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Non ou A Vã Glória de Mandar

Sem pruridos ou menosprezos, e fazendo recurso a um lugar-comum, poderíamos dividir o mundo associativo português no Luxemburgo em dois tipos: as de acção concreta, dirigida a um pequeno e específico grupo de pessoas ou interesses, as de representação da diáspora. Poderíamos, condicional, porque, na verdade, não podemos. Só existem as do primeiro tipo. Que fazem, numa grande parte dela um trabalho meritório de animação cultural, ligação à terra, apoio social, promoção do folclore, etc., etc., etc… Mas nenhuma delas se outorga representar a comunidade portuguesa no Luxemburgo, uma mole que deverá representar perto de uma quinta parte do Luxemburgo.

Ao olho destreinado, os filmes do grande Manoel de Oliveira são um sem fim de “naturezas mortas” e cenas sem sentido. Os diálogos desenrolam-se sem que haja aparente ligação entre eles, sem que os personagens verdadeiramente se falem, mas que que, tão somente, debitem para o ar charadas linguísticas.

A sensação que me acomete em algumas reuniões que por vezes participo é precisamente essa. Que há um conjunto de personagens que aparecem sem enquadramento narrativo, debitam umas charadas, ou mesmo enigmas, e seguem dando pátrios murros no peito. Divididos entre o pranto do não reconhecimento pelos pares e o bramar dos esforços imensos levados a cabo pela honra e coisa comum.

No seu filme de 1990, Manoel de Oliveira percorre mais de dois milénios da história lusitana. Mas fá-lo, um pouco ao estilo da magnifica trilogia Lusitana Diáspora do Fausto, em muito inspirada nas desventuras de Fernão Mendes Pinto relatadas no seu Peregrinação. Um misto de nostalgia duma, ao olho destreinado, ilusória glória passada com a vergonha ou mesmo arrependimento das acções tomadas. Um languido desfilar de misérias que deveriam acabrunhar qualquer um, mas que, no entanto, usamos como medalhas ao peito com um melancólico orgulho que se projecta no futuro – que mais se poderia esperar de quem inventou o Fado…?

Quando há já quase três anos me apresentei como putativo candidato à presidência da CCPL o meu real objectivo, como aliás tive hipótese de o dizer e depois escrever, era de atrair a atenção para um Congresso que se preparava em quase segredo. O resultado desse Congresso foi a vitória da primeira concepção do movimento associativo (da acção concreta) sobre a segunda (da representação). O resultado foi tal que “por entre os 30 membros efectivos [eleitos ao Conselho da Confederação], 24 são delegados propostos por três associações, sendo uma delas a própria CCPL”. Cortando, em soberba acção concertada, com o mundo associativo, primeiro organizando o Congresso de forma quase secreta e depois assegurando que as poucas que se apresentaram não conseguissem mais do que uma pequena posição simbólica no Conselho.

O fio condutor do filme de Oliveira é colocado no final da última grande (in)glória portuguesa: a guerra colonial. Enquanto marcham para defender o império, são desfiadas as histórias das grandes derrotas portuguesas. Derrotas transformadas em mitos, como do Viriato ou do D. Sebastião. Como a da própria guerra colonial portuguesa. Não haja dúvidas quanto ao heroísmo de muitos dos participantes dessas desventuras lusas, cheios de ideias de grandeza e convictos de desempenhar uma missão divina, mas invariavelmente mal guiados por aqueles que não dão graça da sua presença no terreno onde os confrontos se desenrolam.

Como digo acima, podemos, de muito grosso modo e sem desprimor para nenhuma das classificações, dividir as associações em sociais/culturais ou cívicas. A CCPL anuncia-se como pertencendo à segunda, pretensão à qual se junta a veleidade de querer representar “a comunidade portuguesa no Luxemburgo”. No entanto quer a forma como o Congresso foi tomado de assalto, em conluio entre a presidente demissionária e aquela que a precedeu foi sobejamente clara e deu o resultado que seria de esperar.

Seja por militante adesão a uma visão associativa mais popular ou por incapacidade de compreender a integração e seus problemas com amplitude necessária, a verdade é que a actual direcção da CCPL, que mais não é que um maquilhado decalque da anterior, tem sido incapaz de produzir algo digno de registo nessa missão de representação. Dito de outro modo, não é preciso outorgar-se representante da comunidade portuguesa para se promover o tipo de actividades que têm sido promovidas pela confederação. Muitas outras associações de estrangeiros no Luxemburgo fazem semelhante e mesmo mais com muito menos pavonear.

A CCPL nasce, como outros grémios associativos do Luxemburgo à altura, da necessidade de consciencializar politicamente a população estrangeira do Grão-Ducado. Esse ensejo está, definitivamente enterrado. E está-o como resultado de tomadas de posição conscientes, não estivéssemos a falar de adultos, que visavam tão só a Vã Glória de Mandar que os leva a bramir “non” a todo e qualquer não alinhado.

Os que dissolveram o que restava do projecto associativo que um dia foi a CCPL apresentar-se-ão de novo a conduzir os destinos da nau que levaram a encalhar. Darão mais murros no peito, farão mais juras de fidelidade, encherão os pulmões de prantos sacrificiais e bramirão os esforços feitos. Convencidos da índole messiânica da sua missão, seguros pela superioridade da sua fé face aos outros, esses infiéis. Passo a passo subirão a muy nobre representação portuguesa ao cadafalso, beijando cada degrau, murmurando baixinho o nome de Jesus a meio.

Que seja leve a terra ao projecto da representação e mobilização cívica da comunidade portuguesa no Luxemburgo.

Mário Lobo

 

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