
Raras vezes encontro o Silvério que não venha zangado. Rosto carrancudo, olhos arregalados, boca cerrada, braços e mãos agitadas.
Basta escutar: notícia, frase, opinião, que não concorde, para ficar exaltado; e logo que chega à cafetaria ou cruze no caminho com conhecido, dispara e despeja a raiva, com fúria e gestos.
Hoje fui a vítima, deste pobre diabo – diabo, não. O Silvério é dos poucos que conheço, que é amigo do seu amigo; homem de costumes antigos, pronto a auxiliar, pronto a acudir quem precisa.
Mas tem feitio belicoso e a cada passo desanca sem dó e piedade, que é de ficar de boca escancarada…
Desta vez foi o facto do inglês passar a ser disciplina eliminatória no ensino primário.
Com palma da mão estendida, iniciou seu discurso, depois de se ter sentado diante da mesa, onde, pachorrentamente, lia o jornal e tomava o cafezinho.
– “Vê lá tu que disparate: equiparar o português ao inglês! Eu sei o que eles querem, é destruir tudo… Primeiro foi com “desacordo” ortográfico, agora é com o inglês…
“ Quando era novo diziam que a pátria era a língua. Devíamos escreve-la e fala-la correctamente; e Eça até recomendava que se devia falar defeituosamente as línguas estranhas.
“Agora, fala-se muito em soberania. Que temos novecentos anos de História. Que não recebemos lições de ninguém… e vamos obrigar as crianças a saber inglês! …Eles que mal sabem português! …”
Como lhe dissesse que o inglês é imprescindível. Ferramenta necessária neste mundo global; e isso não é desrespeito com a língua e menos ainda com a Pátria. Silvério encarou-me de frente, fez careta de nojo, e espichando os beiços, continuou:
“Eu sei o que eles querem. Querem que os europeus, em lugar de utilizarem o esperanto, como segunda língua, usem o inglês. Assim podem fazer da Europa uma Federação americanizada.
“Bem sei que depois de terem acabado com as fronteiras; haver moeda comum; de darem cidadania europeia, a meio mundo; de permitirem que todos votem; só resta a língua, já que as tradições, aos poucos vão acabando…assim como a raça.
“Antigamente havia orgulho na raça. Havia até o dia de Camões e da raça…. Agora já não há “raça” em Portugal…”
Sei que não se deve contrariar ou argumentar gente exaltada, mas era demais…E pousando o jornal, disse-lhe em voz mansa:
“Silvério: tu tens razão, mas pensa bem. Não podemos remar contra a maré. O mundo evoluiu, já não é o mesmo da tua juventude. Os jovens devem estar preparados para novos desafios. O inglês e até o mandarim, são línguas necessárias. Tu tens razão quando dizes – porque não se adopta o esperanto? É fácil e não havia a ideia de sermos colonizados pelos americanos e ingleses. Nisso tens razão. Mas que havemos de fazer?! Se quem manda não é dessa opinião? …
Meu amigo Silvério calou-se. Havia no café murmúrios de conversas abafadas. Ruídos de chávenas chocando. Gritinhos de crianças, que brincavam…
E quando pensava, vendo as faces de Silvério, desencrespadas, que o assunto estava morto, saísse com esta:
“Sabes o que há-de acabar com o Ocidente? São essas modernices…A ampla liberdade…Qualquer dia, sem esperar, acontece o que sucedeu ao Império Romano. Em Roma, dançava-se, divertia-se, brincava-se e mergulhava-se em modernices e desvergonhas. Vieram os bárbaros e desbarataram tudo. Arrasaram tudo. E o mundo entrou na obscuridade.”
Refutei a riso:
– Mas já não há bárbaros! …
– “Não!” – Respondeu, levantando-se. Colocou o chapéu de feltro preto, na cabeça e rematou:
– “Já há mouro na costa! …”
