Inquérito da ASPPA revela desafios e prioridades da comunidade portuguesa na Alemanha
No passado dia 15 de novembro, Düsseldorf acolheu o PORTAL 2025, organizado pela ASPPA – Associação de Pós-Graduados Portugueses na Alemanha, um encontro dedicado a refletir sobre a preservação da memória da diáspora portuguesa e outros temas centrais para a comunidade luso-alemã. Alfredo Stoffel foi convidado a refletir sobre os resultados de um inquérito conduzido pela ASPPA.
Segundo Alfredo Stoffel, durante a apresentação, a interação entre a apresentadora, Joana Pereirinha (estudante de doutoramento), e a plateia revelou-se profícua, especialmente na discussão das conclusões do referido inquérito, que abordaram áreas como serviços consulares, aprendizagem e integração linguística, associações e comunidade portuguesa, ensino do português, cultura e redes profissionais.

Alfredo Stoffel (que, juntamente com Manuel Campos, conduz o podcast BOM DIA Alemanha que pode ver aqui) revelou ao nosso jornal os pontos das conclusões que considera “mais importantes (sem menosprezar os outros pontos mencionados no inquérito)”.
Segundo Alfredo Stoffel, a comunidade portuguesa na Alemanha “mais jovem e mais bem formada debate-se com os mesmos problemas, talvez num outro patamar que as gerações que precederam os jovens do GRI-DPA ou da ASPPA”. O historial migratório entre 1964 e os dias de hoje “não é linear e quase podemos limitar a três fases”: o primeiro fluxo entre 1964 e 1984, o segundo após a entrada de Portugal na CEE/UE, e o terceiro a partir de 2011. As primeiras gerações de trabalhadores portugueses, integrados no programa Gastarbeiter (“trabalhadores convidados”), “fixaram-se na Alemanha e criaram a primeira geração de lusodescendentes, integrados num contexto social entre dois mundos: a Alemanha onde se vive e Portugal onde se passam as férias.”. “Os Gastarbeiter tornaram-se trabalhadores de longo prazo. Considerando que as dificuldades linguísticas e culturais eram abismais, fomentou-se o associativismo à volta das missões católicas e dos clubes ou coletividades regionais”, acrescenta.

Hoje, segundo dados estatísticos, vivem entre 138 e 140 mil portugueses na Alemanha, com cerca de 14% com mais de 65 anos e 10% com menos de 20 anos. O perfil socioeconómico é significativamente diferente: filhos e netos dos primeiros emigrantes “formam um classe bem formada, integrada e têm o bilinguismo como algo evidente. (…) Sentem-se na sua maioria como alemães com uma forte ligação ao país dos antepassados”. O fluxo migratório pós-troika trouxe ainda emigrantes altamente qualificados, reforçando redes académicas e profissionais, materializadas, entre outros, na criação da ASPPA.
Na opinião de Alfredo Stoffel “o associativismo clássico está em declínio; há algumas associações muito empenhadas, mas geralmente geridas por pessoas mais velhas e que têm problemas em passar o bastão às gerações mais jovens”. Contudo, os ranchos folclóricos e etnográficos registam um interesse crescente entre os jovens, com algumas coletividades a envolverem três gerações de participantes. Atualmente, as associações coexistem com novas organizações dedicadas à ciência, à cultura e à reflexão, complementando-se mutuamente.
Stoffel sugere que ASPPA e GRI-DPA (“compostas por jovens e menos jovens, com ideias fortes e com experiências comprovadas nos ramos que as definem”), cada uma com os seus focos (académico e científico, comunitário e cultural), possam avançar com um plano estratégico conjunto, reforçando a atuação da comunidade sem perder a identidade própria de cada grupo. “A ASPPA com a sua rede académica e científica; o GRI-DPA com a sua intervenção comunitária, e política/cultural. Ambos os grupos têm a ganhar e nenhum perde a essência da sua existência”, refere.
O encontro terminou com a indicação de um tema de particular interesse para o futuro: a estrutura consular na Alemanha, apontada como deficitária em algumas regiões, nomeadamente em Munique, e que poderá vir a ser alvo de projetos de longo prazo em benefício da comunidade.

Acrescente-se que Alfredo Stoffel é membro de duas associações empenhadas na preservação da memória da comunidade portuguesa na Alemanha, em particular da comunidade de Cuxhaven. O GRI-DPA e.V., associação da qual Alfredo Stoffel faz parte, por exemplo, publicou em 2024 um livro sobre os 60 anos da comunidade portuguesa no país, baseado na exposição itinerante “60 anos da Comunidade Portuguesa na Alemanha”, curada por dois jovens luso-descendentes, também membros do GRI-DPA e da ASPPA.

A nova direcção da ASPPA é composta por Flávio Ramos, João Pedro Santor, Nuno Valério, Joana Pereirinha, Mariana Coelho, Vitor Vieira, Mariana Duarte e Paulo Nunes.