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Mário Lobo: não tenho problemas com Amália mas preferia Catarina Eufémia

Mário Lobo, associativista, empresário e colunista regular do BOM DIA publicou um artigo no Facebook criticando a ideia de Differdange, no sul do Luxemburgo, escolher o nome de Amália Rodrigues para uma rua da cidade.

A sua publicação lançou uma polémica tão grande que a cidade luxemburguesa recuou e decidiu chamar à rua Sophia de Mello Breyner Andresen.

O BOM DIA quis saber mais sobre esta história que já fez correr muita tinta conversando com Mário Lobo.

Esta não é uma pergunta típica para se começar uma entrevista mas, afinal, o que se passa com os nomes das ruas em Differdange?

A Comissão Comunal Consultiva de Integração (CCCI) propôs que uma das novas ruas de Differdange viesse a ter o nome de Amália Rodrigues. Ao que percebi esta escolha inseria-se numa opção mais alargada dar nome de mulheres a um conjunto de ruas duma nova urbanização. Eu achei que não se deveria dar o nome da Amália, mas sim um outro, como expliquei num texto que publiquei na minha página Facebook já a 2 de abril. A publicação deste texto teve como consequência a retirada da proposta por parte do Burgomestre de Differdange na reunião do Conselho Comunal no dia seguinte. E não foi até 14 de maio que tudo isto causou alguma comoção. Talvez associado ao facto do Conselho Comunal de Differdange ter reunido de novo no dia 15.

Porque contestou a possibilidade de se chamar Amália Rodrigues a uma rua?

A nossa comunidade aqui no Luxemburgo é no seu essencial pertencente às classes sociais mais baixas. Não tenho, seguramente, problema algum com isso. São as condições da vida que assim o determinaram. Não faço também uma associação determinística entre a classe/condição social e o nível de cultura ou conhecimento. Depois é preciso perceber as origens da nossa comunidade aqui, como viemos, porque viemos e quem veio. Isto logo no início. A tese de doutoramento de Thierry Hinger demonstra que a escolha do governo luxemburguês pelos portugueses, na década de 1960, se devia a três condições: católicos, humildes e iletrados. Esta escolha deixou marcas profundas na comunidade – para perceber isto basta comparar o tamanho da nossa comunidade com a espanhola e perceber o quão mais vasta é a atividade de nuestros hermanos no que toca à cultura e à política, e mesmo à relativa força dentro da comunidade do seu movimento associativo.

Não tenho problema algum com a Amália, ainda para mais sabendo que, como disse em declarações a um jornal em português que optou por as ignorar, a Amália chegou a suportar financeiramente o Socorro Vermelho. Não tenho também problemas com o fado em si. Muito menos sendo este reconhecido a nível mundial como Património Imaterial da Humanidade. Tenho problemas com o facto de não parecer ser possível ir além do fado quando se pensa na comunidade portuguesa aqui no Luxemburgo – o que fiz saber diretamente e ainda antes de publicar o meu texto ao presidente da CCCI de Differdange, Paulo Aguiar.

O fado, goste-se ou não desta verdade, foi uma das ferramentas da ditadura fascista portuguesa. O veicular através da música popular duma vida miserável mas alegre, “pobrezinhos mas honrados” como se diz, era uma das formas de manter resignada uma população oprimida. Era, aliás, um dos pilares do regime: Fado, Futebol e Fátima. Podemos ler esta trindade como: culturalmente restringidos, distraídos e tementes. Se havia outras formas de expressão no regime fascista? Claro que havia, mas reservadas aos ricos

Resumindo, desagradou-me a proposta do nome da Amália para primeira rua do Luxemburgo com nome dum português porque não ousava ir além do óbvio e do normativo social. Acho que estes momentos são, ou podem ser, revestidos dum simbolismo que pode alteras as realidades existentes. Abrir novos horizontes. Uma rua com o nome de Amália Rodrigues não seria nada mais do isso: uma rua com o nome de Amália Rodrigues. Não traria nada de novo à portugalidade no Luxemburgo.

Não é melhor Amália do que nada?

Qualquer coisa será sempre, ou quase sempre, melhor do que nada. Mas o meu protesto, e consequente proposta, não eram o de se deixar cair a ideia de ter o nome duma portuguesa atribuído a uma rua de Differdange. Propus desde logo o nome de Sophia de Mello Breyner.

Porque houve tanta polémica à volta disto?

Pois… realmente não sei. Como disse, nada se passou durante quase mês e meio até que um artigo apareceu na página dum jornal em português aqui no Luxemburgo. Eu fui contactado por esse jornal para dar a minha opinião, não pela articulista em questão mas por outra pessoa, e respondi a todas as questões que me colocaram aditando mesmo alguns detalhes. O texto publicado tem claramente um propósito militante: trunca a latitude das minhas declarações e atribui a um só deputado municipal, em 19, o feito de ter bloqueado a decisão de dar o nome da Amália. Ora, a proposta nunca chegou a ser apresentada a votação, tendo sido, ao que julgo saber, o próprio grupo político do burgomestre de Differdange a decidir no sentido da sua retirada – mas apurar isso seria um trabalho jornalístico a fazer.

Como dizia, todo o texto é levado no sentido de, após expor a minha opinião, a refutar sem preocupação alguma de contraditório. O propósito militante do texto é reforçado no dia seguinte, após aprovação por UNANIMIDADE (as maiúsculas são do entrevistado) do nome de Sophia na reunião do Conselho Comunal. Não conseguindo esconder o seu descontentamento sou acusado de ter “grafado” de forma errada o nome da poetisa.

E não havia outros nomes em vez de Sophia?

Claro que haveria e haverá muitos mais. Pode mesmo até ser a Amália. O que eu me insurgi contra foi o facto de a primeira escolha não ser ousada o bastante e limitar-se a ficar no conhecido e no terreno seguro. Acho, aliás, que a votação do nome de Sophia reflecte precisamente isso, a vontade de ir um pouco mais além. A equipa de Traversini está, neste assunto, de parabéns. Se o nome Amália nada traria mais do que a homenagem, merecida entenda-se, o nome de Sophia trouxe curiosidade e, paradoxalmente com a ajuda daqueles que se arregimentaram para me atacar, a quase totalidade das vezes ignorando os meus argumentos e focando-se na soez agressão pessoal, trouxe mais cultura à cultura portuguesa no Luxemburgo.

Como reage a essas críticas?

Só tenho a agradecer a contribuição que deram em ajudar o meu objetivo inicial: dar a conhecer um pouco mais de Portugal além do fado. É costume dizer que não há má imprensa.

Por outro lado, e de forma mais séria, o teor das críticas reforça precisamente a minha análise inicial: a de que a comunidade portuguesa, muito em parte devido aos contornos iniciais do fluxo migratório, vive, social e culturalmente, cristalizada, como que em âmbar, numa realidade que já não é a do nosso país. A forma de ultrapassar esse desfasamento é abrir novos horizontes, mostrar novas coisas. Sair do paradigma do “todos temos a nossa cruz” que tanto serviu, noutros tempos, ao manietar dum país inteiro.

Por fim, devo confessar alguma tristeza ao ver algumas figuras mais pensantes da nossa sociedade lutar de forma tão aguerrida pela manutenção desse âmbar , se bem que isto tenha sido residual.

Depois de tudo isto, tornaria a escrever o mesmo texto?

Escreveria exatamente o mesmo texto. Talvez mudasse o nome sugerido. Ao invés da Sophia teria sugerido Catarina Eufémia.

E porquê Catarina Eufémia?

Por ser alguém que lutou do lado que achou certo, e por isso pagou com própria vida. Catarina Eufémia, diz o relatório da autópsia, foi morta à queima-roupa, pelas costas, com três tiros enquanto segurava um dos seus três filhos ao colo. Consta que o os tiros foram disparados quando, interrogada pelas forças da GNR quanto à razão do seu protesto, respondeu querer “trabalho e pão” para si e para os seus. Para sorte minha só pedi cultura.

Há uma outra razão, e peço desculpa pela dureza das palavras, que seria a de juntar claramente vermelho à questão justificando assim, ainda mais, a atividade tauromáquica a que o meu texto parece ter dado origem.