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Marcos Damigo: a arte do teatro e do equilíbrio interior

Tendo frequentado a Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP), após cursar Agronomia, Marcos Damigo, ao longo de mais de duas décadas de carreira, firmou-se como ator, em atuações irretocáveis como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, adaptação teatral do romance de Machado de Assis, e, mais recentemente, em O Pai, de August Strindberg, em ambas sob a direção de Regina Galdino. Na televisão, teve papéis de relevo em telenovelas como Insensato Coração e Joia Rara.

Como dramaturgo, vem se dedicando, desde 1997, à pesquisa histórica, quando recebeu o Prêmio Nascente da Universidade de São Paulo, por sua peça Cabra: Épico de Canudos. Também é autor e diretor de Leopoldina, Independência ou Morte, que estreou em São Paulo, em 2018, e terá nova temporada, no segundo semestre deste ano. Seu texto teatral mais recente é Entre a Cruz e os Canibais na Vila de São Paulo de Piratininga, que parte de um episódio histórico real, a visita do governador-geral do Brasil, Francisco de Souza, em 1599, à capital paulista. Ambos publicados pela editora Giostri.

Ainda jovem, tornou-se defensor de uma nova ética alimentar, que acabou por levá-lo ao veganismo. É praticante de ioga, pela convicção do quanto ela contribui no equilíbrio interior das pessoas e na superação dos malefícios da sociedade de consumo.

Em que momento da vida a descoberta do teatro?

Um pouco tardiamente, confesso. Eu havia acabado de trancar o curso de Agronomia, na Unesp de Botucatu, onde estava muito envolvido com o movimento estudantil, até que fui “fisgado” pelo escritor e terapeuta Roberto Freire, que se tornou meu mestre. Comecei a fazer a somaterapia, que ele criou, até que um dia ele decidiu juntar algumas pessoas para estudar teatro. Aí comecei a fazer alguns cursos livres e, no ano seguinte, fiz o vestibular da Escola de Arte Dramática. Fui aprovado e aqui estou eu.

Como foi deixar o curso superior de Agronomia e ingressar na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, nos anos 1990?

Foi um processo difícil, uma transição enorme de vida. Porque eu era muito envolvido com o curso de Agronomia e as discussões que envolvem essa área, tão importantes para todos nós (a produção de alimentos) e tão à mercê de poderosos interesses. E também porque eu não sabia o que queria, quando comecei a pensar em abandonar o curso de Agronomia, ainda no segundo ano. Como eu disse na resposta anterior, Roberto Freire foi fundamental nesse processo, um mestre mesmo, que viu algo em mim que nem eu reconhecia ainda.

Das mais de duas dezenas de montagens teatrais de que participou, quais destaca?

Vixe, difícil dizer. Cada uma é especial e importante para mim, no momento em que está sendo realizada. Mas destacaria Cabra, meu primeiro texto, dirigido em 1999, pela Georgette Fadel e onde eu atuava, ao lado do Joca Andreazza. Até hoje, minha mãe diz que foi a peça que eu fiz que ela mais gostou. Teve também o Hamlet, direção do meu outro grande mestre, Francisco Medeiros, no Teatro Popular do SESI, em 2002. Não há como passar incólume por um Hamlet, afinal! Eu era bastante jovem, tinha 28 anos. Normalmente, os atores deixam para fazer o Hamlet um pouco mais velhos, apesar do próprio personagem ser jovem também. Mas foi o ano da primeira eleição de Lula para presidente, a peça respirava um pouco esse ar de uma grande mudança de paradigma. Mais recentes, posso citar Memórias Póstumas de Brás Cubas, adaptado e dirigido pela Regina Galdino, que exige um grande domínio técnico para sua execução, por ser um solo cômico e musical. E, por fim, Leopoldina, Independência e Morte, que escrevi e dirigi e estreou no CCBB SP, em 2018, por ser uma obra onde eu coloco muito de mim e do que acredito enquanto realização teatral. Inclusive, temos uma nova temporada  prevista em São Paulo, para setembro deste ano, junto às comemorações do bicentenário da Independência.

Que papel teve o escritor e psicanalista Roberto Freire em sua trajetória?

Roberto foi essa pessoa que me ajudou a fazer uma travessia, um amigo e um mestre. Sua influência começou mesmo antes de eu conhecê-lo, ao ler seus livros. E depois se aprofundou com a nossa convivência. Quando o conheci, eu tinha essa atitude um pouco clichê do militante, queria mudar o mundo na marra e descobri com ele que o prazer e a alegria são ingredientes fundamentais para qualquer revolta.

Após trabalhos de sucesso na televisão, afastar-se dela foi uma escolha ou contingência?

Não sei, acho que ambas as coisas. Mas eu nunca fui um ator típico de televisão, ela sempre orbitou minha vida junto com vários outros interesses. Sou muito grato pelos trabalhos que realizei na televisão, alguns trouxeram questões importantes, como a representação de um casal gay sem caricaturas ou estereótipos em Insensato Coração. Apesar da censura que nossa trama sofreu na novela, até hoje recebo mensagens de pessoas que foram encorajadas a se assumirem para a família. Ou Joia Rara, meu último trabalho em televisão, que trazia ao grande público um pouco da filosofia budista, que me é tão cara, apesar de eu não ser praticante. Mas sinto que no teatro eu tenho mais autonomia para desenvolver meus projetos, então acabo investindo mais minha energia aí.

A formação em ioga colabora com o trabalho do ator?

Muito, em vários sentidos. A não sucumbir às oscilações e intensidades do nosso ofício, a entender melhor meu corpo, mantê-lo saudável, forte e flexível. As pessoas, às vezes, têm um preconceito com a ideia do zen, como se isso significasse estar alheio às coisas, não se afetar por elas. E eu sinto que é o contrário: praticar, meditar, me ajuda a ser capaz de estar muito mais disponível e, ao mesmo tempo, não ser refém do que nos atravessa, ainda mais num mundo tão tóxico. Não sei se me explico bem, mas enfim…

A preocupação com uma nova ética em relação aos animais surgiu quando? O veganismo é a saída para um planeta mais saudável e fraterno?

Essa questão atravessa minha vida desde cedo. Antes da Agronomia, eu me formei como técnico em agropecuária, em Jaboticabal, e já naquele ambiente eu comecei a questionar os maus tratos aos animais, me tornei vegetariano pela primeira vez, uma atitude bastante ousada para o ambiente em que eu estava. Está cada vez mais evidente que toda a cadeia de produção de carne é profundamente danosa, poluente, devastadora e injusta do ponto de vista não só animal, mas humano também. Trabalhadores da indústria da carne sofrem vários tipos de doenças. Então, penso que é urgente sim repensarmos nossa relação com o alimento, não só de origem animal, mas os ultraprocessados, os agrotóxicos. E já temos tecnologia de sobra para fazer essa transição, mas o setor do agro tem uma força econômica e, por consequência, política, imensas, impedindo que avancemos nessa discussão.

O mergulho na história do Brasil, empreendido em dois textos teatrais que escreveu: Leopoldina Independência ou Morte e Entre a Cruz e os Canibais, mostra que padecemos historicamente pelas mesmas mazelas. Algum antídoto para isso?

A pergunta de milhões! Se, por um lado, é duro constatar que as estruturas permanecem inalteradas ao longo dos séculos, gerando continuamente injustiça e violência, é alentador perceber que sempre houve também a luta de pessoas que resistiram e acreditaram ser possível um mundo mais fraterno e justo. E que hoje em dia também existem pessoas que carregam esse estandarte. Pessoas como o Padre Lancellotti, além de tantos artistas que não desistem de revelar nossa mais profunda humanidade, seja em canções, livros, peças de teatro, filmes. O único antídoto é não desistir de lutar por uma expansão das consciências, contra a lógica da guerra, da violência e do extermínio.

Ser artista e fazer teatro no Brasil, em tempos de tantos retrocessos políticos, como tem sido? As leis de incentivo à cultura têm cumprido seu papel?

Para um artista nestes tempos bicudos, viver é praticamente um sinônimo de lutar. Lutar pela sobrevivência tornou-se a mesma coisa que lutar por manter acesa a capacidade de sonhar, de se revoltar. Isso pode ser muito potente também, porque um dos objetivos dos que atacam os artistas é nos fazer esmorecer. Então, precisamos nos fortalecer, fincar raízes profundas nas convicções que nos movem e instigam. Mas um dos efeitos provocados por esse retrocesso todo é que, se por um lado estamos sendo convocados a participar de uma luta importante, por outro, sinto que, em função disso, há pouco espaço hoje para uma das coisas mais importantes no território das artes, que é o exercício do pensamento complexo, do contraditório. Precisamos defender, às vezes, pressupostos tão básicos da vida em comunidade que não podemos nos dar ao luxo de duvidar. A questão do incentivo para as artes passa, creio eu, pela percepção de que a cultura de um povo é algo tão importante quanto questões concretas como comer e ter saúde. Como ouvi dizer o grande mestre Gilberto Gil, não deve ser algo extraordinário, mas sim ordinário. Tem um poema lindo que eu vi outro dia uma mulher declamando num microfone (infelizmente não tinha os créditos de quem ela era nem que poema era aquele), mas que falava do absurdo que seria tirar da nossa vida, do nosso cotidiano, todas as músicas, todas as histórias, todos os filmes, peças, livros. Por menos apreciadora das artes que uma pessoa se considere, ela inevitavelmente vai ser atravessada por elas. Isso tem a ver com a criação de uma identidade coletiva, de um repertório para interpretar o mundo. Não à toa isso está sendo atacado agora, porque para que as coisas se perpetuem na desigualdade, para que a miséria de muitos custeiem o luxo de poucos, é preciso que as pessoas não pratiquem esse exercício de imaginar, de se sensibilizar com o mundo. E as leis de incentivo, principalmente no nível federal hoje no Brasil, estão à beira de um colapso, infelizmente.

Novos projetos em andamento?

Sempre, muitos. Atualmente, estou investindo bastante tempo e energia nessa pesquisa que intersecciona teatro e história do Brasil. Tantas histórias deslumbrantes para serem contadas. Estou muito mobilizado por esse trabalho imenso e insano de escrever e dirigir peças nesse gênero de teatro histórico. Mas também sinto muito prazer em estar em cena. Recentemente, estive em cartaz com O Pai, do sueco Strindberg, um gênio que revolucionou a dramaturgia no final do século 19, com direção da Regina Galdino. Foi uma emoção tão grande estar em um teatro novamente depois destes dois anos de paralisação total.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, professor, ator e jornalista.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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