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“Mea Culpa” de Carla Pais

“Mea Culpa” é o primeiro romance da escritora Carla Pais, escritora nascida em Portugal, região de Leiria, radicada em Paris.

Vencedora de vários prémios, em conto, poesia e com este romance, no prémio Agustina Bessa Luís, que viria a ser retirado devido a uma incompatibilidade numa das clausulas do concurso. “Mea Culpa” é um romance denso, escrito numa linguagem dura, poética e realista, colocando os personagens em espaços já de si agrestes, decadentes, numa vivência marcada por carências, desafios de sobrevivência, violência física e psicológica, gente que vive à margem do rio, sentido real e metafórico da vida e dos desígnios dos homens.

O romance é todo ele marcado por presságios, que demonstram o lado obscuro das suas existências. Mesmo a descrição do clima, das tempestades violentas serve para intensificar esse clima de desgraça a maus augúrios. Amadeu de Jesus é filho de uma relação da mãe, a puta da cidade, com o padre, paternidade que a mãe Cândida sempre escondeu do filho. Briosa é filha de uma relação da sua mãe alcoólica com o seu avô. Todas estas personagens se desenvolvem num ambiente decadente, sujo, debilitado. A descrição física e psicológica do lugar e das pessoas denota, toda uma pobreza existencial a quem lhes foi retirado tudo, até a dignidade de viver.

Amadeu é filho da puta, cresce a acompanhar a mãe, ama-a apesar de tudo, e haverá de demonstrar esse sentimento ao longo de todo o romance. Briosa é filha da relação incestuosa do avô com a mãe, Florinda, mulher completamente perdida no álcool, no desgosto, na decadência.

São estes os personagens principais que Carla Pais usou para desenvolver um universo rural, dividido por um rio, onde de um lado se situa a cidade dos bons, das mulheres bonitas, o lado luminoso da existência, e o outro, o lado dos esquecidos do destino, dos deserdados, do julgamento alheio, dos que vivem à margem do esquecimento. O caos e a ordem a coabitar num espaço onde apenas o rio é a fronteira que separa. “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz que são violentas as suas margens” escreveu o escritor e dramaturgo, Bertold Brecht. As margens neste caso é esta violência exercida pela vida, pelas circunstâncias, pela violência física e psicologia, pelo desamparo, pela descriminação, pelo julgamento alheio. Pelo preconceito por quem nasceu do lado errado rio, do lado errado da vida.

Contudo, no meio de todo este caos, de toda esta violência, quer na rudeza e agressividade das personagens, quer na linguagem agreste, os personagens encontram um meio de fuga, espaços de beleza, espaços de refúgio a um destino cinzento e violento. Nas brechas das paredes da casa de Briosa, crescem rosas brancas, lá onde a terra é mais doce, as rosas irão de algum modo embelezar aquele espaço por si só tão feio e mal cheiroso, com cheiro a morte, a ferro, a desgraça. Por outro lado, Briosa, é uma adolescente, e como adolescente encontra no ato de pintar as unhas, o meio de colorir a sua vida, o seu mundo. São estes dois sinais, um referente ao olfato outro a visão que vão restituir a Briosa um pouco de esperança, de humanidade, de poesia.

Já Amadeu de Jesus encontra na poesia, o refúgio e salvação para uma vida de violência, de decadência, e de desamparo. Ao longo do romance assiste-se à evocação  vários poetas todos conduzidos pela mão e pelo amor de Amadeu à poesia. Para Amadeu a beleza da vida, o seu mistério encontra-se na leitura dos poetas. “A poesia prova assim não ser apenas um género literário, mas um olhar revelador de mistérios e uma sabedoria resgatadora da nossa profunda humanidade”. Escreve Mia Couto numa das suas conferências. É este o papel que a poesia tem na vida de Amadeu, e na condução desta personagem ao longo do romance, este meio canalizador de beleza e de humanidade.

Isto e muito mais haveria para retirar deste imenso romance e das suas personagens, apetecia-me também falar do amor entre Amadeu e da menina que toca piano, do amor puro e virginal, da morte violenta, de como a sua morte me leva ao drama do dramaturgo Shakespeare, “Hamlet”, na personagem da Ofélia. Tanto, mas tanto que podemos ler nesta narrativa que numa análise cuidada podemos encontrar argumentos para caracterizar uma sociedade, um grupo, uma região.

Assim como no campo da análise do discurso no campo da linguística encontraríamos representadas várias funções de linguagem e sobretudo uma linguagem criada pela escritora para dizer e escrever o mundo, sem pejas, sem subterfúgios, sem panos quentes, como ela própria se define Em todas as suas obras esta linguagem destaca-se em varias componentes, e servem-lhe o propósito de criar historia inventar, novos mundos. “Um escritor usa uma língua dentro a língua, uma pátria que ele inventa não para viver mas para sonhar”, afirmou mais uma vez Mia Couto numa das suas múltiplas conferências. Na minha singela opinião é isto o que a escritora Carla Pais faz, criar a sua própria língua, a sua própria voz. Uma língua que usará para construir novos mundos, dar voz a tantas personagens, a tantas ausências e silêncios.

“Mea Culpa” de Carla Pais
Porto Editora, 2017

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.