De que está à procura ?

Lisboa
Porto
Faro
Colunistas

Novo século

Entre o renascer do Redentor
e a aurora do mundo novo
vão sete luas de clamor.

O insecto afinal não mordeu
deixou clarear a nova era das águas
esvoaçou, pairou, morreu.

Mas os falsos profetas
apregoando o deus verdadeiro,
erguendo novos capuzes e cruzes
cobriram as filhas, apedrejaram as mães
proibiram o aborto da grande mentira.
Não deixaram crescer as pernas aos elefantes
o escorpião não soltou a cornucópia
o Homem continua como dantes
a teimar separar o que o cosmos juntou,
ergueu do pó novas muralhas
Inventou bandeiras
para travar mais batalhas.
Os hemisférios suam,
mas ninguém se importa.

As cabeças dos Colossos de Rhodes decapitadas
rolaram aos pés de Babel convulsa
as duas Babilónias a ferro e fogo
e no crepúsculo um novel e ridículo
arbusto ardente
desafiou a lua crescente
que ateia tempestades no deserto
em cruzadas infiéis,
o céu revoltado olhou-se ao rio,
não gostou do que viu,
quebrou de raiva e fúria o espelho.

Os fundos abissais ruiram,
aspiraram o oceano
Poséidon projectou
as águas em espiral
Noé não refez a arca,
olvidou-se da Humanidade.
Duzentas e cinquenta mil carnes mutiladas
apodrecendo nas praias
desaguando sem sentido
na salmoura do mar.

Mas o Homem não aprendeu.
Volvidas sete luas Catarina, a Casta,
varreu outra vez de ventos e águas
a nova Aurélia e outra vez
nem Noé nem Moisés
para salvar o Filho do Homem.

Os filhos do Mundo, de Cristo, Neptuno,
Shiva, Buda e Maomé
arrancados dos braços das mães
pela fúria da maré
lançados contra as paredes
como um trapo imundo
nenhum deus travou o gesto
como o sacrifício de Abrãao
o mostrengo sacudiu o chão,
engoliu-o, estrangulou o futuro.

Toda a Terra se veste de luto
mas uma luz raia nos velhos continentes em dor,
os Cossacos acreditam que os clarões laranjas
que vislumbram no céu de ocaso púrpura
vão derreter os últimos gelos,
mas estes teimosamente retardam a manhã azul.

Enquanto isso, Fenícia fala
de valores e liberdades,
mas Astérion constrói muros que são jaulas,
e a grande águia deposita a sua asa protectora
nos ombros do filho da avestruz
que traz todas as novas esperanças ao mundo.

Eu das águas apenas sonho
o tempo em que todos os mares
se juntarão novamente
num só e pantalasso
oceano pacífico.

JLC2005/2009 (“Sete Águas”, adapt.)