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Nova Casa de Portugal de Champigny é “uma maravilha”

“Um orgulho”, “uma maravilha”, “algo formidável” é assim que portugueses e franceses qualificam a recém-inaugurada Casa de Portugal que este sábado reuniu dezenas de pessoas em Champigny-sur-Marne, cidade onde a emigração nacional conheceu um dos seus capítulos mais trágicos.

“Esta casa tem o mesmo aspeto que na altura. Era uma casa que conhecíamos quando íamos e vínhamos do bidonville, passávamos sempre por aqui. Ver isto assim é um orgulho”, contou Valdemar Francisco, que chegou a Champigny-sur-Marne em 1960, em declarações à agência Lusa.

Tal como este português, muitos outros foram chegando a esta cidade nas imediações de Paris e começaram, aos poucos, a construir um bairro de lata que existiu até 1980. Este sábado, a Associação Portuguesa Socio-Cultural & Recreativa (APSCR) de Champigny inaugurou a sua nova sede, numa casa cedida pela autarquia e inteiramente renovada pela associação.

Nesta ocasião de festa, não deixou de ser lembrado o percurso difícil da comunidade portuguesa que construiu uma relação “especial” com a contraparte francesa.

“O que torna a nossa relação especial com a comunidade portuguesa é que desde há 50 anos continuamos a ter esta solidariedade uns com os outros. Muitos portugueses ficaram aqui, constituíram família e querem perpetuar a sua cultura, havendo várias associações que mostram isso mesmo”, indicou o autarca de Champigny, Christian Fautré.

Chegado à cidade em 1980, este eleito local ainda se lembra do fim do bidonville e das condições que chocavam a sociedade francesa. Algo vivido de perto por Nicole Perron.

“Eu e o meu marido fomos professores na escola do bidonville durante 20 anos e isso criou laços muito fortes [com a comunidade]. É formidável ver agora esta casa, porque o bidonville era uma coisa dramática”, disse a antiga professora, contando que a própria escola até 1975 também era numa barraca.

“Uma vez caiu-me o telhado da sala em cima. Fizemos greve durante três meses e até enviamos tijolos à Assembleia Nacional para nos ajudarem”, lembrou ainda Nicole Perron.

Uma das maiores ajudas veio de Louis Talamoni, autarca de Champigny-sur-Marne entre 1950 e 1975 e também senador, que começou por mandar instalar luz e saneamento no bidonville. Também as fotografias de Gérald Bloncourt, algumas delas escolhidas pela sua viúva para serem expostas este sábado na Casa de Portugal, mostraram a realidade de quem vivia nessas condições.

Muitas melhorias começaram a ser feitas pelos próprios portugueses. “Tenho boas recordações, mas vivia-se com algumas dificuldades. Eram barracas, é verdade, mas o meu pai cimentou tudo e não andávamos no meio da lama. Quando cheguei aos 18 anos, tirei a carta de camião e ainda ajudei a levar pedra para que os caminhos fossem mais limpos”, contou Manuel Simões Marques que chegou ao bidonville com 13 anos e já está há 58 anos instalado em França.

Para Manuel Simões Marques a Casa de Portugal é “uma maravilha”. A obra custou entre 250 a 300 mil euros, com uma parte a vir do financiamento local e da solidariedade dos empresários e trabalhadores portugueses que doaram materiais e mão de obra para concluir a renovação em cerca de um ano, sem ajudas do Estado português.

“O Estado português tem vindo a aumentar o apoio para as associações, esses apoios, de facto, não são para obras. Mas são para as atividades associativas. No ano passado foram ajudadas cerca de 90 associações com mais de 700 mil euros. No concurso deste ano, que está aberto até dezembro, prevê-se que ainda sejam mais associações e que haja mais dinheiro”, disse a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, que marcou presença e discursou nesta inauguração. Também uma delegação de Alpiarça, cidade geminada com Champigny-sur-Marne, esteve na inauguração.

Christian Fautré considera que é “uma pena” que não tenha havido mais ajudas de Portugal. “Ouvi os discursos da parte portuguesa que reconhecem a importância deste sítio, é algo simbólico. Eu não sei porque é que não foi dado nada, mas acho que uma pequena ajuda financeira fez falta”, disse o autarca francês.

Muitos portugueses que estiveram na celebração, preferiram não falar com a Agência Lusa sobre as suas vivências quando ali chegaram nos anos 60 e 70.

“Hoje já não é difícil [falar], mas naqueles tempos era. Foi preciso meio século para as coisas evoluírem”, disse Valdemar Francisco, também dirigente associativa e empenhado em manter viva a memória do bidonville de Champigny.