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Milagre económico?

António Costa alardeia, ufano, os feitos do seu governo: défice próximo do zero, desemprego em queda, crescimento inédito do produto interno bruto. Dir-nos-íamos perante um milagre. Contudo, a principal explicação para o bom desempenho da sua governação tem o nome de «conjuntura internacional favorável». Ser-lhe-ia, obviamente, muito mais difícil gerir o país em tempos de depressão, como foram os cinco ou seis anos da crise iniciada em 2008.

De qualquer modo, o desempenho macroeconómico de Portugal (ou seja, tendo em conta parâmetros como inflação, desemprego, crescimento do PIB, poder de compra), se parece notável em relação a alguns dos vizinhos mais próximos, empalidece no confronto com outros países europeus: os bálticos, a República Checa, Malta… Até a Bulgária e a depauperadíssima Grécia estão a crescer mais.

Quanto ao défice «próximo do zero», deve muito, por exemplo, a artifícios como as cativações: verbas destinadas a despesa pública são «cativadas», isto é, retidas pelo ministro das Finanças; tão simples como dar o dinheiro com uma mão mas segurá-lo com a outra; e assim, enquanto o Orçamento do Estado faz boa figura, distribuindo dinheiro na aparência, os cofres não chegam a esvaziar-se. Por outro lado, a dívida portuguesa vai em valores vertiginosos. Leia-se, por exemplo, o artigo Com dívida de Portugal nos 300%, «imaginem o choque de 2% nas taxas de juro», alerta Horta Osório (https://observador.pt/2019/09/27/com-divida-de-portugal-nos-300-imaginem-o-choque-de-2-nas-taxas-de-juro-alerta-horta-osorio/).

Contarei agora duas histórias do suposto oásis a que Costa julga ter-nos levado:

Recebi, recentemente, a visita de amigos de Bruxelas. Um dia, uma senhora do grupo começou a queixar-se de mal-estar: náuseas, vertigens, tensão elevada. Inquieto por saber que em tempos ela fizera um tratamento de quimioterapia, levei-a às urgências do centro de saúde mais próximo de minha casa. Na fase de triagem, atribuíram-lhe uma pulseira amarela, indicativa de urgência moderada. Um painel dizia que àquela cor correspondia uma espera de cerca de hora e meia. A uma paciente com pulseira da mesma cor perguntei há quanto tempo esperava: «Quatro horas. E aquele senhor que chamaram agora e tinha uma pulseira verde estava aqui há sete horas.»

Imediatamente levei a minha convidada a uma clínica privada, onde a atenderam com rapidez. Não foi de graça, mas o seu seguro complementar belga cobriria a despesa.

A outra história: há escassas duas ou três semanas, numa dessas festarolas ao ar livre que abundam pelo verão de norte a sul, dei-me conta de um grupo de homens e, sobretudo, mulheres, qual deles (ou delas) o menos sóbrio, à volta de uma adolescente, desfalecida sobre uma cadeira, lívida e sacudida de onde a onde por vómitos. Os que a rodeavam eram, ao que parecia, amigos que tentavam atabalhoadamente reanimá-la. Tinha misturado uma série de bebidas, coitadita, e não estava habituada ao álcool, disseram-me. Perguntei-lhes por que não chamavam uma ambulância. «Calma, isto não há de ser nada. Nós tratamos dela.» Dado, porém, que nenhum parecia saber «tratar dela», afastei-me discretamente e liguei para o 112. Quem me atendeu disse que o telefonema ia ser encaminhado para o Serviço Nacional de Saúde. Um disco começou então a informar-me, alternadamente em português, inglês e espanhol, que a minha chamada seria atendida em breve e que não desligasse. Passaram-se dez minutos nisto. Entretanto, a adolescente etilizada tinha já sido metida num automóvel, que arrancou. Perante a inutilidade de tentar o socorro da entidade competente, desliguei o telefone.

Duas deploráveis experiências com o Serviço Nacional de Saúde.

António Costa estudou o momento oportuno para destronar o seu antecessor António José Seguro no cargo de secretário-geral do PS, a fim de se apresentar às eleições legislativas de 2015 numa fase em que a situação geral do país apresentava já melhorias significativas e, sobretudo, perspetivas de recuperação numa conjuntura internacional propícia (conforme disse José Miguel Júdice, Passos Coelho fez a cama e Costa deitou-se nela). Ainda assim, falhou o objetivo que se propusera, a maioria absoluta, pois nem a simples conseguiu, acabando num pouco honroso segundo lugar. O resto sabe-se: valeu-lhe o arranjo, a chamada «geringonça», com a CDU e o Bloco de Esquerda, cujos deputados na Assembleia da República lhe garantem uma maioria capaz de viabilizar a sua governação. E, de então para cá, tem sido um ror de acusações à política de austeridade do governo PSD-CDS que Passos Coelho chefiara.

Em matéria de austeridade, a memória das pessoas é curta. Nos difíceis, dificílimos, tempos de 1983, o primeiro-ministro socialista, Mário Soares, respondeu a um jornalista que lhe perguntara quando poderiam os portugueses ver uma luz ao fundo do túnel: «1985. Tenham este ano em mira.» Para mim, desgraçadamente, 1985 não seria o ano da «luz ao fundo do túnel» — foi o mais negro de toda aquela crise. O meu salário de funcionário público, em Portalegre, estava congelado, e as despesas não paravam de subir. Logo no princípio do ano, mudei-me do quarto alugado em que vivia para um apartamento — pequeno, acolhedor, numas águas-furtadas mobiladas com bom gosto. Mas a renda, que a senhoria alegou termos combinado subir ao fim de três meses, revelava-se excessiva. Tive de estabelecer um valor máximo para o consumo de eletricidade. Controlava permanentemente o contador e, se me aproximasse dos kW atribuídos a uma determinada noite, desligava o radiador e embrulhava-me num edredão (no inverno de Portalegre, as temperaturas são negativas).

Tinha comprado um carro utilitário por um sistema que implicava a subida praticamente incessante da mensalidade, consoante o preço momentâneo do veículo no mercado. Em consequência, fixei também um máximo para o consumo semanal de gasolina. Quando o ultrapassava, estacionava o carro e só voltava a abastecê-lo na semana seguinte.

Por vezes, acordava a meio da noite com suores frios, pensando como chegaria ao fim do mês. Mas nunca me passou pela ideia recriminar o governo, como se Mário Soares estivesse a espremer o povinho por puro sadismo. Aceitava, de boa-fé, que o país atravessava uma má situação financeira e que o governo não tinha recursos para manter as anteriores condições de remuneração dos funcionários. Mas quando, três décadas mais tarde, o PSD de Passos Coelho aplicou uma receita idêntica, dado o estado ainda mais calamitoso a que a irresponsabilidade dos socialistas fizera chegar as finanças, a mesma esquerda que em 1983 me pusera a pão e água crucificou-o.

Um homem que, no ano em que ocorreram os incêndios mais mortíferos da história de Portugal e o vergonhoso e terceiromundista caso de Tancos, diz que «2017 foi um ano particularmente saboroso para os portugueses»;

um homem que, em 2016, passou incólume pelo incidente da presidência da Caixa Geral de Depósitos (recomendo: https://bomdia.eu/uma-caixa-um-bloco-e-muita-irrequietude/);

um homem que chefia o governo responsável pela maior bagunça de sempre no Serviço Nacional de Saúde e que enfrenta contestações atrás de contestações por parte dos professores, dos médicos e do pessoal de enfermagem;

um homem que, apesar de outrora acusar Passos Coelho de seguidismo em relação à troica, se apressa a apresentar valores ineditamente baixos para o défice, à custa de batotas como são as cativações e ultrapassando até o exigido por Bruxelas, mas ao mesmo tempo deixa a dívida pública atingir valores recordistas:

vai à frente nas preferências do eleitorado?

Uma coisa é certa: político hábil é ele.

Com isto, não estou necessariamente a exprimir um elogio.

Se há milagre em Portugal, poderá ser este. Económico é que ele não é.

Jorge Madeira Mendes

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