mo como único colega de estágio na equipa de Psiquiatria mais ortodoxa de um grande hospital geral de Lisboa: medicamentos e eletroterapia. Trabalhámos juntos durante quase um ano. E falámos muito.

Soube que, com vinte e poucos anos, depois de ter terminado o Colégio Militar, fora pontapeado para o meio do nada, no sul de Angola, com 120 rapazes sob o seu comando. Era contido ao relatar alguns dos violentos episódios que vivera. Mas sempre que falava dos SEUS rapazes, brilhava-lhe nos olhos azulados uma luz escura, uma névoa de lágrimas secretas, choradas há muito, muito tempo. Soube também que, durante a sua terceira campanha, fora severamente punido por ter mobilizado os escassos recursos aéreos disponíveis para resgatar civis feridos. Negros.

Por essa altura começou a tratar-me por «irmã». Queria deixar claro para quem estivesse à nossa volta que não permitiria que ninguém se aproximasse de mim «com más intenções». No hospital, comportava-se como um grande cão de guarda, meio sonolento, mas sempre com um olho aberto. Não me impediu, porém, de me apaixonar por um alemão que, entretanto, conhecera em Lisboa.

No fim do ano escolar, toda a equipa voou para Viena para participar no congresso mundial de Psiquiatria, uma aventura extraordinária que eu não queria perder. Sempre a contar os tostões, fui de comboio, com um passe de Inter-Rail, e instalei-me numa gasthaus barata. O meu namorado alemão – que entretanto regressara à Alemanha – foi ter comigo a Viena no final do congresso. Tinha quatro dias livres.

Na véspera de regressar a Lisboa, Luís, convidou-me para tomar um café no seu hotel. «Não tragas o alemão», disse ele. Sentados no bar, entregou-me um envelope. Abri-o. Lá dentro, estavam 400 xelins austríacos. Uma fortuna. Olhou-me fixamente.

«Vais dizer-me que uma mulher honrada não aceita dinheiro de um homem. Eu sei disso. Sei tudo melhor do que tu. E é por isso que deves aceitá-lo. Em primeiro lugar, porque não preciso dele. Em segundo, porque apenas é suficiente para três ou quatro dias. E não é isso que queres? Por que raio deitarias pela janela fora a oportunidade de passar quatro dias em Viena com o homem que amas? Quantas pessoas têm uma oportunidade destas? E rejeitarias essa oportunidade apenas por… orgulho? Não, não faças isso, mulher! Aceita este dinheiro, aproveita-o ao máximo e, acredita, a lembrança destes quatro dias vai aquecer-te o coração por muitos anos. E não te preocupes… tenho a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, terás dinheiro para me pagar. Cala-te, mulher! Sei que vais ter… E quando esse dia chegar, não me pagues. Faz antes o mesmo por outra pessoa!».

**********

Há coisas dos diabos. Há uns dias recebi uma mensagem de um amigo. Agradecia-me o acolhimento que lhe tinha sido reservado durante a sua estada no Luxemburgo. E houve uma frase que me ficou a martelar na cabeça: «Durante quatro dias, fui feliz. E isso devo-o a si.». As mesmas palavras, mais vírgula, menos vírgula, que eu disse ao Luís quando voltei a vê-lo em Lisboa, depois de Viena. Passaram mais de 40 anos e não me esqueci. No fundo, é simples: o que puderes fazer, faz. É quase um jogo de criança: passa a outro e não ao mesmo.

Eduarda Macedo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA