
As comemorações do Dia de Portugal em Paris junto da comunidade portuguesa com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e do Primeiro-Ministro, António Costa, são um gesto com um profundo significado na relação de Portugal com o seu povo espalhado pelo mundo. É, de algum modo, um gesto de reconciliação do país com os portugueses que emigraram e que nunca se sentiram compreendidos nem reconhecidos adequadamente.
Mas este é apenas um passo na caminhada que é ainda preciso fazer para Portugal conseguir olhar para a sua emigração sem o estigma que lhe deixou a ditadura e para ultrapassar o choque que se sente ao verem-se as imagens sobre a vida nos bidonvilles nos arredores de Paris. Esta realidade não é apenas um acontecimento marcante da emigração portuguesa nos anos 60 e 70; faz parte daquilo que somos e condiciona a forma como somos vistos. De nada adianta escondê-la. Ela está gravada no espírito de todos os portugueses residentes em França, da atual e da anterior geração, onde quer que estejam, e vai mesmo para além destas fronteiras.
E é isso mesmo que nos recordam as impressionantes fotos desse grande humanista que é o fotógrafo Gérald Bloncourt, um amigo dos portugueses, que admirou desde jovem quando ouviu falar dos navegadores e que depois veio a conhecer como um povo de emigrantes oprimido e pobre, que chegou mesmo a seguir corajosamente nas travessias perigosas pelos Pirenéus, mas sem nunca deixar de ver a dignidade de quem não desiste de lutar. Fê-lo também como um gesto político de denúncia de uma ditadura iníqua, que amesquinhou um povo.
E faz sentido que as celebrações sejam em Paris, não apenas por causa da dimensão da comunidade portuguesa, mas porque é ali que a ferida é mais funda e o desejo de a sarar mais forte. É mesmo um imperativo moral que ajuda a compreender melhor aquilo que foi a emigração portuguesa em todas as épocas e para todos os destinos e o extraordinário percurso de afirmação económica e social que fizeram milhares de compatriotas.
Muitos portugueses que viveram a miséria dos bidonvilles são hoje grandes empresários ou estão bem integrados na sociedade francesa, com um bom estatuto. Mas não esquecem o que ali viveram, em barracas e na lama, sem água nem luz, sem quaisquer condições. E isto apesar de durante muito tempo quem lá viveu ter querido esconder essa vida, por vergonha, por incapacidade de assumir esse passado.
E é por isso que Portugal enquanto nação não pode fechar os olhos a este pedaço da nossa história e falhará na sua missão de unir todos os portugueses se não reconhecer sem complexos esta dura realidade que faz parte integrante do que somos como povo.
Já é altura de desfazer os preconceitos em relação aos emigrantes. É dever do país valorizá-los, reconhecê-los e compreendê-los. Devíamos mesmo evitar utilizar a palavra emigrantes, de tal forma é pesado o sentido negativo e pejorativo que foi ganhando ao longo de décadas, usada com sobranceria por uns e de forma ingénua por outros, mas sempre como se fosse a marca de um ferrete. É por isso que o extraordinário trabalho de Gerald Bloncourt, que fotografou a dureza da emigração portuguesa e agora será condecorado pelo seu trabalho com a Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República, é importante para sabermos o que já fomos e como somos vistos. Portugal tem ainda uma dívida a saldar com todos estes portugueses que se sentirão sempre abandonados enquanto não forem devidamente considerados, reconhecidos e valorizados. É de Portugal, mais do que de qualquer país de acolhimento, que todos esperam um sinal.
Hoje são, além do mais, uma importante força económica, política e diplomática. Basta ver a forma como estão enraizados os portugueses e os seus descendentes na sociedade francesa, à qual devemos também prestar homenagem pela generosa hospitalidade que ao longo de décadas lhes foram proporcionando, integrando da melhor maneira sucessivas gerações.
Portugal precisa de fazer a reconciliação com a sua história, que passa por ir muito para além de lembrar trimestralmente o valor das remessas, precisamente um dos objetivos económicos do salazarismo na sua relação mesquinha e castradora com os emigrantes.
