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O fenómeno “Game of Thrones”

Para muitos, é chegado o momento de glória! Após um longo hiato, o maior fenómeno da cultura pop televisiva dos últimos anos está de volta, desta vez para a sua derradeira temporada. Falo-vos de “Game of Thrones” ou de “A Guerra dos Tronos”, em português, a série que arrebatou fãs por todo o mundo, que bateu recorde atrás de recorde, levou o seu elenco ao estrelato e transformou em best-seller a série de livros na qual se baseia. Sendo a série mais premiada de sempre, com 47 Emmys, “A Guerra dos Tronos” é também a série mais assistida na história do canal HBO e um fenómeno sem precedentes da televisão. Em 2012, após apenas um ano no ar, já era detentora da base de fãs mais devota do mundo, segundo a revista “Vulture”, ultrapassando enormes sucessos como “Oprah Winfrey” ou as sagas “Star Wars” e “Twilight”. Mas porque está o mundo louco por esta série?

Tudo começou há precisamente 20 anos e sob forma literária, com a trilogia “As Crónicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin. Hoje é um fenómeno cultural como há muito não se via… alguns afirmam que o que mais contribuiu para que se chegasse a este fenómeno seja, sem dúvida, a quantidade de mortes inesperadas e chocantes que se tornaram a marca da série. Outros defendem que a singularidade da série se deve ao fantástico enredo de batalhas, traições, à grande quantidade de personagens “cinzentas” – que não conseguimos categorizar como boas ou más -, à rica produção de efeitos especiais e, claro, aos cenários e ao guarda-roupa de tirar o chapéu. Mas há mais por detrás deste sucesso, pois temos ainda elementos do fantástico, como dragões e gigantes, que não impedem a série de ser bem terra-a-terra, permitindo que o público se vincule às personagens, que pensam e reagem como qualquer um de nós. Inexplicavelmente, “A Guerra dos Tronos” consegue se mostrar realista, mesmo passando-se num universo ficcional. Os dilemas das personagens e as disputas de poder não só estão presentes, como são tratados em profundidade.

Uma coisa é certa: este que é o programa mais caro e cinematográfico da TV: cada episódio exige um investimento de dez milhões de euros-, segundo a revista “Time”, e é transmitido em mais de 170 países. Naqueles que lhe servem de cenário, registou-se um impacto positivo nas cifras de turismo: por exemplo, a Irlanda do Norte, em 2015, lucrou mais de 82 milhões de euros nesse segmento; e Dubrovnik, na Croácia, aumentou os seus visitantes em 28%. Devido à complexidade da história, foram inclusivamente abertos cursos de licenciatura e mestrado sobre a trama, nos EUA e no Canadá, para quem queira tornar-se especialista na matéria. Isto porque até chegar “A Guerra dos Tronos”, as séries televisivas eram simples e facilmente digeridas. Porém, nesta série, não se perde mais do que dois minutos com uma personagem até que surja outra, aproveitando o facto de os espectadores serem capazes de lidar com elevados graus de complexidade.

Aos olhos dos criadores, o fenómeno deve-se puramente ao imaginário de R.R. Martin. «No início, quanto mais eu lia, mais pensava “se pudermos levar isto em frente, as pessoas vão viciar-se na série, como eu estou viciado nos livros”», recorda o produtor David Benioff à revista “Variety”.

Lançada em 2011, a série da HBO conquistou o maior número de Emmys de sempre e bateu vários recordes de audiência e até de pirataria Porém, antes de Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Sophie Turner e Maisie Williams atingirem o posto de super estrelas ao interpretarem as suas carismáticas personagens, a história já existia nas páginas escritas pelo norte-americano George R. R. Martin, conforme já referi. A atracção televisiva acabou avançando em relação ao enredo dos livros que a originou e Martin ainda não concluiu a sua série literária. Por isso, a conexão entre as duas versões também ajuda a explicar como “A Guerra dos Tronos” se transformou num fenómeno mediático. Ainda estão previstos mais dois volumes para concluir a história. Contudo, Martin está longe de terminá-los e já revelou sentir uma certa frustração por ver a versão adaptada antecipar o final, que não necessariamente será o mesmo na sua versão literária. Para que tenham uma ideia, até à sexta temporada, exibida em 2016, o que se via no ecrã de televisão tinha grande proximidade com o que se lia nos livros. Porém, eles foram ficando para trás, e a sétima sequência, exibida em 2017, já não se baseou especificamente em nenhum dos cinco volumes publicados, assim como é o caso da oitava e última temporada.

Porém, tal não vem necessariamente ameaçar o “casamento” entre os livros e a TV, pois tanto a série televisiva como a literária fazem parte do mesmo universo ficcional. De facto, ao mesmo tempo em que essa complexidade possa afastar alguns consumidores, atrairá outros, que não se satisfazem em apenas ver a série. Ou seja, vão ler os livros, pesquisar sobre a saga na internet e reunirem-se em comunidades online, por exemplo. É característico do que chamamos sagas fantásticas essa expansão e dispersão de um mesmo mundo entre diferentes meios e linguagens. Se pensarmos em “As Crónicas de Gelo e Fogo” e em “Guerra dos Tronos” como uma mesma saga fantástica, vamos perceber que essas narrativas não são concorrentes, mas sobretudo complementares. Por conseguinte, consumir ambas dá acesso a mais informações sobre o universo de que fazem parte do que a cada produto isoladamente. E aqui recai mais uma explicação ao fenómeno: a notoriedade de “A Guerra dos Tronos” no género fantástico está relacionada à forma como as personagens são desenvolvidos, tanto nos livros quanto na TV. Para compreendê-las, não é suficiente conhecer as suas ações, é preciso ter acesso às suas motivações. Por exemplo, quando percebemos por que Jaime Lannister (Nikolaj Coster Waldau) se tornou Regicida (desde o começo da série, ele é conhecido como tal por ter assassinado o rei que deveria proteger enquanto membro da guarda real), passamos a vê-lo de uma forma diferente. Mas quando Jaime é visto de outra forma por Brienne (Gwendoline Christie), ele começa a se mostrar de forma diferente também. Posto isto, enquanto muitas fantasias oferecem o ponto de vista de apenas uma personagem, “A Guerra dos Tronos” permite-nos compreender mais a fundo um punhado de personagens, que, tal como Jaime, mostram-se mais complexos do que poderíamos estar à espera. A saga também se destaca por permitir que se conheça a história por meio dos pontos de vista de várias personagens, muitas delas mulheres.

Mas com tantas reviravoltas, revelações e surpresas, que incluem a morte de várias personagens importantes, o enredo apresenta aspectos que o tornam único em meio a tantas sagas, envolvendo reis, rainhas, espadas e dragões. Devido a momentos icónicos como a morte (e ressurreição) de Jon Snow (Kit Harington), o Casamento Vermelho ou a decapitação de Ned Stark (Sean Bean), o seu primeiro grande protagonista, a série mudou as regras das narrativas de televisão, subvertendo as expectativas de quem assistia e marcando, definitivamente, o seu lugar cimeiro no panteão da cultura Pop. Hoje, mesmo quem não tenha assistido a um único episódio, com certeza já se deparou com imagens do Trono de Ferro, dos cabelos loiros de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) ou do temido Rei da Noite; ou, no mínimo, já ouviu a frase “o inverno está a chegar”…

E está mesmo! É chegada a hora e o inverno está mesmo aí. Mortos e vivos, Starks e Lannisters, Dragões e Zombies vão-se enfrentar no campo de batalha e, no fim, perdemos uma das séries mais fascinantes de sempre. A oitava e última temporada de “A Guerra dos Tronos” estreou nesta madrugada de domingo, 14, para segunda, 15, no canal Syfy e na HBO. Com apenas seis episódios termina na sua Oitava temporada “A Guerra dos Tronos”, a maior superprodução de televisão de sempre e que abriu as portas para um género até então pouco valorizado, a fantasia, conferindo-lhe um prestígio inédito que permitiu a chegada de outras produções congéneres como “Vikings” e “The Last Kingdom”. Mas não pensem que vão sentir saudades de “A Guerra dos Tronos”, pois a boa notícia é a de que estão a trabalhar em prequelas e sequelas. Seria um verdadeiro desperdício não aproveitarem um cenário e um enredo tão rico como o de Westeros…

Deixo-vos com um glossário GoT para entenderem melhor termos e personagens que a série acrescentou ao universo Pop:

The winter is coming… (O inverno está a chegar…)
No mundo de “gelo e fogo”, as estações do ano são irregulares e podem durar anos. Quando os acontecimentos da trama começam, há uma profecia de que um novo inverno se aproxima e, com ele, ameaças sobrenaturais de outras eras.

White walker
Traduzidos para “caminhantes brancos”, são seres místicos, criados no gelo e capazes de ressuscitar os mortos, comandando um exército de zombies.

A Muralha
Uma enorme estrutura de gelo, com 220 metros de altura, erguida para separar e proteger os reinos de Westeros da terra gelada onde há séculos apareceram os White walkers.

The night is dark and full of terrors (A noite é escura e cheia de terrores)
É o dito profético da personagem Melisandre (Carice van Houten), sacerdotisa adoradora do Senhor da Luz (as religiões e seitas também são fictícias). Na sua crença, o deus maior é associado à luz e ao fogo, que se opõem às trevas. Ela repete tanto este dizer na série, que a frase até se tornou um meme.

O Trono de Ferro
Forjado por Aegon Targaryen com centenas de espadas dos inimigos que enfrentou quando conquistou e unificou os sete reinos, é o centro do poder de Westeros. Quem se senta nele é o soberano máximo do continente.

Dragões e a Mãe dos Dragões
Os dragões são personagens chave do enredo. Decisivos no passado na conquista de Aegon e na manutenção de seus descendentes no poder, eles encontram-se extintos há séculos, e os Targaryen destituídos, quando a história dos livros e da TV começa. Mas tudo muda quando Daenerys Targaryen, exilada em Essos e última representante viva da sua família, recebe três ovos de dragão e consegue “chocá-los”. Ela cria os seus dragões, que crescem e se tornam armas importantes para concluir o seu objectivo de reconquistar o trono.

Jon Snow
É apresentado como um filho bastardo do lorde Ned Stark, uma das personagens mais importantes. Embora comece como secundário, Jon vai ganhando relevância e importância pelos seus feitos, tornando-se um herói. E factos importantes sobre a sua origem vão sendo revelados.