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Medidas de contingência em estado de emergência: salvar o país é preciso!

Sem visão e consciência das consequências das nossas decisões,
seremos sempre mais vítimas e menos resilientes à adversidade.

 

Quem está no poder neste momento, lida com uma pressão que não é fácil de suportar e devemos compreender isso, pois todos queremos salvar o que temos, apesar de ideologias e processos diferentes para esse objectivo. Em Portugal, nesse sentido, o Governo de António Costa tem um objectivo positivo e que todos partilhamos, e estamos de acordo como portugueses: quando a crise passar, queremos que as pessoas e as famílias possam ter a sua independência.
No entanto, as decisões políticas que neste momento o Governo português tomou são boas, mas não chegam para lidar com as consequências do impacto do COVID19 no país, resultante da pandemia que “parou” o mundo dos humanos. O que está a ser feito está certo mas mais é preciso e isso é evidente.

Pensemos no objectivo que temos e vamos agora reflectir como é que se cria independência de cada um de nós. Dar dinheiro imediato às pessoas sim, é fundamental. Assumir as despesas e responsabilidades que elas têm pelo risco de perderem o emprego é também essencial num estado social. Mas… como é que não se faz o mesmo nem se perdoa nada às empresas onde trabalhamos, aquelas que nos dão emprego e nos contrataram numa altura de crescimento e nos seleccionaram pelas nossas competências, para juntos chegarmos mais longe? Como é que se dá ajuda aos motores de criação de emprego e trabalho que sustentam a nossa vida e as nossas famílias?

A dúvida que se coloca, quando reflectimos seriamente na questão, é de como é que vamos reinstalar a confiança social e recuperar o comportamento económico funcional e independente, quando o foco robusto das acções é dirigido apenas de forma significativa para garantir dinheiro directo às pessoas?

Facilitar prazos e dar linhas de crédito, sem perdão de quaisquer impostos e/ou adaptação das empresas à realidade única actual, como é que se protege a independência das Pessoas para conseguirem manter a sua vida e o seu posto de trabalho? Como vão aguentar as empresas a maior crise económica de que há memória neste século?

Mais uma vez, o que está já decidido está bem, mas não chega, pois funciona para aliviar os sintomas a curto-prazo.

No mês de Março, pouco ou nada as empresas produziram. Abril será negro, e Maio eventualmente o reinício do funcionamento de alguma economia. No entanto, com a falta de confiança das pessoas, devido ao impacto do coronavirus, cuja aura e receios se vão certamente manter durante alguns meses, dada a natureza humana face a situações desconhecidas e experiências escaldadas, é previsível que vamos ter uma retorma lenta dos comportamentos das pessoas à normalidade, assim como da economia e da confiança social.

Sabemos que durante 3 meses, pelos menos (segundo as estimativas, e já numa boa perspectiva), as empresas não conseguem facturar e produzir o suficiente, pelo menos, para sustentar os custos de sobrevivência. Dada esta realidade, como é possível o governo, enquanto poder político, e como factor de liderança e inspiração de confiança, não informar que vai perdoar (nem que fosse parcialmente) os impostos e segurança social, durante estes 3 meses às empresas (aí sim, faria sentido não equacionar despedir trabalhadores)? Esse custo a curto-prazo, considerando uma lógica de economia comportamental (porque a natureza humana é feita de Pessoas e somos bastante previsíveis), seria, muito provavelmente, mais barato a médio e longo prazo, do que não o fazer agora.

Por um lado, vemos o governo português adiar pagamentos de obrigações por 3 meses, mas as empresas irão ter que as pagar. Por outro, facilitam linhas de crédito para as empresas contraírem mais dívida. Ora, será que não é por demais evidente, o buraco financeiro dos 3 meses que já terão de suportar, entre as dívidas e investimentos que já previamente assumiram e têm de continuar a ser pagos? Para além de tentarem manter todos os trabalhadores com os respectivos custos associados sem produtividade?

As ajudas estão focadas, e bem, nos indivíduos em particular. Isto está certo. Estamos em perfeita sintonia. Agora, falta mais e melhor. Mais robusto. Foi proposto pela presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, a activação da denominada cláusula geral de exclusão do Pacto de Estabilidade e Crescimento, permitindo assim aos Estados Membros ultrapassarem os limites ao défice orçamental que era de 3% do PIB, desafiando os governos a injectaram na economia o dinheiro que for necessário para mitigarem a crise por causa da pandemia do Coronavírus. Temos obrigação, por isso, em Portugal de acrescentar mais medidas. A crise pandémica mundial do século atinge as pessoas e as empresas que sustentam o Estado Social, pelo que ambos têm de ser apoiados nesta altura, à semelhança dos períodos de guerra mundial.

Vemos os Governos escolherem salvar bancos com milhões, e perdoarem dívidas astronómicas a grandes empresas, mas às micro e médias empresas, o verdadeiro tecido empresarial de Portugal, não. Estas pequenas empresas estão sufocadas, e a precisar de ventiladores neste momento, pois estão em estado grave ou crítico, em risco de não conseguirem continuar a respirar. E todos vamos querer que os números de falências parem de aumentar. O cenário será equiparado a uma recuperação pós-guerra.

Apoiar as pessoas é uma decisão acertada, porque a sociedade, as empresas e o Estado são feitas, de facto, de Pessoas. É o seu elemento constituinte. Precisamos de cuidar de ambos, por forma a que se lhes dê a capacidade de independência. Só assim é que as Pessoas e as Famílias podem zelar por si próprias. A evidência da nossa natureza humana é de que somos sempre menos responsáveis, quanto menor zona de poder, quanto maior a dependência e quanto mais perda de autonomia tivermos. Esta realidade dura, crua e factual, independente da visão política, define a nossa natureza de mamíferos e criaturas sociais.

Queremos acreditar no futuro e proteger a independência das famílias certamente, mas não nos podemos esquecer das empresas que dão trabalho às pessoas e às famílias, porque só em conjunto se cria riqueza no país. Numa crise desta natureza não temos adversários. Vemos, nos trabalhadores e nos empresários, a solução que juntos eles são e formam a estrutura social, pois ambos garantem a independência do seu funcionamento para criar riqueza e prosperidade de um país.

A vida e a ciência ensina-nos que devemos baixar as expectativas para reduzir a frustração e o sofrimento. No entanto, tal como afirma o ditado popular, também “não se fazem omoletes sem ovos”. Dizer às empresas para recorrer a créditos (endividamento), assim como dizer às empresas que os impostos destes 3 meses podem ser pagos em prestações posteriores, e ainda por cima, pedir para segurar postos de trabalho sem existir produtividade ou facturação durante 2 a 3 meses (Março a Junho), terá que haver alguma arte mágica para grande parte das micro e médias empresas descobrirem. Caso contrário, as empresas ficam reféns da realidade, condicionadas por essas decisões em forma de chantagem e medo, e que acabam por condenar milhares de empresas à extinção. Isto vai criar danos na economia, na sociedade e na saúde mental, aumentando riscos de depressão e suicídio, como é expectável e evidência em realidades desta natureza que pude acompanhar de perto na última crise económica mundial há pouco mais de 10 anos.

Portanto, mais precisa-se para salvar o País.

Termino, valorizando todo o trabalho e esforço que está a ser feito e Portugal precisa de todos para salvar o país da bancarrota. Os decisores políticos ocupam o lugar de Líderes nos destinos de reacção à realidade que se enfrenta e é um lugar muito ingrato neste momento para ocupar e devemos todos respeitar isso. Precisamos é inspirar a fazer mais do que está a ser feito. Influenciar-nos uns aos outros, fazendo o que precisa ser feito, sustentado nas competências necessárias e vencermos juntos. As pessoas são feitas de pensamentos, emoções e comportamentos, ao mesmo tempo que somos criaturas sociais. Precisamos de líderes com visão e comunicação afirmativa e segura voltada para o futuro, que sabem onde querem estar, para que, quem cria emprego, dê emprego a quem quer e precisa trabalhar. Basta dar espaço e condições para o futuro aos empresários empreendedores e visionários, que eles sabem cuidar deles e dos seus colaboradores. É o que vemos todos os dias em quem sabe o que quer. Porque num sistema, todos os elementos são necessários para que, autónomos e em sinergia, se vá mais longe. Caso contrário, as ambições e os sonhos desfazem-se pelo insuportável peso do desgaste contínuo e falta de produtividade, mudando-se os rumos da vida de todos.

Ivandro Soares Monteiro, Prof Doutor
Psicólogo Clínico – Psicoterapeuta (particulares)
Executive Coach – Consultor Comportamental (corporate)
www.drivandro.com