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O terrorismo e o futuro da Europa

A Europa parece estar, finalmente, unida num propósito: no combate ao terrorismo, como decorre da invocação pela França do artigo 42.7 do Tratado da União Europeia, que apela à assistência mútua quando um dos membros é atacado, mesmo que a participação de cada um se faça com um empenho muito variável.

Os atentados demenciais que atingiram Paris a 13 de Novembro uniram os europeus e a União Europeia, que tem vivido um processo lento de erosão interna, simultaneamente potenciado pela incapacidade de dar resposta a problemas e crises importadas do exterior e, internamente, pelo lento mas constante avanço de correntes antieuropeístas, nacionalistas, populistas e xenófobas.

O terrorismo, primeiro com a Al-Qaeda e depois com o Estado Islâmico, tem minado os fundamentos da construção europeia, tornando os cidadãos mais fechados e intolerantes e menos disponíveis para aprofundar o projecto europeu. O grande ponto de viragem foi o 11 de Setembro, que teve posteriormente claros reflexos em momentos importantes na vida da União Europeia, trazendo a discussão cultural e religiosa para o debate político europeu, com consequências claras na rejeição do Tratado Constitucional e na hostilidade crescente à adesão da Turquia, que entretanto também se distanciou da Europa e se tornou mais conservadora e autoritária.

Depois do 11 de Setembro, os partidos de extrema-direita eurocépticos, populistas e nacionalistas foram-se tornando cada vez mais omnipresentes na grande maioria dos países membros da União Europeia, seja directamente pela participação em governos de coligação, seja pela sua expressão nos parlamentos nacionais. A crescente importância que tem ganho em França a Frente Nacional de Marine Le Pen é absolutamente preocupante para todos os democratas e europeístas, o mesmo acontecendo com o rumo que países como a Hungria e a Polónia estão a tomar, desafiando em permanência os valores e princípios humanistas que constituem os fundamentos do projecto europeu. Por outro lado, o Reino Unido, que viveu os horrores das Grandes Guerras, lá continua sobranceiramente o seu percurso de chantagem e afastamento da União Europeia, contribuindo também para a inquietação colectiva sobre o futuro do projecto europeu.

A União Europeia é fruto de um dos mais belos e promissores projectos políticos jamais criados pela humanidade, diametralmente proporcional ao que foi o horror das Grandes Guerras que marcaram tragicamente o Século XX. É acima de tudo um projecto liberal de paz, progresso e solidariedade. Mas nem por isso o fantástico percurso da União Europeia e os seus princípios e valores foram suficientes para impedir que a guerra chegasse à Europa. A determinação dos 28 em se envolverem no combate ao terrorismo, a presença militar em diversos teatros de conflito e os atentados terroristas que vão atingindo o nosso quotidiano com o seu horror aí estão para o demonstrar. E a lista dos atentados vai crescendo: Madrid em 2004, Londres em 2005, Bruxelas em 2014, Copenhaga em 2015, em Paris duas vezes em 2015. Sem contar, claro, com outros ataques de menor dimensão e com dezenas de tentativas de atentado em muitas cidades europeias que foram evitadas pelos serviços de segurança.

Existe actualmente uma elevadíssima instabilidade regional, de que o Médio Oriente ou a tensão absurda entre a Rússia e a Turquia são exemplos muitos preocupantes. No contexto de guerra em que estão a ser cada vez mais mobilizados soldados e meios militares europeus (e internacionais) para países como a Síria, o Iraque, o Mali e outros, a Europa devia estar verdadeiramente unida para aguentar o elevadíssimo potencial desestabilizador que estas ameaças representam, não apenas para cada país individualmente em termos de segurança, mas para o próprio projecto europeu.

Num curto espaço de tempo nos últimos anos a Europa foi abalroada por diversas crises para as quais não estava preparada para responder, o que tem tido evidentes reflexos negativos nas opiniões públicas europeias: falhou na resposta à crise financeira, ao conflito na Ucrânia por falta de visão estratégica, e na crise dos refugiados, primeiro sendo incapaz de travar os fluxos migratórios e de evitar as mortes dramáticas no mediterrâneo e, depois, mostrando falta de solidariedade e erguendo muros, que sempre foram criticados na Europa, onde quer que fossem erigidos.

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