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Lendo Edward O. Wilson

Numa próxima vida serei cientista, apetece-me dizer depois de ler estes dois livros do biólogo e entomólogo Edward O. Wilson. Voltei a sentir a mesma paixão pela Ciência de quando era criança. Não sei como me interessei pela Ciência, se foi graças à paixão que Carl Sagan me conseguia transmitir no seu magnífico “Cosmos”, se às emissões dos irmãos Bogdanov, se à série “Il était une fois…”, se aos documentários televisivos que eu via, ou aos livros que me ofereciam e eu devorava.

Desisti uma primeira vez de ser cientista quando percebi que a Matemática era uma das chaves obrigatórias para aceder a esse grande templo. Como na disciplina de “Rechnen” eu sempre fora um aluno mediano, percebi que devia optar por outro caminho, talvez a escrita, talvez o ensino. Em caminho, fui seduzido pelo Jornalismo, ao qual também fui ter por acaso.

O Pinguim e a Matemática

Ao chegar ao liceu, no sétimo ano, devia ter 13 ou 14 anos, voltei a ter esperança no meu amor renegado pela Ciência quando passei a ser nesse ano letivo o melhor aluno a Matemática. O professor de Matemática – acho que se chamava qualquer coisa Cândido de Oliveira –, era um pequeno tirano, muito empertigado, seco e ríspido, ou dava ares de ser para nos intimidar. E funcionava. Todos tínhamos medo dele. Dava as aulas invariavelmente de fato e gravata, azuis como o seu Rover 213, o da bagageira alta, um modelo novo na época. Nós, os putos, para conjurar o medo, alcunhamo-lo de “Pinguim”.

Ele devia ter uns 30 anos, mas para nós parecia bem mais velho, e não conseguia, ou não queria, mostrar empatia para com os alunos. Destilava a matéria a uma velocidade supersónica, as equações inundavam o quadro negro de uma ponta a outra, e antes que pudéssemos recopiar os hieróglifos, ele apagava tudo e já estava a explicar o que nem tinha começado a escrever no quadro ainda molhado.

Aborrecia-se depressa com os alunos que não entendiam à primeira e interrogava-nos, chamando-nos de “mosca morta”, “lesma”, “burro” e outros enxovalhos que tais. Tínhamos 13 anos! Ele tinha a sapiência, mas a pedagogia tinha ficado pelo caminho, se alguma vez a teve. Afinal, vestia bem a alcunha, o Pinguim!

A mim, o homem tratava-me bem, talvez por ser o melhor aluno. Não sei o que me aconteceu nesse ano, estávamos a ser iniciados a uma nova matéria e a mim tudo me parecia de repente óbvio e fácil, sentia-me iluminado e não entendia as dificuldades que os outros sentiam. Foi sol de pouca dura.

No oitavo ano a Matemática voltou a vestir o seu manto insondável. A sorte nesse ano foi que tive uma paixoneta pela minha professora de Química, uma jovem talvez dez anos mais velha, alta, magrita, frágil, de óculos gigantes, um bocado desajeitada, mas gira, de voz doce e de cabelos à Whitney Houston, uma permanente como se ousava na altura e que me deixava a bater mal nos meus primeiros anos onânicos. Mostrei-me aplicado e interessado, o que me valeu boas notas na disciplina e mais uma vez pensei na Ciência como um futuro possível.

Mas no nono ano tropecei na realidade e o golpe de misericórdia foi-me desferido com a iniciação à Trigonometria. O professor era um antigo Comando, as lições pareciam operações militares, as noções eram ensinadas como se fossem ordens, os paus de giz a voar eram pelotões de fuzilamento, os testes eram teatros de guerra. Comparado com o ‘Comando’, o ‘Pinguim’ tinha sido a Madre Teresa de Calcutá. Nesse ano, senti-me completamente perdido para a Matemática e, por conseguinte, para a Ciência.

O que me decidiu também a não seguir um curso científico não foi apenas a barreira da Matemática. Foi igualmente o estado da Ciência em Portugal no fim dos anos 1980, próximo do grau zero. Desde as aulas de Quimica, Fisica e Biologia ministradas sem paixão, em salas não adaptadas de escolas secundárias vetustas, por professores sem vocação, que preferiam estar num laboratório, entre estiletes, tubos de ensaio e amostras, do que a aturar jovens fedelhos, até ao desinteresse completo do Estado em investir neste sector.

Aconselho a este propósito um livro bastante interessante sobre este assunto, “Diálogos sobre Portugal” (1998), escrito a duas mãos por Mariana Pereira e pelo professor de Física e Biofísica Manuel Paiva (então na Faculdade de Medicina da ULB-Universidade Livre de Bruxelas, e que trabalhou com a NASA e a ESA).

Fascínio pela Ciência

Mais tarde, no primeiro ano da faculdade de História, a cadeira de Estatística voltou a provar-me que a Matemática não era minha amiga. Mas conservei o fascínio pelos números, as equações, a geometria, a teoria das probabilidades. Para mim, que tanto me orgulho de aprender fácil e rapidamente novas línguas, essa linguagem teimava em resistir-me, mostrava-se críptica, permanecia opaca, indecifrável. Afastei-me definitivamente da Matemática.

Mas da Ciência não. Interessei-me pela Astronomia (o céu noturno do Verão alentejano e algarvio é irresistível), pela Biologia Marinha (um dos primeiros cursos da então recém-inaugurada Universidade do Algarve), pela Física (a atração dos corpos!), pela Eletrotecnia (despiste total), pela Vexologia (pus na cabeça decorar todas as bandeiras do mundo), pela Cartografia (ainda hoje colecciono mapas antigos), pela História, que explorei na Universidade, e até pela Geografia, outra história de amor transviada.

Na Geografia sempre fui “aluno muito aplicado, mas de aproveitamento fraco”, segundo anotação na minha caderneta do oitavo ano pelo professor António Cerdeira, antigo jogador do SL Benfica reciclado numa segunda em oprofessor de Geografia em Faro. Para não me desanimar confiou-me que tinha sido professor 30 anos antes de um aluno “aplicado, mas de aproveitamento fraco” e que, apesar disso, tinha chegado a primeiro-ministro (estávamos em 1987!), o aluno Aníbal António Cavaco Silva, naquela mesma Escola Tomás Cabreira, mas que na altura se chamava Serpa Pinto ou Escola Comercial e Industrial, já não sei bem.

Há dois anos, cruzei-me de novo com ela, a Matemática. Tudo aconteceu quando decidi aprofundar os meus conhecimentos em Astronomia, Física Quântica e Astrofísica, nas pesquisas que tenho de fazer para um romance de ficção científica que estou a escrever.

Fiquei de novo tão fascinado pelas equações dessas disciplinas e pelas ciências em geral, que fui logo a correr comprar, como um alarve, o livro “Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid” (1979) de Douglas Hofstadter. Caí de bem alto. Massudo, compacto, denso, abordando noções e definições complexas, num discurso sábio, mas ininterrupto e nada conciso, o livro revelou-se-me impenetrável, ilegível, codificado, para alguém como eu com tão grandes lacunas a Matemática.

Voltemos a Edward O. Wilson. O primeiro livro que li dele foi “The Meaning of Human Existence” (2014). Comprei um exemplar para ter acesso à integralidade do capítulo intitulado “A Portrait of E.T.”. Eu procurava tudo o que pudesse sobre exobiologia, conjeturas sobre as possibilidades de vida no Sistema Solar e nos cerca de dois mil exoplanetas descobertos até hoje, as últimas notícias sobre os insectos extremófilos que existem no fundo dos oceanos, etc. No seu livro, Wilson conjetura sobre as possíveis formas da vida alienígena, desde as mais simples e microbiológicas até a eventuais formas mais complexas ou mesmo inteligentes, responde a algumas das minhas dúvidas e fez até nascer outras, nas quais eu até nem tinha pensado. Ótimo material para o livro.

Na segunda obra de Wilson que li, “Cartas a um Jovem Cientista” (2013, para a edição original em inglês), o autor conta como despertou para a biologia, para a entomologia, e fala do seu amor pelas formigas. De repente, pareceu-me estar a mergulhar, de novo, com o mesmo fascínio dos meus tempos de juventude, no universo da trilogia “Les fourmis” (1991-96), de Bernard Werber.

Porque razão é que os livros de Wilson me levaram a pensar e a escrever aqui sobre as minhas relações complicadas com a Ciência? Porque Edward O. Wilson é o Carl Sagan da Biologia. Fala com tal amor da sua disciplina, explica com palavras simples os fenómenos mais complexos, que nos seduz, embarca-nos na sua paixão, no seu mundo.

E a mim, porque me fascina tanto a Ciência? Porque é o caminho infinito para a compreensão do mundo e do universo. Mas esta minha relação com a Ciência tem sido assim, um bem me quer, mal me quer, um amor renegado a que sempre regresso. Mas no final de cada nova incursão, sou sempre obrigado a admitir que no meu percurso académico, profissional e de vida não adquiri as ferramentas necessárias para poder dominar muitas das disciplinas que me fascinam. E o meu amor pela Ciência fica-se assim, na sua forma platónica, muito perto da estéril.

JLC11092015

 

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