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Margarida

Margarida não ia nem a aniversários nem a funerais. Os primeiros subtraíam vida. Os segundos faziam a soma. Em criança não soprou uma única vela e não tem memória do gosto a bolo cantado por parabéns. A decisão foi tomada aos cinco anos de idade. Foi pensando nisso que teve o seu primeiro encontro com a morte. Ali ao lado. Sempre presente mas anestesiada pelos adultos que acreditam, pobres tolos, que o tempo lhes traz sabedoria. Na verdade, o tempo, o senhor da continuidade, tira-nos inteligência e capacidades e destrói-nos o corpo, enquanto dele temos percepção. Depois disso, tanto faz.

Chegada à escola primária, ainda mal tinha pousado o lápis e o caderno na sua secretária, viu-se confrontada com a morte da avó materna. Não chegou a ver o cadáver daquela mulher gigante que se dividia por dez netos. Como seria um funeral? Tentou imaginar o seu próprio funeral e rapidamente apercebeu-se da parvoíce da ideia. Um ser consciente não pode imaginar a sua própria morte, isto é, a consciência não é capaz de pensar o estado de não consciência. Uma imbecilidade que paralisa a vida. Se não for por ela, morte, que damos sentido então que seja pela própria vida.

É a fé que nos move. O sinal de que somos finitos. Margarida sabia disso. E subia os degraus da Igreja do Monte, sempre que era 13 de Agosto, com uma serenidade que só uma flor perfeita o podia fazer. Ia de véspera para se antecipar à confusão da festa. Encontrava muitos dos seus compatriotas que tinham vindo de outras terras. Terras que os acolheram para fugirem à ilha que não lhes deu oportunidades. Também ela, mais tarde, foi para Londres. Ia aprender a dançar. Talvez entrasse numa companhia média e quem sabe, seria especialista em bailado contemporâneo.

Da escada do Monte parecia que via a Madeira toda. Mas não: era o Funchal imponente, recortado pelas lâminas de lava cobertas de verde. E pedia a Deus. Pedia a Deus que se explicasse: se Ele era grego ou judeu. A oposição entre o Ser Ordenador dos gregos e o Deus pessoal dos judeus e dos cristãos sempre lhe causara profundas dúvidas. “Será mesmo que Deus se interessa pelo destino de todos os homens e de cada homem?”, pensava ela baixinho com medo de que Deus, ou algum anjo, ouvisse as suas dúvidas.

Já dentro da igreja, tentava perceber se homens bons, como o Tolentino Mendonça (nosso orgulho nascido em Machico, recentemente cardeal), seriam capazes de lhe dar a certeza que Deus governa o Mundo. Até onde poderiam garantir que não está tudo mais ou menos determinado? Se estivesse, até daria jeito. Nenhuma culpa caberia em nenhuma alma. Margarida afastou de si a possibilidade do determinismo cósmico. Mas uma incerteza mantinha-se: o princípio. A criação. Algo completamente estranho aos gregos antigos. Do que leu, entendeu que a realidade ser eterna e imutável colocaria a tónica na nossa ignorância. Tal como o pecado e o mal. Acendeu uma vela e pediu a Deus que a protegesse, a si e aos seus. Acrescentou a este pedido, como quem não quer nada, o amor. Sentia muita dificuldade em reconhecê-lo no dia a dia.

Era noite. Ligou a televisão. Um candidato à presidência do governo era entrevistado. O seu ar de enfado fazia lembrar “O candidato idóneo”, de Mark Twain. “Senhor, esta é a primeira vez que tenho o privilégio de me apresentar perante este ilustre grupo de gentalha (…). Ainda assim, o dever que tenho para com os constituintes exige que um discurso oficial seja de imediato por mim proferido e por vós registado”. De manhã, Margarida sentiu a falta do Senhor José. O vigilante da rua. Passava o dia a observar quem passava. Sabia todas as matrículas dos vizinhos. Falou com ele apenas uma vez. “Atenta aos que encontras pelo caminho quando subires, pois, vais encontrá-los a todos quando desceres”. Há quem se esqueça disto.

Voltou para Londres. Mas antes provou a espetada e a poncha deixou-lhe a certeza de que a liberdade é a chave da acção, sendo a salvação ou a decadência o que está em causa. Os gregos antigos estavam errados. Ligou-me a contar isto. Dois meses depois, uma dor nas costas significou um cancro. Daqueles que só os outros têm. Dizia-me que não há eterno retorno. Não há lugar para o destino. O tempo é linear e irreversível. Não havia mais nada a dizer. O cancro levou-lhe a vida.