Júlio da Silva: “Chegar onde cheguei foi como ganhar a Liga dos Campeões”
Há uma década, o restaurante Büner, em Berna, reabriu portas sob nova direção. Muitos tinham tentado manter o espaço vivo – poucos o conseguiram por mais de dois ou três anos. Mas com Júlio da Silva, tudo mudou. Aos comandos deste projeto, o empresário português celebra agora uma década de sucesso sustentado, muito trabalho e uma enorme paixão pela gastronomia e pelas pessoas.
Natural de Amarante, Júlio partiu ainda jovem de Portugal, passou por dificuldades em Londres e construiu, na Suíça, uma história de vida que daria um filme. Em entrevista ao BOM DIA o empresário de 54 anos fala-nos do compromisso diário com a qualidade, do orgulho nos vinhos portugueses que serve, das pontes que construiu no mundo do futebol e da vontade, sempre viva, de investir na terra onde nasceu.
Os 10 anos de Büner
“Criei primeiro um conceito e só depois trouxe a equipa”, explica o empresário, que todos os dias continua a ser “o primeiro a chegar, pelas 8h30, e o último a sair, à meia-noite”. A estabilidade conquistada ao longo dos anos é motivo de orgulho: “Trabalho com muita gratidão pelas pessoas que me visitam. Sou uma pessoa muito privilegiada: em Berna toda a gente me conhece e toda a gente gosta de mim.” Para assinalar os 10 anos do Büner, Júlio decidiu retribuir o carinho dos clientes com uma celebração pensada especialmente para eles. A festa decorre a 13 de junho, a partir das 18h30 (hora local) e conta com música ao vivo com Guillaume Hoarau.

Ao longo do tempo, há princípios que nunca mudaram na gestão do Büner. “Temos a pressão de sermos considerados muito bons – e temos de o ser todos os dias”, sublinha Júlio da Silva, destacando o compromisso inabalável com a qualidade. A identidade do restaurante, o respeito pelos clientes e a valorização das origens são pilares fundamentais. “Importa quem somos e o que estamos aqui a fazer.” Para ele, o caminho faz-se com uma cozinha tranquila, honesta e em constante evolução. “Costumo dizer: os outros são muito bons, mas nós queremos ser melhores.” Essa ambição diária traduz-se numa equipa dedicada, num serviço atento aos detalhes e numa exigência constante. “Peço aos meus colaboradores que deem sempre algo mais e temos conseguido fazer a diferença.”

Júlio faz questão de manter uma forte ligação a Portugal também através da sua equipa. “Sempre tentei trabalhar com portugueses”, sublinha. No Büner, conta com um colega madeirense que trabalha consigo há mais de 20 anos, uma gerente portuguesa de Amarante, um cozinheiro português e, em breve, terá mais um elemento vindo de Portugal. Esta escolha não é apenas uma coincidência, mas um reflexo do seu orgulho nas origens e da confiança que deposita nos compatriotas.
Apesar da estabilidade que marcou a última década do restaurante, houve momentos desafiantes – a pandemia foi um deles. Curiosamente, a primeira fase do confinamento acabou por ter um impacto positivo para Júlio da Silva. “Estava desgastado e precisava mesmo de parar. Esse descanso fez-me bem psicologicamente”, admite. Já a segunda fase foi bem mais difícil, tanto a nível pessoal como profissional. “As regras apertadas obrigaram-me a fazer muito bem as contas, e ainda tive de enfrentar o falecimento da minha mãe. Não foi fácil.” Ainda assim, com resiliência e espírito de luta, conseguiu recuperar energias: “Depois de reabrir, ganhei novo fôlego para continuar.”

Os vinhos portugueses
A carta de vinhos do Büner é um reflexo das raízes de Júlio da Silva e do orgulho com que representa Portugal. “Toda a gente conhece o Júlio de Amarante, eu sou português com muito orgulho”, afirma. Apesar de a cozinha do restaurante não seguir uma linha portuguesa, os vinhos ocupam um lugar de destaque. “Quando abri o meu restaurante, fiz questão de ter um bocadinho de Portugal aqui.” Júlio começou a viajar com frequência a Portugal (entre seis a oito vezes por ano) para fazer provas e conhecer pessoalmente os produtores. Hoje, 80% da carta de vinhos é portuguesa. “Os vinhos portugueses têm muita qualidade e têm tido um feedback muito positivo”, destaca, acrescentando que há uma relação direta e personalizada com os vinhos que escolhe. “90% dos meus clientes não pedem a carta, pedem-me para recomendar e naturalmente aconselho vinho português.”

Percurso pessoal
A história de vida de Júlio da Silva é marcada por resiliência e consciência das suas origens. “Acho que nunca vou esquecer a importância de sermos humildes e querermos lutar pelo melhor e pelo nosso bem-estar”, partilha. Tendo saído de Portugal ainda jovem, passou por momentos difíceis em Londres e essas experiências moldaram a sua forma de estar. “Quando saí de Portugal passei por bastantes dificuldades. Quando vejo pessoas a passarem por isso, tento ajudar porque sei o que é.” Para Júlio, essas dificuldades trouxeram também uma lição duradoura: “O que aprendi com essa experiência é que, se nós formos humildes, responsáveis e tivermos vontade, conseguimos tudo.”
A ligação de Júlio à comunidade portuguesa foi sempre forte, especialmente nos primeiros tempos da sua emigração. “Em Londres sentia a comunidade muito próxima. Chamavam-me o Presidente e cheguei a arranjar trabalho para várias pessoas da minha aldeia, que viviam todas comigo”, recorda com um sorriso.
Na Suíça, esse espírito de entreajuda manteve-se. Foi presidente da Associação Portuguesa de Berna durante vários anos, onde contribuiu ativamente na organização de festas portuguesas e no apoio à comunidade, especialmente na parte financeira e burocrática. “Sempre fui desenrascado, aprendi as línguas depressa, percebo de seguros, de arrendar casa… e acabei por ajudar muitas pessoas.”
Com o passar dos anos e à medida que foi investindo na sua formação em gestão e assumindo cargos de direção, começou a afastar-se naturalmente da comunidade local. “Os portugueses da Suíça já não me acompanharam tanto nesse percurso. Hoje em dia, tenho pouco contacto com a comunidade portuguesa aqui. Tenho mais ligação com os portugueses de Portugal — vou lá muitas vezes e muitos também me visitam aqui.” Reconhece ainda que o seu restaurante não é um local muito frequentado por portugueses na Suíça. “Consideram o Büner um restaurante de nível alto e acho que, infelizmente, muitos não se sentem à vontade para o frequentar.”
Atualmente o empresário português é também conselheiro e parceiro gastronómico de António Oliveiro, de Zurique, que agora gere o restaurante Golf & Country Club Blumisberg.
O fascínio pelo futebol
Apesar de ser um apaixonado pelo desporto, o que realmente fascina Júlio no mundo do futebol é o lado humano e relacional. “Gosto de futebol, claro, mas o que me atrai mais é o envolvimento das pessoas nesta área, os profissionais que conheci ao longo dos anos”, explica.
Foi durante o tempo em que trabalhou num hotel onde se hospedavam equipas de futebol que Júlio começou a criar uma rede de contactos. Hoje em dia, assume o papel de facilitador: faz a ponte entre pessoas e negócios ligados ao mundo do futebol. “No fim de semana da Páscoa, por exemplo, estive com a minha filha no Mónaco a visitar o treinador da equipa local. Conhecemo-nos há anos e fomos convidados a ir a casa dele.”

Essa rede estende-se também ao seu restaurante. “Tenho um protocolo com a Federação Suíça de Futebol e fazem aqui os eventos e jantares. Também colaboro com a UEFA e, também tenho alguns contactod na Federação Portuguesa de Futebol.”. Júlio já esteve envolvido, discretamente, em alguns processos de contratação de jogadores, sempre nos bastidores: “Ajudo a ligar pessoas. Gosto de ser um facilitador.”
O futuro
Apesar do amor profundo por Amarante e de já ter investido na terra natal (onde tem uma casa, um restaurante e até um piano-bar), Júlio confessa que ainda não está pronto para dar esse passo definitivo de regresso. “Sempre estive ligado à política, cheguei a integrar a comissão de honra do PSD (atual AD) e fui candidato. Gosto muito de Amarante. Mas, no final de tudo isso, fiquei dividido e, para já, recuei na decisão.”
A estabilidade e o reconhecimento que construiu em Berna, ao longo de décadas, pesam na balança. “Sou muito acarinhado aqui, e o meu restaurante funciona com a minha presença.”, refere. A família também pesa na equação. “Tenho aqui casa e uma filha de 23 anos, que estudou cá. Ela cresceu na Suíça e não se identifica muito com Portugal.” Ainda assim, mantém viva a ligação a Portugal. “Tenho, por exemplo, um restaurante em Amarante, gerido por uma pessoa da minha confiança. Mas sempre que vou lá penso: ‘se eu estivesse aqui, seria diferente’. É complicado. Gosto de fazer tudo pessoalmente.”

Questionado sobre a política local e o futuro, Júlio é pragmático: “Amarante está bem servida, tanto na política como no futebol. São meu amigos pessoais. Quando vejo que estão a fazer um bom trabalho, não tenho qualquer vontade de me colocar à frente.”
Sonhos
Quando se fala em sonhos por concretizar, Júlio não hesita. “Já fui muito ambicioso e sempre quis chegar onde estou hoje. Comecei a lavar o chão de um restaurante, depois lavei pratos, preparei saladas, passei para a cozinha. Fiz formação em cozinha, mais tarde em gestão. Fui diretor de grandes espaços em Berna, com equipas de 90 a 100 pessoas. Hoje, tenho o meu próprio restaurante e faço a sua gestão à minha maneira e da forma que acredito ser a certa.”
Com um sorriso sereno, admite que pedir mais seria quase demais. “O meu grande sonho foi este. Ter passado de dormir na rua a ser dono de um restaurante como o Büner… chegar onde cheguei foi como ganhar a Liga dos Campeões do futebol.”

A ambição agora é mais simples, mas não menos valiosa: “Quero que a minha filha tenha orgulho em mim. Tenho 54 anos, quero ter saúde, trabalhar enquanto puder e, quando decidir parar, ter a liberdade de o fazer. Não preciso de muito para ser feliz.”
Texto: Fabiana Bravo