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O tempo dos incapazes

O título, ligeiramente modificado, refere-se a um documento escrito por Joaquim de Azevedo a propósito da educação profissional, “O ciclo dos incapazes”. Da incapacidade de estabelecermos compromissos sociais e políticos concretos. Mas na verdade nós somos uma sociedade de gente capaz. Podíamos ser melhores? Podíamos. Mas teria de existir um pacto não só entre os partidos (ninguém me convence que sem eles teríamos melhor democracia), mas dentro dos próprios partidos. Teríamos de garantir que os melhores e mais aptos à vida pública teriam a seu lado os mais críticos, os mais honestos e os mais lúcidos.

Este parece ser o tempo dos incapazes. O tempo em que não há tempo para criar e sistematizar ideias e implementar projectos que durem mais que um instante. Tudo é “fast” nesta década. As redes sociais fizeram de cada utilizador um analista político, dono de um jornal privado, que debita incoerências, maledicências e, num instante, temos um mundo que vale pouco mais do que uma paralisia intelectual.

O tempo da crítica, da gentileza e da honra morreram. E vemos isso na política. Naqueles que se arrogam a “politics superstars” e que secam tudo à sua volta. Quando não usam o seu jornal privado, pagam aos amanuenses ou aos mais rasteiros para escreverem as baboseiras primárias de quem não está confortável com o seu próprio pensamento. Isso paga-se. É uma questão de tempo. Ao contrário do que oiço, o povo não é burro nem idiota. É bem sabido. Tão sabido que dá respostas nas urnas.

Domingo, na Madeira vamos pela terceira vez às urnas. No resto do país, será a segunda vez. E da mesma maneira que o povo sabe o que faz, também tem memória. Memória de quem tentou e não conseguiu. De quem mordeu e não se feriu. De quem os serviu e não esmoreceu. De quem lhes traiu as expectativas. O povo somos nós, eu, tu e ele, permita-me o leitor o tratamento informal. Temos a memória recente dos que foram embora. Dos que já não voltam. Dos que se sentem traídos pelos Passos da direita. E dos que querem um Portugal melhor. O meu país é a minha casa e é na minha terra que me deito. Hoje e sempre.

Portugal está melhor. Temos gente capaz, mas que não é infalível. Tentarão a cada falha melhorar. A cada queda se levantar. E quando o cansaço for grande, a gente desta terra saberá compreender que sozinhos não somos nada. Que todos deveríamos ser chamados a participar junto dos que escolhemos para nos liderar. Não é líder aquele que exclui. Que deixa na beira do prato os que sempre o acompanharam. Não é líder aquele se fecha sobre si mesmo num caciquismo que o engole e à sua infância. Quem é incapaz de voltar a cabeça é porque os grilhões já o mataram. Já não pensa. Já não sente. Já não sabe quem é.

“Estranho quadro e estranhos homens são esses de que tu falas – observou ele. Semelhantes a nós – continuei – (…).”

(PLATÃO, República, 514abc, 515a)