Os números mais recentes sobre o mercado de trabalho em Portugal, a 2 de fevereiro de 2026, mostram um país em transformação acelerada — mas também profundamente marcado por contradições estruturais que continuam por resolver.
À primeira vista, o panorama é positivo. Portugal tem hoje cerca de 5,3 milhões de pessoas empregadas, mais 20% do que há uma década. Nunca houve tantos trabalhadores qualificados: 1,61 milhões possuem ensino superior, um aumento de 70% em dez anos, e um em cada três trabalhadores é diplomado. Entre os jovens adultos, metade concluiu o ensino superior — um feito notável quando comparado com o país de há 20 anos.
No entanto, este progresso educativo e quantitativo não se traduz, de forma consistente, em estabilidade, rendimento ou autonomia.
Apesar do crescimento do emprego, 18% da população ativa continua em situação contratual precária, e quase 300 mil pessoas permanecem desempregadas, metade das quais há mais de um ano. O dado mais inquietante continua a ser o desemprego jovem: 19,4%, significativamente acima da média europeia. Estamos a formar melhor, mas a integrar pior.
O salário mínimo, hoje fixado em 920 euros brutos, cresceu quase 90% desde 2015, e o poder de compra acompanhou parte dessa evolução. Ainda assim, 1,5 milhões de trabalhadores vivem com o salário mínimo, enquanto o salário mediano — aquele que melhor reflete a realidade da maioria — continua entre 1.200 e 1.350 euros brutos. Num país com custos de habitação crescentes, este valor é insuficiente para garantir autonomia. Não é por acaso que mais de metade dos jovens entre os 25 e os 34 anos ainda vive em casa dos pais por razões financeiras.
Ao mesmo tempo, Portugal tornou-se um país de imigração em larga escala. 1,55 milhões de estrangeiros residem atualmente em território nacional, representando 14,4% da população. São hoje essenciais para setores críticos como a hotelaria, a restauração e a construção civil. Esta realidade desmonta definitivamente a narrativa de que a imigração é marginal: ela é estrutural ao funcionamento da economia portuguesa.
Paradoxalmente, enquanto recebemos trabalhadores estrangeiros, cerca de 2,3 milhões de portugueses vivem no estrangeiro, muitos deles altamente qualificados. O país forma, mas não consegue reter. A economia cresce, mas não fideliza.
Do ponto de vista macroeconómico, Portugal apresenta sinais encorajadores: exportações representam 47% do PIB, o turismo atinge valores recorde com 33 milhões de visitantes em 2025, e o país posiciona-se como destino atrativo para startups e nómadas digitais. Ainda assim, o PIB per capita continua nos 80% a 85% da média europeia, revelando um atraso persistente na convergência real.
Há, por fim, um Estado envelhecido a tentar responder a estas tensões. A função pública tem 750 mil trabalhadores, com uma idade média de 48 anos, enquanto a idade legal da reforma se aproxima dos 67. A sustentabilidade do sistema depende, cada vez mais, de uma população ativa estável, qualificada e bem remunerada — precisamente aquilo que o país ainda não garante.
Portugal não está parado. Longe disso. Mas cresce de forma desequilibrada. O desafio já não é criar emprego ou formar pessoas. É fixar talento, garantir rendimentos dignos, reduzir a precariedade e permitir que uma geração inteira possa, finalmente, viver de forma independente no seu próprio país.
Os números contam uma história de progresso. A experiência quotidiana de muitos portugueses conta outra. Entre ambas, está o verdadeiro debate que o país ainda precisa de fazer.
Jorge M. Fonseca
