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Os sonâmbulos e a importância da Europa

Os populismos que vão crescendo cegamente um pouco por todo o mundo são, antes de mais, movimentos anti-humanistas, elitistas, segregacionistas, soberanistas e profundamente divisivos das nossas sociedades. Como se tem visto com o que acontece atualmente no Reino Unido ou nos Estados Unidos, os populismos que levaram os atuais governantes ao poder são a causa do maior caos, incerteza, bloqueios e dramatismo social e político.

Ao populismo está invariavelmente associada alguma forma de nacionalismo, que por sua vez justifica a defesa de valores soberanistas, muitas vezes em contraposição a organizações multilaterais acusadas precisamente de enfraquecerem as funções de soberania do Estado nação. Neste sentido, o Reino Unido cria o “Brexit” em antagonismo com a União Europeia que tem sido o bode expiatório de todas as más governações e problemas nacionais. A Itália insurge-se contra a União Europeia, mas também contra a França, como não tinha ainda acontecido desde a criação da CEE. A Hungria e Polónia fazem o seu caminho autoritário contra os valores e princípios da União Europeia. E os Estados Unidos afirmam-se contra todos, mas particularmente contra alguns dos seus aliados tradicionais e a generalidade das instituições multilaterais políticas e económicas surgidas no pós-guerra.

Em comum, todas estas formas de nacional-populismo identificaram como inimigos os migrantes e, em maior ou menor grau, os muçulmanos, que, como afirma o ensaísta Sami Nayr, são os judeus e os comunistas dos tempos do nacional-socialismo alemão.

Pelos exemplos surpreendentes que têm surgido, o programa desses partidos que tomam o poder são retrógrados e obscurantistas, representando um claro retrocesso civilizacional, depois de décadas de luta pela conquista de direitos fundamentais e de respeito pelos outros, particularmente pelas minorias que existem sempre em todos os países do mundo.

São estes direitos, em todas as suas dimensões, que agora estão a ser duramente atingidos com a maior das insensibilidades e até com ódio, particularmente com o alvo em algumas minorias, sejam elas religiosas, políticas, sexuais ou étnicas. O Brasil ou os Estados Unidos são exemplos chocantes destas novas realidades que estão a tornar-se a normalidade. Diariamente os jornais divulgam de forma inquietante acontecimentos, decisões políticas e o aparecimento de novos protagonistas, como recentemente aconteceu com a entrada no Parlamento da Andaluzia do partido reacionário Vox, que defende o desmantelamento das estruturas autonómicas, a construção de muros para parar os migrantes, a instauração do machismo e o regresso aos valores da ruralidade.

Na realidade, aquilo que há uns anos julgávamos impossível ocorrer nas nossas sociedades está agora a verificar-se com o avanço de forças obscurantistas, que quanto mais influência têm mais atacam e enfraquecem as instituições democráticas e o Estado de Direito, para assim poderem exercer mais eficazmente o seu controlo sobre o conjunto da sociedade, de que a Polónia e a Hungria são exemplos claros.

Molda-se o poder judicial à vontade de quem governa, limita-se a liberdade de expressão e da imprensa, atacam-se as elites, põe-se em causa o progresso científico, estigmatizam-se partidos políticos e organizações não governamentais, reescrevem-se os programas escolares em consonância com a ideologia retrógrada dos novos protagonistas, quantas vezes com a conivência de partidos claramente defensores do Estado de Direito e dos Direitos Humanos. Assim, aos poucos, uma pulsão autoritária e isolacionista vai ganhando cada vez mais influência no espaço da União Europeia e nas democracias ocidentais, enquanto o autoritarismo declarado se reforça em países estrategicamente relevantes, como a Rússia ou a Turquia, tanto um como outro com grande influência a nível regional e global.

Em contraposição, devia, por isso, perceber-se a importância fundamental da União Europeia enquanto instituição multilateral para manter a unidade europeia face a potências a quem beneficia o seu enfraquecimento ou mesmo a sua implosão, para melhor afirmarem os seus interesses no contexto da geopolítica global, como é o caso de países como a Rússia, Turquia, China e agora também os Estados Unidos da era Trump.

Entretanto, está instalada uma certa desordem em instituições multilaterais até há pouco tempo estáveis, como se verifica com as ameaças entre países parceiros na NATO (Estados Unidos-Turquia), divisões acentuadas no seio da União Europeia (apoio da Itália aos “coletes amarelos” que contestam o Presidente Macron em França) e ingerências externas perigosas em alguns países, como acontece na Venezuela (Estados Unidos e Brasil) ou no Iémen (Arábia Saudita e Irão). Resultado: já não se sabe quem são os amigos e aliados dentro das instituições multilaterais que se construíram no pós-guerra para dar paz, estabilidade e progresso ao mundo.

Claro que existe um problema de fundo que está relacionado com a globalização, o ascendente do poder financeiro e as desigualdades sociais que precisa de ser resolvido. Entretanto, porém, é urgente haver um sobressalto cívico para defender e proteger a União Europeia e travar a maré reacionária e retrógrada que vai crescendo com os partidos e movimentos extremistas, para não sermos os sonâmbulos que Christopher Clark refere no seu extraordinário livro sobre os acontecimentos que no início do século XX conduziram o mundo para o abismo que foi a tragédia da I Grande Guerra. Basta um clique, como foi o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, na Bósnia.