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O tempora, o mores (oh tempos, oh costumes)

Esta expressão em latim, atribuída a Cícero, traduz um desabafo que este famoso tribuno e cônsul romano introduziu um dia num discurso para indicar o seu desagrado com a dissolução (devassidão, perversão) de costumes na sociedade romana de então que, como sabemos, acabou mesmo por conduzir à queda do Império Romano.

Não consegui determinar ao certo o que é que o terá motivado a utilizar esta expressão, mas o facto é que mais de 2.000 anos depois (Cícero viveu entre 106 AC e 43 AC), ainda nos apetece gritar a bandeiras despregadas “oh tempos, oh costumes” perante as manifestações gritantes de falta de sentido cívico que vamos conhecendo.

Não sei exatamente onde erraram os pais (sim, os pais, e não a escola) desta caterva de adolescentes trogloditas e energúmenos que pululam por aí, mas o facto é que existe um problema sério com eles, e se não se discute o tema abertamente e o enfrentamos como sociedade com firmeza, vamos ter hordas de adultos incivilizados e mal-educados a gerir os destinos do nosso país dentro de menos de uma geração.

Uma amiga que muito prezo, e que leu o artigo que escrevi para a Executiva.pt sobre a péssima e irresponsável gestão do património imobiliário público feita pelo Estado, escreveu-me a dizer que ficou triste, porque uma sua irmã estudou no Instituto Superior de Agricultura (ISA), que gere a Tapada da Ajuda e, na altura em que frequentou o curso, a Tapada aparentemente estava melhor gerida e acautelada do que hoje (pelo menos no tocante ao património imobiliário que contém no seu interior).

Esta amiga escreveu a terminar umas linhas que mexeram fundo comigo, e me deram o lamiré para partilhar este artigo de opinião: “Outro aspeto revoltante é a destruição de bens públicos pelos cidadãos. Na zona onde habito, numa destas noites, grupos de jovens derrubaram um tronco enorme de uma enorme árvore frondosa, e destruíram o portão de cerca de um parque infantil. Além dos tutores, que não apanham os cocós dos seus cães, e de pessoas que almoçam e deixam o lixo no banco do jardim.” Conclui a minha amiga “falta educação, sentido cívico e a noção de que somos todos quem pagamos”.

Estas palavras não traduzem infelizmente um epifenómeno isolado ou passageiro, restrito a uma zona do país, mas um problema civilizacional muito sério que devemos encarar e atacar sem dó nem piedade, sob pena de daqui por umas dezenas de anos andarmos todos a resolver problemas aos tiros, numa cena parecida àquelas previsões hollywoodianas distópicas do Mad Max .

Quem leu a notícia recente sobre o inenarrável fenómeno anual que ocorre em Vila Nova de Milfontes, sabe que já estivemos mais longe de lá chegar. Para quem não tenha estado atento à notícia, todos os anos os papás de umas largas centenas de idiotas betinhos de Lisboa e Cascais, para celebrar o facto de os meninos terminarem o ano letivo, permitem-lhes que aluguem casa em Vila Nova de Milfontes, uma idílica freguesia do município de Odemira, no Alentejo.

Estes jovens, entre os 14 e os 16 anos, embebedam-se sistematicamente e passam as noites em atos sérios de vandalismo. Destruição de património (casas, carros), pichagens de cariz insultuoso em paredes recém-caiadas (o Alentejo preza a sua alvura e limpeza), destruição de parques e jardins, com derrube de árvores, quebras de vidros, etc.. Isto ocorre há vários anos e, como vimos recentemente, a GNR vê-se impotente para acudir ao que quer que seja no Alentejo, porque há um par de “gatos pingados” em cada esquadra a ter de cobrir território, e a ter de garantir a segurança, em dezenas de quilómetros de área.

A única forma que os habitantes de Vila Nova de Milfontes encontrou para salvaguardar a sua proteção, e a dos seus bens, foi a criação de brigadas de cidadãos armados de paus (para já), que passam a noite em vigilância, até que os betinhos inebriados recolhem aos seus aposentos. Os grupos de cidadãos vigilantes conseguiram já obter significativos resultados, que a GNR, por manifesta falta de operacionais, nunca logrou alcançar.

Se a moda pega pelo país fora (no Algarve já há brigadas noturnas de cidadãos para impedir roubos de alfarroba, por exemplo), e os varapaus evoluem tecnologicamente para armas de fogo (os betinhos ainda não, só são responsáveis pelo vandalismo, mas os larápios andam armados), teremos uma versão moderna de Mad Max em Portugal.

O problema do combate ao vandalismo é um problema de educação cívica, que devia obviamente começar em casa. Os pais dos betinhos, com carteiras bem recheadas, que certamente se queixam da perseguição da AT, e do nível estratosferico de impostos, taxas e taxinhas que pagamos em Portugal, deviam ser capazes de explicar urbanamente e convincentemente aos filhos que destruir propriedade pública (parques urbanos infantis, equipamentos de lazer, etc.) e fazer pichagens nos vai sair ainda mais caro. Somos de tal maneira mansos que até vândalos espanhóis vêm para Portugal em viagens organizadas para pichar e rebentar o que no país deles não podem, querem ou conseguem fazer. Os parques infantis em qualquer canto de Espanha, por exemplo, estão um primor, ninguém se lembra de os vandalizar !

Mas também, haja ou não pais objetores que não querem que os filhos recebam educação cívica na escola, a escola deveria ter um papel igualmente importante na transmissão de valores de respeito colectivo, de sentido cívico. Sem matizes de cartilha partidária e ideológica, apenas aquelas verdades, deveres e obrigações cívicas universais que vão (iam?) passando de geração em geração nas famílias. A começar desde a mais tenra idade, que é quando as crianças absorvem com genuíno interesse e atenção as matérias que lhes são ministradas, se apresentadas de forma interessante (veja-se o exemplo do Japão onde o ensino às crianças de tenra idade destaca e exalta o valor dos cidadãos idosos – e dos professores – para a sociedade), e não na adolescência rebelde, em que, por falta de bases familiares, este tipo de matérias são objeto de gozo e escárnio incontrolável nas aulas.

Acho estranho que as ditas esquerdas, por via de regra sempre na vanguarda da luta pelas causas civilizacionais mais estranhas e direitos de minorias, não peguem nesta causa, que é estruturante para o nosso convívio em sociedade. Fazer os jovens entender que a nossa liberdade acaba exatamente onde começa a liberdade dos outros não devia ser tão complexo assim.

José António de Sousa

 

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