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“O Despertar da Primavera” é o novo projeto de Nuno Carinhas

Nuno Carinhas regressa à encenação com “O Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind, num projeto com alunos da ESMAE, no qual procurou uma “nova forma de diálogo” sobre “confrontos” geracionais que continuam presentes no dia-a-dia.

Depois de quase 10 anos enquanto diretor artístico do Teatro Nacional de São João (TNSJ), o encenador apresenta, de 03 a 07 de julho, no Teatro Helena Sá e Costa, no Porto, o último projeto coletivo dos alunos finalistas da licenciatura da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), intitulado Produção V e inserido no Festival Semana Escolas e Teatro (SET).

“Para mim é divertido trabalhar textos que nunca trabalhei, com jovens alunos, e procurar ressonâncias que são outras se estivesse a trabalhar com profissionais com muita experiência. É um desafio perceber até que ponto o nosso vocabulário pode encontrar eco ou não, ou ser desafiado por outras propostas dos mais novos, sobretudo com peças que possam ter a ver com a trajetória deles”, explicou o encenador.

“O Despertar da Primavera” é sobre personagens de uma faixa etária próxima da idade dos atores, então Nuno Carinhas não escondeu que procurou essas ressonâncias com uma “geração que cresceu tão rapidamente com as novas tecnologias”, o que significa “novos códigos de relacionamento com a família e a escola”.

“No fundo, é uma outra forma de diálogo. O Wedekind era um dramaturgo extraordinário. Segundo Bertolt Brecht – para quem foi um grande mestre –, ele [Wedekind] retratava como ninguém a Europa da sua época. Tem um lado delirante e quase surreal que é muito interessante e é dado a estes grandes momentos de fratura entre a vida e a morte. A capacidade de experimentar, correr riscos, as personagens desalinhadas, sempre em confronto com a norma e isso faz sempre falta de alguma maneira”, sublinhou.

É esse confronto com a norma que propõe “O Despertar da Primavera”, o “fim da inocência e a amargura da diferença” de uma “juventude inquieta” com o seu “papel no mundo”, com desespero e esperança, assumindo a “responsabilidade de não ter ficado por nascer”, mesmo não sabendo como se chegou “ao mundo”, segundo a sinopse do espetáculo.

Durante a peça – uma crítica à sociedade alemã do final do século XIX, e à opressão da sexualidade –, há o suicídio de uma personagem por não estar à altura das expectativas dos pais, uma gravidez prematura que resulta em aborto e essas são as questões que “continuam a estar presentes na sociedade”, apesar de a obra ter sido escrita entre 1890 e 1891.

“Confrontar a norma com o porquê dela existir, ir contra a norma e porque se vai contra ela. Muitas vezes achamos que estamos noutra, mas todos os dias confrontamos essas questões prementes, porque o tempo de aprendizagem humano é sempre o mesmo. Agora está a alterar-se, há uma aceleração cognitiva com as redes sociais, mas o corpo não cresce e não se desenvolve na mesma medida, precisa dos estágios de desenvolvimento. Portanto, há sempre este ajuste entre a identidade, o corpo e o exterior. Vai haver sempre confrontos a esse nível”, disse.

Apesar de as questões da obra serem as mesmas, as formas de aproximação, a capacidade de improviso e a maneira como os jovens atores se relacionam entre si vai fazer com que “haja resultados diferentes”, tendo o encenador confessado que houve uma influência mútua entre as partes.

“Temos de andar a par senão não resulta. Embora seja um trabalho de escola – não mascaro essa situação, não sou capaz e seria desonesto fazê-lo – para eles [atores] é encarado como uma experiência profissional e é muito interessante eles poderem dar-se a esse confronto. O desafio é sempre o mesmo, não os tomo por amadores, mas jovens profissionais que não conheço. Sempre gostei desse desafio. O objetivo é chegarmos a uma forma de entendimento para que os sinais sejam partilháveis entre uns e outros”, indicou.

Sobre o futuro, Nuno Carinhas não escondeu que vai “continuar a trabalhar como sempre”, como ‘freelancer’ e a “responder aos desafios” que apareçam, mesmo que não saiba quais serão.

“Tentar estar disponível para abraçar boas causas. No futuro, podemos esperar novas encenações, claro”, finalizou.

O “Despertar da Primavera” vai estar em exibição no Teatro Helena Sá e Costa, de 03 a 06 de julho, com sessões às 21:00, enquanto a última sessão, no dia 07 de julho, se realiza às 16:00, e conta com tradução em língua gestual.