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Os comunas e a Festa

Os comunas têm uma coisa que inquieta largamente os fazedores de opinião deste país: são organizados. São organizados de tal forma que levaram, aquando da morte do Álvaro Cunhal (como todas as mortes, sem data e hora marcada), dezenas de milhares de pessoas para Lisboa.

São tão organizados que quando se tratou do 1º de Maio cumpriram todas as regras do cardápio, apesar das fotos em ângulos manhosos que a imprensa se aprestou a publicar.

Os comunas sentem orgulho e têm brio em respeitar essa sua organização.

Os comunas comprometeram-se, como é seu apanágio, a cumprir e fazer cumprir a lei. Quantas manifestações de comunas acabaram à calhoada? Quantas acabaram com a destruição de mobiliário urbano? Quantas acabaram com seja lá qual for violação da lei e das normas sociais não escritas?

Os comunas não gostam de muitas das leis desta sociedade. Os comunas não gostam deste modelo de sociedade, para ser mais preciso. Mas têm para si que a mudança não vem pelo o uso irracional da violação da lei mas sim pelo mudar das condições objectivas por pressão, nas ruas ou nas urnas, popular. Por isso, seguem as leis. A luta a que os comunas se propõem é dura já de si, mais faltava que tivessem que a dificultar ainda mais com as consequências do desrespeito às normas que, afinal e bem ou mal, são um produto da sociedade e das correlações de forças nelas existentes.

Os comunas comprometeram-se a fazer a Festa do Avante uma vez mais no primeiro fim de semana completo de Setembro. As autoridades competentes impuseram regras que não impõem em mais lado nenhum: autocarros, fábricas, escritórios, restaurantes, praças de touros, casinos, santuário de Fátima… As autoridades impuseram regras muito mais rígidas do que aquelas que deixaram violar sem qualquer complexo nos locais acima referidos.

As regras ditam que no recinto da Festa só possam estar, a cada momento, um máximo de 16.500 pessoas. O recinto da Festa! tem 300.000 metros quadrados (trezentos mil – são 30 campos da bola). As regras ditam que em cada um desses campos só possam estar 550 pessoas. O que dá o equivalente, em eclesiásticas unidades, a 1 pessoa por aproximadamente cada quatro varas quadradas. Para laicos, isto quer dizer uma pessoa por cada 16 metros quadrados. Quantos fiéis cabem, no santuário de Fátima, por vara quadrada sem que a lei se viole nem a imprensa se indigne.

Os comunas são organizados, já tinha dito?

Têm corredores de circulação de sentido único, têm áreas reservadas para poder assistir aos espectáculos musicais, têm casas de banho limpas muito mais vezes que qualquer hotel de 5 estrelas ou casino, e muito mais vezes que qualquer comboio da CP – os que as abrem, ou abriam em tempos em que distância física e social queriam dizer coisas diferentes.

Os comunas, uma vez mais, vão mostrar que o respeito colectivo pelas normas que escolheram adoptar é algo que fazem sem qualquer sacrifício ou dificuldade. Porque os comunas acreditam na coisa comum. Acreditam na responsabilidade de cada um perante o todo.

Vão aparecer milhares de fotos em ângulos manhosos. Vão aparecer relatos de tudo e algo mais. E depois, como no seguimento do 1º de Maio ou depois do comício do PCP, virá o silêncio. Vira a próxima “luta” duma comunicação social que joga tão baixo e de forma tão primária que não se coíbe de apresentar como verdadeira uma capa do New York Times que era visivelmente fabricada por um puto de 7 anos com acesso ao Paint.

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