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Mesa-redonda da OGBL: Alfabetização em francês visa travar abandono escolar de alunos imigrantes

© OGBL

Uma mesa-redonda muito interessante foi organizada pelo Departamento dos Imigrantes da OGBL e pelo seu Sindicato Educação e Ciências (SEW) em 4 de fevereiro, na Chambre des salariés (CSL, Câmara dos Assalairados), em Bonnevoie. O projeto Alpha, que implementa a alfabetização em francês no ensino fundamental (ensino básico ou primário) na escola pública luxemburguesa entra em vigor já no próximo ano letivo 2026/2027 e permitirá aos pais escolherem se querem que os seus filhos sejam alfabetizados em alemão ou em francês. 

Como convidados estiveram presentes o Ministério da Educação, a presidente do SEW e duas investigadoras na matéria. Uma discussão rica em pontos de vista muito divergentes para abordar um assunto bicudo que começou por ser tabu há mais de 30 anos: mudar o paradigma da alfabetização em alemão no Grão-Ducado.

José Luís Correia, secretário central do Departamento dos Imigrantes da OGBL, que moderou a mesa-redonda com Gilles Bestgen, secretário central do SEW, começou por saudar a alfabetização em francês, algo muito esperado pelos imigrantes que há décadas veem os seus filhos abandonarem a escola devido ao “obstáculo” do alemão.

A primeira convidada a tomar a palavra foi Pascale Engel de Abreu, investigadora da Universidade do Luxemburgo, especialista em psicologia infantil e desenvolvimento cognitivo, que explicou que as crianças estão “programadas” para aprender todas as línguas do mundo sem qualquer problema, sem esforço, logo desde tenra idade. “A língua não se aprende necessariamente na escola, ao contrário da literacia. As crianças de origem portuguesa ou italiana terão mais facilidade com uma alfabetização em francês, o que não significa que não aprenderão bem o alemão mais tarde”, explicou. Pascale Engel de Abreu vê a alfabetização em francês como positiva, e diz compreender quem quer fazer uma escolha alternativa ao alemão. Recomenda, no entanto, que os imigrantes nunca abandonem o uso e o conhecimento da língua materna pelos filhos, porque, recordou, “é um fenómeno amplamente estudado que conhecer bem a língua materna é essencial na aprendizagem futura de outras línguas”. 

Suzana Cascão, investigadora do LISER (Luxembourg Institute of Socio-Economic Research) e especialista em matéria de interculturalidade e imigrações, concorda com Engel de Abreu. Como portuguesa, casada com um italiano, admitiu que, para os seus filhos, que chegaram ao Luxemburgo ainda pequenos, a integração linguística não foi fácil nem na escolha da escola nem para os acompanhar nos trabalhos de casa. 

Francine Vanolst, diretora-geral do Ensino Fundamental no Ministério da Educação, ilustrou com entusiasmo o projeto-piloto lançado em 2022 em três escolas no sul do país – Dudelange Deisch, Oberkorn e Schifflange – e uma no centro, em Larochette. Disse que os professores primários trabalharam em perfeita sinergia com os pais, e que as duas partes foram trocando conselhos e ideias sobre a evolução das crianças. O balanço final foi bastante positivo, “com crianças a regressarem a casa felizes por irem à escola e os docentes satisfeitos por ver crianças imigrantes motivadas”. Sem o alemão a pairar como sombra, entenda-se entre as linhas. 

Vanolst salientou a coesão entre as turmas de diferentes línguas, cujos alunos interagem em várias atividades, sendo a língua mais comum o luxemburguês. Acrescentou ainda que a segunda língua (francês ou alemão) chega após quatro anos, a tempo de os alunos a aprenderem sem correr o risco de ficar para trás em relação aos colegas que tenham escolhido anteriormente a língua alternativa para serem alfabetizados (francês ou alemão). 

Questionada por José Luís Correia, Francine Valnost garantiu que o balanço após três anos de projeto-piloto, sob a observação de especialistas luxemburgueses e internacionais, foi o suficiente para avançar com segurança com o novo sistema no ano letivo 2026/2027. 

SEW denuncia “escola binária” a duas velocidades

De opinião totalmente diferente é Joëlle Damé, professora primária e presidente do SEW, que está convencida de que, ao chegarem ao ensino secundário, os alunos que escolheram o francês no ensino básico estarão em desvantagem porque não dominam tão bem como os outros a língua alemã e luxemburguesa. O seu ceticismo em relação ao projeto Alpha é ainda reforçado por uma convicção: ainda não existem recursos suficientes e pessoal formado para suprir as necessidades que uma “escola binária” inevitavelmente exigirá nos próximos anos. Além da falta de pessoal, haverá muito menos professores para as aulas de apoio e quem pagará as consequências serão os jovens com dificuldades de aprendizagem. Para não falar do material didático muito escasso, denuncia. “O projeto começou demasiado cedo, um feedback de três anos é insuficiente e não estaremos prontos para o ciclo médio-superior” (liceu), afirmou a presidente do SEW. 

Francine Vanolst tempera: “A escolha entre duas línguas permitirá que muitos pais mais próximos do francês ajudem melhor os seus filhos a fazer os trabalhos de casa e também a estudar”. 

Pascale Engel de Abreu concorda: “Por vezes, uma matéria estudada numa língua difícil faz com que ela seja detestada e isso é um risco para o desempenho que, ao escolher uma língua mais adequada, pode ser evitado”. José Luís Correia deu como exemplo “um aluno que não domina o alemão, mas é bom a Matemática, assim que a questão deixa de ser o cálculo, mas passa a ser ter de resolver problemas, a língua é um obstáculo para esse aluno, já que a disciplina é dada em alemão no ensino básico”.

Suzana Cascão considerou, por seu lado, que “é melhor não dar uma importância exagerada ao conhecimento perfeito de uma língua, é melhor saber mais do que uma, mesmo que não muito bem, pois o que importa é a coesão através de uma língua veicular. Será também importante trabalhar muito na orientação para o ciclo secundário, concluiu, dizendo que “de qualquer forma, o objetivo é crescer juntos e não criar guetos”. 

Joëlle Damé considera, mesmo assim, que o projeto Alpha tem pontos positivos, como o de permitir, pelo menos, combater o abandono escolar dos alunos que se afastam da escola devido ao alemão. Mas, fez questão de acrescentar que, na sua opinião, este projeto é antes de mais “uma escolha absolutamente política”. 

Trilinguismo perfeito nunca existiu no Luxemburgo

Pascale Engel de Abreu revelou que, sendo luxemburguesa e estando casada com um brasileiro, “lá em casa, falamos português e luxemburguês”. No entanto, afirmou, “o trilinguismo perfeito nunca existiu no Luxemburgo”. “Muitas vezes, instrumentalizou-se a importância da língua luxemburguesa, dependendo dos contextos e das conveniências”, denunciou. A investigadora concordou com Joëlle Damé sobre o facto de que “a verdadeira incógnita é, de qualquer forma, o ensino secundário, ou seja, será que os alunos alfabetizados em francês ficarão preparados para o liceu onde, de repente, a importância das línguas muda.” Refira-se aqui que as Ciências e a Matemática, que no ensino básico são dadas em alemão, passam a ser ministradas em francês no secundário. O que para muitos é um absurdo, mas que é, de facto, uma herança histórica do ensino público luxemburguês.   

José Luís Correia lembrou que o ministro da Educação, Claude Meisch, anunciou em dezembro que a fileira francófona para os alunos alfabetizados em francês continuará no ensino secundário público dito “clássico” e deverá ser assim uma realidade dentro de quatro ou cinco anos, a tempo de receber os alunos alfabetizados na língua de Molière a partir do ano letivo 2026/2027.

Alemão deixa de ser obstáculo e filtro para os alunos 

Francine Vanolst recordou que “o projeto Alpha foi criado sobretudo a pensar nos alunos imigrantes de língua materna latina (português, italiano, espanhol, francês, etc.), cada vez mais numerosos, e para as crianças que, ao longo dos anos, demonstraram grandes dificuldades em estudar em alemão no ensino básico”, o que depois determinava se seguiam o ensino dito “clássico”, que visa prepará-los para estudos superiores, ou o ensino “geral” (anteriormente dito “ensino técnico”), que tradicionalmente preparava para uma via profissional. 

O moderador responsável pelo Departamento dos Imigrantes da OGBL fez questão de recordar que se um aluno decidir seguir estudos superiores depois do secundário geral pode perfeitamente fazê-lo. “O ensino técnico não é uma fatalidade!”, afirmou Correia. “O problema é que durante décadas, muitos professores orientaram mal os alunos, dizendo-lhes que apenas o clássico permitia aceder à universidade, o que não é verdade”. 

“Alguns continuam a fazê-lo”, disseram vozes na assistência, “o que é claramente uma forma de discriminação e uma forma de filtrar os alunos”. Jean-Claude Reding, antigo docente, ex-presidente da OGBL e ex-presidente da CSL, e que assistia à mesa-redonda, fez questão de intervir para subscrever a mesma opinião de José Luís Correia. 

O debate foi acalorado e sempre com opiniões diametralmente opostas. Uma das últimas questões do público veio de uma jovem aluna de origem portuguesa, que exprimindo-se em luxemburguês fez uma intervenção que impressionou positivamente a assistência: “Para mim, foi difícil estudar numa escola luxemburguesa, sobretudo devido ao alemão, além de ter sido vítima de assédio e discriminação. Mas consegui superar isso tudo. Certamente, o que peço a todos os professores é que estejam ao nosso lado, nos ouçam, nos orientem, nos aconselhem, nos façam sentir que realmente nos acompanham”. À OGBL, a aluna confiou depois do encontro que foram as suas boas e más experiências na escola luxemburguesa que a levaram a decidir seguir a carreira docente. 

José Luís Correia concluiu lembrando que o facto de os alunos saírem da escola luxemburguesa com “um sentimento de reconhecimento ou de ressentimento pelos professores e pela escola em geral, isso pode pesar e muito na forma como passarão a definir a sua relação e o seu lugar com o país e a sociedade em que se inserem. E que se por um lado os pais têm de implicar-se mais na vida escolar dos filhos, os professores também têm de ter noção que têm a responsabilidade de estarem a ensinar e educar os futuros cidadãos”.  

>> A OGBL informa e explica. 

>> A OGBL é o sindicato n°1 na defesa dos direitos e dos interesses dos trabalhadores e dos reformados portugueses e lusófonos. Para qualquer questão, contacte o nosso Serviço Informação, Aconselhamento e Assistência (SICA), através do tel. 26 54 37 77 (8h-12h / 13h-17h, de segunda a sexta-feira). 

>> Pode também contactar os dois secretários centrais do Departamento dos Imigrantes da OGBL: 

– Sónia Neves (, tel. 540545-208) e 

– José Luís Correia (, tel. 540545-245). 

>> Para mais informações: www.ogbl.lu >> Para se tornar membro: hello.ogbl.lu

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