
O poeta Cesário Verde pereceu a 19 de Julho de 1886, tinha trinta e um anos.
Autor do “Livro de Cesário Verde” chegou a andar por Felgueiras, tal como alguns escritores seus contemporâneos, em busca de cura para a tuberculose, fruindo da enorme pureza ambiental que então caracterizava o concelho de Felgueiras.
Aquela enfermidade fora também a sentença capital da sua irmã e do seu pai.
Este desfecho fez com que Cesário suspendesse o Curso Superior de Letras, para trabalhar no comércio que herdara do progenitor.
Estas realidades na sua vida inspiraram-lhe o enorme poema “Nós”.
Cesário Verde foi predecessor da poesia que viria a ser muito praticada sobretudo no início do século XX.
Cesário Verde colheu a minha apreciação pela sua obra muito cedo. Distingo o seu poema “De Tarde” – que tem versão musicada e pode ler abaixo – mas não é fácil salientar um só poema, de tão bela obra e tão acessível à leitura que só alguma particularidade – em miúdo, que não recordo – terá motivado o meu imenso aclive por esse trecho.
A obra de Cesário Verde não é extensa mas é intensa: pouca e boa!
José Joaquim Cesário Verde, o seu nome completo, nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855.
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
De tarde
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
