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O desafio de medir a pressão arterial em casa

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A medição da pressão arterial (PA) no domicílio é atualmente considerada mais precisa e um melhor indicador do risco de enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral do que a realizada no consultório médico. As medições efetuadas em ambiente clínico apresentam frequentemente valores superiores, que requerem confirmação posterior por automedição da pressão arterial em casa (AMPA) e/ou monitorização ambulatória da pressão arterial (MAPA). Tanto a AMPA quanto a MAPA permite avaliações baseadas num maior número de medições, melhorando a precisão diagnóstica. Além disso, a medição em casa proporciona maior conforto ao paciente e apresenta melhor reprodutibilidade, justificando o seu uso preferencial na avaliação longitudinal do paciente hipertenso e na titulação dos medicamentos anti-hipertensores. Apesar destas vantagens, um estudo recente, publicado na revista JAMA, revelou um cenário preocupante: cerca de metade dos doentes que possuem aparelhos de monitorização da PA em casa raramente os utilizam e aproximadamente um terço não realiza qualquer medição

 O controlo doméstico da PA enfrenta desafios importantes. O carácter assintomático da hipertensão arterial contribui para a negligência da monitorização regular, sendo comum relatos como “sinto-me bem, não preciso…” ou “sei quando tenho as tensões altas…”. Para muitos, a rotina de se sentar duas vezes por dia, durante uma semana, ajustar o braçal e permanecer imóvel por alguns minutos representa um desconforto excessivo. Outros detestam a desorganização que um aparelho eletrónico volumoso causa sobre a mesa. Existe também a chamada “fobia dos picos”, que induz a recusa da medição. A PA deve ser medida em ambiente tranquilo, após cinco minutos de descanso, sem consumo prévio de cigarros, estimulantes ou exercício físico nos últimos 30 minutos. 

É fundamental seguir rigorosamente as diretrizes para uma medição correta (AQUI). O médico necessita conhecer os valores mais baixos, obtidos nos momentos que favorecem o seu aparecimento, geralmente em casa, tal como o diabético que mede os valores da glicose em jejum a fim de obter os valores mais baixos. Resista ao impulso de medir a PA fora dos bons momentos! Por sua vez, a medição rigorosa da glicose é mais fácil de obter e é mais reprodutível por se tratar de uma medida direta. Já a medida da PA é indireta, mais sujeita a erros e tem menor reprodutibilidade. Este tipo de constrangimentos também se observa no consultório. Um estudo realizado em 2024, que avaliou as práticas em 110 consultas do NHS Greater Glasgow & Clyde, verificou que apenas 4,1% das clínicas seguiam as metodologias padrão; somente 9,6% mediram a PA em ambos os braços na consulta inicial, 93,1% não instruíram corretamente os pacientes e apenas 32,9% respeitaram o período de repouso de cinco minutos. 

A educação do paciente é essencial para garantir a adesão à monitorização no domicílio da PA, pois a falta de compreensão da sua importância leva ao seu abandono. Os novos equipamentos, do tipo wearable health devices(relógios…), cuja disponibilidade clínica parece iminente, poderão vir a medir a PA continuamente e de modo quase impercetível; contudo, até o momento, não são recomendados por insuficiente fiabilidade.             

Prof. Ovídio Costa

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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