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Linhas temporais

Nunca fui de consultar pítias e oráculos, mas eles sempre souberam fazer chegar até mim as suas mensagens mais ou menos absconsas. Assim, e segundo esses leitores das inúmeras linhas temporais que se vão desenhando e desdobrando na imensa teia do multiverso, o rio Lethes devia ter-me levado na sua corrente do olvido várias vezes antes de eu sequer poder chegar aos quatro anos de idade. 

Mas, com duas mães super-protetoras em casa, passei a viver quase dentro de uma redoma, um menino-bolha, como o Tod Lubitch do John Travolta. Talvez seja por isso que ainda hoje sinto que passei pela meninice quase sem dar por isso, como se flutuasse em algodão, como se fosse algo indistinto e impalpável. Mas feliz, com muito amor. 

Depois, por um tempo o tempo pareceu ter-se esquecido de mim.

Aos treze anos persuadi-me a mim próprio que não chegaria aos quinze. Tinha-me identificado de tal maneira com a Anne Frank, cujo diário andava a ler, que passei a acreditar intimamente que eu era a sua reincarnação. As nossas linhas do tempo teriam inefavelmente a mesma duração. Forcei as coincidências e encontrei tantos pontos comuns com a sua vida – gostar de escrever e ter começado um diário com a mesma idade, ter uma relação mais forte com um dos progenitores, o gosto pelos mesmos actores e artistas, ter uma vida interior muito mais vibrante do que a vida social, etc. – vai daí convenci-me que era inegável e inquestionável, a sua alma transmigrara para a minha. E a conclusão era evidente: o meu tempo de vida seria o mesmo que o dela, e estava contado. 

Comecei a ter pensamentos negros e pintei a minha vida da mesma cor. Foi o meu tempo de vanguardista, com botas da tropa, gabardine preta, música exclusivamente dos Cure, Joy Division, Smith no walkman (preto, da Sony, obviamente). Por uns tempos, pelo menos. Mas nunca fui um pessimista, nem nunca gostei de verniz e maquilhagem preta, e foi a minha sorte. 

Afinal, não morri aos quinze anos, senão é óbvio que não estaria aqui a escrever-vos. Bem… até podia, mas eu não sou uma personagem do Machado de Assis nem isto é um filme do Tarantino. Adiante. 

Quando cheguei aos 16, a adolescência tornou-se mais prometedora e pensei que tinha escapado ao destino. Era um sobrevivente. Foi o que pensei nesse momento. Mas aos 28 anos percebi que não, os velhos vates voltaram a prevenir-me: afinal, eu não escapara, estava simplesmente a montante do destino. A minha liberdade condicional duraria no máximo cinco anos, avisaram-me. Os médicos ordenaram, eu fiz e voltei a sobreviver. 

Ontem, veio um novo aviso. O destino sempre à minha cata, como se quisesse corrigir algo. Como se o fosse composto por duas forças opostas em constante batalha: a linha primária e as linhas secundárias. Mas, escapei-lhe tantas vezes que já deixei de acreditar há muito tempo na providência. 

Passei a acreditar no tempo e nos tempos, como uma coisa desdobrável, flexível, como cordas na dobra do universo. E eu um mero viajante. Preciso apenas saber agarrar a boa corda. Ou enganar-me, cair de cu e voltar a tentar. 

Acredito hoje também que sou eu que desbravo os meus próprios trilhos, que desfio os fios com a minha força vital e com as fraquezas humanas que me são inerentes. Decido eu por onde ir. Não ir por aí, mas por aqui, mesmo que seja um caminho errado. Mas é o meu caminho errado. E se for errado, pois que seja, hei-de ser eu a corrigir a rota na próxima encruzilhada. Ou não, logo decido. 

Espanto as vozes, os vates, as pitonisas, os adivinhos, os espíritos todos, queimo as cartas de Tarot e os mapas astrais, quebro as bolas de cristal no chão, com perda e fracasso. E mantenho-me fiel aos meus próprios astrolábios. Só sei viver assim.

JLC01122009 (“Diário de A.”)