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Noites frias de Portugal

Nas noites frias de inverno dou-te castanhas
Geropiga, e também um tigela de caldo
Um naco de carne de porco das entranhas
E dou-te uma botija de água quentinha.

Dou-te também poemas, misteriosas flores
Um lindo livro cheio de versos
Muitas rosas com fortes odores.

Dou-te ainda escudos, euros e dólar furado
Por um poema solitário e bastardo
Para recitar nas noites frias em Portugal.

E quando nas noites frias ao borralho
Se escuta um poeta sem quatro costados
Rececitando versos com a caneca na mão
Talvez uma castanha lhe estoire na boca.

Quem canta a nona sinfonia do silêncio,
quem comprará uma camisa de seda
Suja de batom, vinho e de brisa?

Quem guarda ainda na gaveta
0 som de um velho Stradivarius
E recita um poema da treta
E diz que anda mal dos ovários.

Quem fincará uma estaca no peito
Atingindo o coração do poeta,
Incendiará seu mundo de poesia?

Quem lhe torpedeia a imaginação,
E grita alto: poeta duma figa?
Que vive no centro do tempo,
E prefere antes amor do que briga.

José Valgode

 

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