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Ignácio

Ignácio perdeu o pai no ano passado, em maio,
num inexplicável acidente de trabalho.
A morte jamais dá explicações.
Não foi ao funeral porque entretanto
as suas pernas ficaram pesadas de mágoa
e as suas lágrimas tiveram o assombroso
impulso de sulfatarem-lhe o sangue.
Hoje foi o dia mais triste de toda a minha vida,
confessou Ignácio ao melhor amigo.
Durante algumas semanas, soterrado,
esteve sob a severa jurisdição do desalento:
foi-lhe interdito dormir por inúmeras vezes,
manhãs teve que o coagiram a ficar na cama.
Trocou a net pelos olhos fincados no tecto,
as disciplinas da escola por um curso intensivo de silêncio,
a equipa de futebol pelo pugilismo caseiro:
socos na secretária, no luto, nos livros, nos dias, no vazio,
socos na amargura, na cama, nas paredes.
Estragosos os socos, mãos a sangrar,
quando dava com a mãe em choramingos velados.
Numa mnemónica febril, delirante, sinistra,
punha-se por vezes a soletrar para o desalento o nome do pai.
Começou a beber às escondidas da mãe,
a beber tristuras com alto teor de fundura, poção
que o deixava cambaleante de inclinações tumulares,
num estado de embriaguez macabra.
Perdeu o telemóvel, a chave de casa, deixou morrer o hamster.
Raro o jantar em que não
dizia à mãe que a vida é injusta, a morte absurda,
Deus um crápula, que ela não merecia aquilo.
Este foi o mês mais triste de toda a minha vida,
confessou Ignácio ao melhor amigo.
Cismou em pintar o seu quarto com uma escuridão muito escura, pessimista.
Bastaram duas noites em claro.
Ignácio emagreceu consideravelmente.
As notas baixaram. Chumbou o ano. Adoeceu.

Um único ordenado não chegava para pagar
um apartamento com dois quartos.
Ignácio e a mãe mudaram de casa,
de rua, de precipícios.
O martírio seguiu-lhes o encalço.
O destino anda sempre descalço.

– Mãe, hoje fiz uma tatuagem,
fiz uma tatuagem no peito da minha dor.
Vê, vê como ainda sangra.
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dm