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Os poetas são criminosos

Cuidado! Não se enganem!

Os poetas são, na maioria, criminosos. Alguns cometem crimes dolosos; outros, culposos. Eles são autores de delitos pequenos, médios, grandes… muitos destes delitos de consequências irreversíveis. Estes são os poetas perenes, artistas que não abdicam da sua arte por nada neste mundo. Poetas que, sem que os leitores percebam, se aproximam, sorrateiros, e os pegam de surpresa. E ainda há uma agravante durante o seu ato: vítima do abuso de poder dos poetas, da sua alta capacidade de persuasão, o prisioneiro nunca desejará fugir.

A sua culpa e o seu dolo se medem pela intencionalidade da sua abordagem. Mas também podem haver variações. Pois muitas vezes o impacto da ação sobrepuja a intenção ou a falta desta. Então, a culpa  pode se transformar em dolo e o dolo em culpa. 

Há dois tipos de poetas: aqueles que roubam a tristeza dos leitores, injetando altas doses de vida em suas veias; e aqueles que, provavelmente sem intenção, surrupiam deles a alegria, a fé, a esperança. 

Lembrando que o tipo com o qual alguém se depara em um momento, pode ser o outro daqui a pouco, amanhã, na semana seguinte ou dentro de alguns anos. Explico: é que o poeta é um eterno descontente, ele não se apega ao marasmo, evita a água salobra, não se acomoda, ele tem o espírito camaleônico e se transforma de acordo com o que vê, com o que ouve, com o que sente. 

O poeta é movido pelo combustível da emoção.

Mas há, também, entre tantos poetas, os não criminosos, aqueles que não têm a capacidade para agir com eficácia estando sozinhos. Estes nunca serão aceitos numa genuína gangue de poetas.

Estes poetas não-criminosos são os poetas eventuais, cujos versos não causam qualquer impacto em quem os lê. 

Criam (ou recriam) versos que, depois de lidos, são imediatamente esquecidos, não provocam o desejo da releitura, não fazem sorrir ou chorar, não encantam, não emocionam, não deixam marcas, passam e não deixam rastros.

Acho até que estes tipos de poetas deveriam inclusive ser enquadrados como criminosos da pior espécie e trancafiados sem fiança, já que não contribuem nem para o bem, nem para o mal de quem os lê. Na verdade, contribuem para o mal, sim, fazendo os leitores perderem tempo. 

Assim como os poetas, outros tantos artistas também cometem seus crimes diuturnamente: romancistas, cronistas, contistas, cantores, instrumentistas, pintores, escultores, equilibristas, ilusionistas, arquitetos, atrizes, atores, cineastas e muitos outros fazedores de arte. Todos aqueles cuja arte emociona e faz com que as pessoas se transformem, se encontrem, se percam, briguem, se tranquem em si, explodam, vivam, matem e morram.

Ninguém é capaz de perceber, somente pela sua fala, pela sua escrita, pelas suas atitudes, o que passa pela cabeça dos poetas e de outros tantos artistas. E quase todos são, em grande parte,  criminosos reincidentes, contumazes e incorrigíveis. 

 E, além de assassinos, muitos deles, de repente, pra surpresa de todos, se revelam suicidas. 

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ANTIPOETA

Cuidado, muito cuidado! 
Preste bastante atenção!
Há um ladrão disfarçado, 
de olho no seu coração.

Muitos poemas que você anda lendo, 
ele diz que pra você está escrevendo.
A sua emoção de repente vem à tona,
e você — seduzida — se apaixona.

Mas cuidado! Muito cuidado!
Ele é mestre no papo-furado!
Poeta camaleão, camuflado,
este larápio vive no escuro, 
espreitando por trás do muro.

É pessoa mesquinha e perdida, 
isolada na esquina da vida.
Vate fraco e controverso,
não escreve nenhum verso
e o alheio,
diz que escreveu.

Quem sabe não enlouqueceu…
(você pensa que ele sou eu?)

Ele rouba o texto e o assina.
De alma assaz pequenina,
adultera, fere o verso 
e o assassina.

Remisson Aniceto 

Poeta de Nova Era, Minas Gerais, Brasil

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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