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Maria Vieira de Souza: a arte como território de solidariedade

Paranaense de Colorado, Maria Vieira de Souza é graduada em Artes Plásticas pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e pós-graduada em Teatro pela Universidade São Judeu Tadeu, também na capital paulista.

Professora de Arte, artista plástica, curadora artística e diretora teatral, é também autora do romance As bruxas do século XXI. Suas obras têm sido expostas na Itália, França, Portugal, Espanha, Áustria e Suíça.

Em março de 2020, com a notícia da pandemia causada pelo Covid 19, idealizou e coordenou o projeto Dias de Reclusão, que resultou numa antologia literária e numa coletânea de artes, cuja comercialização terá os valores revertidos para instituições sociais do Brasil e da África.

Artista plástica, professora e curadora de arte. Qual dessas atividades lhe desperta maior interesse?

Uma vez professora, mesmo que aposentada, como estou hoje, sempre vem aquele ímpeto, desejo de ensinar, que volta e meia surge automaticamente.   Hoje me dedico mais à pintura. Sempre quis ter tempo para pintar. Há seis anos, venho desenvolvendo pesquisas e experimentações com a pintura, utilizando o verniz vitral sobre acetato. Quando a professora se impõe, me vejo gravando vídeos e ensinando técnicas. O interesse é mais forte com as experimentações artísticas, embora sempre que tenho chance ou recebo convites para workshops, faço com o maior prazer. Tenho dificuldade em separar a artista da professora de arte. Na arte, é fundamental transmitir aos outros a técnica que estamos desenvolvendo, os novos métodos.

Você tem participado de várias exposições no exterior. Como tem sido a receptividade do público estrangeiro à arte brasileira?

Sempre fui bem acolhida em todos os países em que fiz exposições, seja como curadora ou artista. Admiro a generosidade do público  europeu para com a arte brasileira, ao abrir as portas para artistas que ainda não são consagrados. Geralmente as pessoas demonstram interesse e procuram conversar e saber detalhes sobre o processo de criação do artista,  buscam curiosidades sobre a obra exposta. Também  não questionam sobre o valor da obra, respeitam o valor que o artista divulga.

 Acredita numa arte que possa desafiar os modelos existentes  e servir como resistência?

Acredito fortemente nisso. Creio que o que move a arte é a possibilidade de fazer as pessoas pensarem. Ela permeia o nosso cotidiano. Nesse novo tempo, há de surgir um movimento em que rompam alguns padrões e que a arte ocupe cada vez mais espaço na vida das pessoas, que consiga derrubar todos os limites geográficos, de aprisionamento em museus e seja a cura para as dores e inquietudes. Acho que os museus são importantes para preservação da história, mas gostaria de ver todos cidadãos com acesso aos acervos,  não apenas quem pode pagar. A arte precisa de liberdade, de mobilidade e de território livre para debater questões do cotidiano. Uma sociedade livre é uma sociedade aberta ao debate e se isso é possível através da arte, não tem que haver censura. O acesso precisa ser facilitado para todos.

Anos atrás, você fez uma pintura vitral, num ponto de ônibus, na cidade de Registro, interior de S. Paulo. Qual a importância de levar a arte para os espaços públicos?

Como disse anteriormente, vejo a arte como um veículo de transformação da sociedade, levando as pessoas a pensar, por isso, precisa ser acessível a todos. Quando a arte está presente na rua e todos têm acesso a ela, deixa de ser elitizada. Ainda não é atribuída à arte de rua o mesmo valor das grandes obras que estão nos museus, embora alguns artistas trabalhem incansavelmente para diminuir tal distância, através de murais e painéis comunitários, como é o caso do artista plástico Andruchak Marcos, que imprime em seus murais a participação da comunidade.

Como surgiu a ideia de realizar a coletânea de artes e a antologia literária intitulados “Dias de reclusão”?

Quando foi confirmada a pandemia, causada pelo Covid19, e iniciou o isolamento social, comecei a pensar nas diversas pessoas que estavam ou moravam em outros países, longe dos seus familiares. Pensei em cada dia falar com um amigo para ter notícias e saber como cada um estava reagindo. Passados uns dias, ao final de uma meditação, se desenhou em minha mente o projeto inteiro. No início, eu não dei muita atenção, sabia que ia tomar muito do meu tempo e eu queria usá-lo para pintar. Mas a ideia persistia em minha mente. Contei aos meus filhos e eles acharam interessante. Resolvi ligar para a Edimara Condé Arouca, amiga que vive na Alemanha. Ela achou interessante a proposta e disse que se precisasse de ajuda, poderia contribuir. A partir daí, me encorajei, digitei o projeto e enviei para outra amiga, em Diadema, SP, a artista e professora Gilda Sabas, que me ajudou a formatá-lo.

Como se deu o processo de seleção das obras que integram  “Dias de reclusão”?

Fizemos tudo atendendo ao regulamento. Centenas de obras que chegaram, datadas de 2019, foram descartadas, pois a proposta era  apresentar trabalhos produzidos durante o isolamento social. Os líderes, por continente, fizeram a pré-seleção. Em seguida, as obras selecionadas foram encaminhadas para o curador de arte da coletânea, o crítico de arte Oscar D’Ambrósio.

A renda obtida com a venda de “Dias de reclusão” será destinada a quais instituições?

O Instituto Janeraka, com sede em Belém, PA, que visa à preservação da cultura dos povos da floresta, da etnia indígena Awaeté Assurini, no Xingú, receberá 30% da renda. O Instituto O Bem Nunca Para, que tem trabalho voltado às famílias com crianças até 12 anos, em vulnerabilidade alimentar,  receberá 10%. A Instituição Pastos Verdes, de Moçambique, orfanato que também trabalha com orientação de estudos para crianças e jovens, assim como gestantes que passam por privações, receberá outros 30%.

A reclusão acabou sendo inspiradora para você e para os artistas de 23 países que encontraram uma forma poética de enfrentar esses tempos de medo e angústia. Você contou com uma equipe de colaboradores para execução desse trabalho? 

Sim. No núcleo de coordenação contei com a colaboração da Edimara Condé Arouca, na Alemanha, e com o artista plástico Ruben Zacarias, em  Moçambique. Na liderança, tivemos Laís Kaori e Go Kawana, na Ásia. Edimara Arouca, na Europa. Ruben Zacarias, na África, e eu nas Américas. Depois, entraram outras líderes para expandir a divulgação na Europa: Marisa Pedrosa, Denise da Cruz e Angela Cardoso, assim como Ale Abdo, na divulgação geral. Para seleção e encaminhamento das obras infantis, tivemos a parceria da artista Rejane Melo. Na divulgação interna, Ana Maria Reis e Janete Manacá. A artista Rosangela Vig fez a revisão final da antologia. O artista plástico Andruchak Marcos, a direção de arte da coletânea. A curadoria foi do crítico de arte Oscar D’Ambrósio. Tivemos, ao todo, 40 voluntários ajudando na tradução, documentação, diagramação e revisão dos textos.

Faz parte da coletânea de artes algumas obras produzidas por crianças e adolescentes, com idades entre seis e 14 anos. Como foi a participação deles?

Das 15 crianças que participam da coletânea, 12 delas vieram selecionadas pelo AteliRE, de Rejane Melo, em Manaus. Uma veio por indicação da Edimara Arouca, na Alemanha , e outras duas do interior de São Paulo.  As crianças surpreenderam com o domínio da técnica de seus trabalhos, deram um show de criatividade. Tivemos também um artista autista e outro que pintou com a boca. Todos brilhantes em seus trabalhos, verdadeiros modelos de superação. Nossas crianças fecham a coletânea esbanjando talento.

Acredita que o ser humano será melhor após a pandemia?  

É o que se espera de todos nós, não é?  Aquele que busca uma evolução constante, certamente aproveitará à parada e à sacudida do momento para melhorar. Tenho esperança e torço para que a pandemia possa servir para uma reflexão maior sobre a vida e o modo como nos relacionamos com o meio ambiente e o próximo. Sendo um pouco utópica, diria que se ao menos cada um se perguntar a razão de sua vida ter sido poupada e o que pode fazer para deixar o seu melhor, em contribuição e agradecimento por ter ficado vivo, já está bom.

 

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

 

 

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