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Judaísmo, identidades e pré-conceitos

Com ou sem religiões, parece que cada vez temos menos laços, menos ligações significativas aos outros que nos façam, perante uma luta inevitável, afirmar que a paz vale mais

1 – A UTOPIA E O HUMANO:

De forma inesperada, num destes dias de Julho dei por mim na livraria Ler Devagar a folhear um livro para mim completamente desconhecido. O autor, nascido na Ucrânia, vivera na Rússia, faleceu na Polónia e o seu período de vida decorrera entre 1878 e 1927. Num estilo naturalista, Mikhail quebra e subverte as normas e as condutas sociais. É o que faz no seu O Judeu, de 1917 (Mikhail Petrovich Artzybashev, O judeu, Estrofes & Versos, 2010).

Trata-se de uma pequena obra, de pouco mais de vinte pequenas páginas, com o centro numa situação que deveria estar muito nas mentes desse tempo: a guerra, a devastadora belicosidade entre os Estados europeus, que lançava milhões de anónimos soldados para situações de esgotamento físico, psicológico e moral, levando-os para níveis de sub-humanidade para nós hoje totalmente desconhecidos, onde as trincheiras eram verdadeiras valas comuns, e onde o gás mostarda fazia a decomposição da carne sem ter em conta qualquer limite acordado entre nações para uma suposta ética de guerra.

Este conto trata de um grupo de militares que, após dias de dolorosos combates em quadro de total abandono no terreno, se perde. Procurando um rumo, uma direcção para caminhar, deparam-se com semelhante grupo inimigo. Frente a frente, a morte de quase todos eles era o inevitável. A escassos metros de distância, nada os poderia salvar.

O inesperado surge, dando-nos uma visão romântica, claro, mas surpreendente do que as identidades pode conseguir. Estamos na Europa Oriental, depois de um século onde o antissemitismo tinha sido gerado em grandes preconceitos. Estamos, também, num quadro onde os judeus são vistos acima, ou além das nações. Esse bem comum, como que os leva para um denominador que os une: a humanidade, aliás, palavra várias vezes usada neste texto.

Deixo aqui o final desse conto, tendo alterado apenas uma ou outra gralha. De resto, tudo foi deixado como se encontra na edição indicada. Leiam, merece a pena, sob o ponto de vista de um sentido de Humanidade:

“Exactamente no instante em que a tensão atingiu o seu ponto mais alto e o pesadelo se preparava para dar lugar a um sentimento implacável, Hershel Mak, incapaz de controlar os seus nervos esfrangalhados durante mais tempo, começou a rezar na língua dos seus antepassados. Shma Isroel! Shma Isroel! Os seus camaradas não o entenderam e olharam-no aterrorizados, como quem olha para um louco, mas do outro lado uma voz assustada e dolente respondeu-lhe em hebraico:

– Um judeu!… Um judeu!

O coração de Hershel Mak caiu-lhe aos pés. A alegria louca que se apoderou dele é indescritível. Foi uma alegria humana sincera que o encheu até à borda, quando do lugar de onde esperava que viesse apenas a morte e ódio lhe chegaram palavras humanas e familiares. Esquecido do perigo de morte, caiu de joelhos, ergueu os braços e gritou, como se estivesse a responder a uma voz em pleno deserto.

– Eu!… Eu!…

Ouviu-se um tiro; mas apenas o boné de Mak tombou e caiu na poça de lama. Do outro lado do rio, uma cabeça típica, com as orelhas a aparecer por debaixo do capacete luzidio, fitou-o nos olhos.

– Não atires, não atires! – gritou Hershel Mak em russo, alemão e hebraico tudo ao mesmo tempo, agitando freneticamente as mãos. E o outro judeu, envolto numa longa capa cinzenta, também gritava qualquer coisa aos seus colegas soldados. Agora, em vez de apenas um, eram cerca de dez os pares de olhos que estavam fixos em Hershel Mak, espantados e subitamente alegres. Uma esperança vaga e indefinida reflectia-se nesses olhares humanos assustados, que de repente se tornaram vulgares. Em seguida, Hershel Mak e o judeu de capa cinzento-clara avançaram pela clareira e, patinhando na água, correram, confiantes, um para o outro.

Pararam entre as duas fileiras de canos de espingardas ainda hostis e abraçaram-se, num acesso exagerado de felicidade.

– És judeu? – perguntou o soldado cinzento. Continuavam a olhar um para o outro, como dois velhos amigos que se encontram onde menos esperavam que isso acontecesse.

Ao entardecer, depois de os soldados recolherem os respectivos mortos e feridos, cada um seguiu o seu caminho ao longo da ravina, agora azulada com a neblina do fim do dia. Os da rectaguarda estavam sempre a virar-se para o inimigo, que os observava desconfiado, e a agarrar nervosamente com as mãos os canos das suas armas.

Só Hershel Mak e o judeu de capa cinzento-clara caminhavam calmamente. Hersehel tagarelava como um macaco, metendo conversa com um soldado, depois com outro. Falava sobre a alegria que o invadira, sobre a grande missão do judaísmo. Mas ninguém o escutava e um dos soldados até disse, bem-disposto:

– Vai para o diabo, porco judeu.”

A Utopia sobrepunha-se ao orgulho e dever nacionalista. As armas calavam-se ao reconhecer, do outro lado da trincheira, um semelhante. Afinal, o ser judeu tornava óbvio o essencial: a humanidade. Num quadro único, com um pelotão de jovens desesperados perdidos no terreno inimigo, Mikhail mostra-nos como os laços se sobrepõem ao mais brutal.

Será todo o religioso potência para a paz? Hoje, nos dias conturbados deste arranque do século XXI, parece utópico. Mas, com ou sem religiões, parece que cada vez temos menos laços, menos ligações significativas aos outros que nos façam, perante uma luta inevitável, afirmar que a paz vale mais.

O judaísmo é aqui apenas um instrumento, um campo usado para ir ao essencial, confrontando o nosso olhar com vida que soçobra uma morte que era súbita ou até certa. Num cenário de guerra plena, a vida afirma-se no olhar de um desconhecido.

Contudo, este texto, que é belo, pleno de humano no que ele tem de fraterno, de igual, é, ao mesmo tempo, arma que foi usada contra os judeus. Incapazes de servir servilmente os nacionalismos, parte do antissemitismo alimentou-se de textos destes que, elevando o ódio, mataram esta capacidade inata de encontrar e reconhecer o igual.

2 – OS RISCOS DO PASSADO NACIONALISTA

Talvez uma das mais concretas acusações que os antissemitismos do século XIX e XX fizeram aos judeus foi exactamente o que é lustrado por este trecho lindo de Mikhail Artzybashev: não respeita os desígnios nacionais, colocando a sua identidade religiosa acima. Por outras palavras, não lutam e não defendem os seus países, porque não seriam “seus” esses países. No limite, o que vemos neste trecho como um pleno de humanidade é, num ambiente nacionalista radical, uma verdadeira deserção aos seus deveres militares por não ter atacado o inimigo. O dever pátrio foi submetido à “fraternidade” entre judeus, diriam os detractores, não se inspirando, nem reconhecendo a elevação do gesto descrito por Mikhail.

Foi esta leitura que valorizava a morte a todo o custo como fonte de afirmação do nacionalismo, e onde o judaísmo estava catalogado como obedecendo a forças superiores, de destruição das nações, que desenvolveu um sentido antissemita que culminou na II Guerra Mundial. Perante a possibilidade da utopia, venceram os nacionalismos belicistas e racistas.

Em Portugal, o escol de antissemitas não foi muito grande, mas teve os seus expoentes. Mariotte, pseudónimo do P.e Amadeu de Vasconcelos, via nos judeus um perigo contra a integridade da nação, afirmando: “devemos vigiá-los com cautela porque no primeiro conflito entre o interesse nacional português e o interesse cosmopolita do judaísmo, esses fingidos portugueses pôr-se-ão ao lado dos seus irmãos de raça contra nós”.

Durante a longa influência ideológica de António Sardinha, vários outros autores e obras florescem nas hostes monárquicas conservadoras. Francisco Pereira de Sequeira prefaciaria, em 1923, a edição portuguesa dos célebres Protocolos dos Sábios de Sião, uma muito conhecida falsificação antissemita originária da polícia política russa e publicada em 1903. Apesar de desde cedo ter sido apontada como uma fraude, esta obra foi, durante dezenas de anos, a bíblia ideológica do antissemitismo, a prova da conspiração judaico-maçónica para dominar o mundo. Mário Saa, em 1925, na sua obra A Invasão dos Judeus, afirmava: “Uma coisa espantosa está acontecendo em toda a Europa que ameaça abraçar o mundo inteiro: essa coisa espantosa é a invasão dos judeus! […] Eis a invasão que não faz rinchar cavalos, nem rodar artilharias nas montanhas, mas que chega, entretanto, silenciosa, furtiva e gigantesca, a abalar as instituições seculares”.

Contudo, o mais contundente antissemita, desenvolvido numa clara visão católica, é Paulo de Tarso, o novo evangelizador, como se designava, o Apóstolo dos Gentios, pseudónimo de António Peralta. No seu livro Crimes da Franco-Maçonaria Judaica, de 1928, declarava: “Parece que a nossa sociedade burguesa e aristocrática está apavorada diante do papão de barbas postiças de lã de borrego, que é a corte maçónico-judaica”. Profundamente ligado a um catolicismo fora de época, para Paulo de Tarso a “questão judaica” resolvia-se de uma forma simples através do Código Penal: “é fácil expulsar os judeus como os expulsou D. Manuel I; […] não lhes apertar as mãos, escorraçá-los dos nossos clubes, dos nossos cafés, do nosso convívio. Devem os governos pô-los na fronteira, pô-los à margem como indesejáveis”. Mais, “É necessário fazer guerra sem tréguas aos judeus […] fechem-lhes as lojas maçónicas e fechem-lhes as suas Sinagogas […] a nossa tolerância, a nossa caridade é que tem feito mal”.

Apesar de serem pouco significativos, estes casos de propaganda antissemita minaram muito da sociedade portuguesa e ajudaram a prolongar no século XX o estigma vindo da época da Inquisição. Se durante a I República se dá um ressurgimento judaico significativo, percebendo-se as comunidades criptojudaicas do interior do país, o Estado Novo vai remetê-las para um novo medo social, um campo do vexame, da vergonha. Aquele que nas décadas de trinta, e seguintes, mais continuará o trabalho de Samuel Schwarz, o Capitão Barros Basto, herói condecorado com a Cruz de Guerra, não só já não terá os resultados antes conseguidos, como verá a sua carreira militar totalmente posta em causa, sendo o seu processo conhecido como o Caso Dreyfus Português.

De facto, no ano de 1937, Barros Basto foi julgado pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército, tendo sido votado o seu afastamento do Exército, com acusações de homossexualidade que mais não eram que simples e vil acusação de judaísmo (participação nas circuncisões e demonstração de afecto para com homens). Falecido em 1961, apenas em 2012 a Assembleia da República votaria uma recomendação (Resolução da Assembleia da República n.º 119/2012, de 10-08) ao Exército para a sua reabilitação.

* *

Hoje, muito tempo corrido sobre esta visão, urge desenterrar uma História por contar: os judeus que nos mais diversos serviços foram de uma utilidade extrema para o cumprir dos desígnios que em cada época foram considerados o centro da acção de Portugal.

O Brasil está a fazer esse trabalho através da Federação das Academias de História Militar Terrestre do Brasil, especialmente pelo trabalho de Israel Blajberg, que no passado dia 26 de Julho, com o Eng. Rui Vargas, organizou uma muito interessante sessão sobre o seu livro Estrela de David no Cruzeiro do Sul: memoria da presença judaica nas Forças Armadas do Brasil – de Cabral ao Haiti, na Universidade Lusófona.

Das conquistas de Afonso Henriques, terminando na Guerra Colonial, passando pelos chamados Descobrimentos, há que dar corpo a uma memória desconhecida para que não se voltem a desenterrar os rumores de tempos nacionalistas básicos e de pendor religioso.

A memória colectiva faz-se da multiplicidade de acções e de reacções. Somos utopia e somos pragmatismo, ideologia e erro. Fomos pacifismo e fomos guerra – mesmo que gostemos mais de uma que de outra. Mas de tudo é construída uma estrutura de memória, especialmente dos silêncios que, ao existirem de forma consciente, se transformam em manipulação e em material útil aos radicalismos.

E, é muito fácil criar novos Dreyfus e Capitães Barros Basto.