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Hungria e o regresso à Europa

A democracia que estava profundamente debilitada na Hungria, conseguiu superar-se. O povo exprimiu-se livremente em eleições muito participadas e desalojou Viktor Orban, que ao longo de 16 anos foi enfraquecendo as instituições democráticas, para se poder perpetuar no poder. Mudou as leis eleitorais para ter vantagem, amordaçou a imprensa, domesticou o parlamento, esmagou a sociedade civil e instrumentalizou a justiça. E mesmo assim perdeu com Peter Magyar, um dissidente do Fidez de Orban, que conseguiu uma vitória carregada de simbolismo e significado para a Europa e para o mundo.

Ao longo dos 16 anos de poder de Orban, a Hungria foi-se fechando e mergulhando na corrupção, deixando o país na cauda da Europa e com muita pobreza. Com a supermaioria que conseguiu, Magyar poderá rever a Constituição e recuperar o Estado de Direito.

Mais uma vez é a moderação e o regresso aos valores fundacionais da Europa que podem manter a esperança numa paz duradoura e sociedades mais harmoniosas e humanistas, particularmente importante num contexto em que a grande maioria dos partidos extremistas são apoiantes dos países direta ou indiretamente implicados na guerra na Europa Oriental e no Médio Oriente, particularmente a Rússia, Israel e os Estados Unidos.

Peter Magyar celebrou a sua vitória como um regresso à Europa, portanto, afastando-se da cumplicidade com a Rússia, que tudo tem feito para destruir a União Europeia, o projeto político mais progressista e generoso alguma vez criado na história da humanidade. Era visível, por isso, a satisfação de António Costa e de Ursula Van der Leyen, presidentes do Conselho e da Comissão Europeia. A vitória de Magyar vem resolver muitos bloqueios, desde logo o do financiamento da Ucrânia para enfrentar a Rússia e reconstruir-se internamente, que já foi aprovado.

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Através da Hungria, a União Europeia estava a ser minada por movimentos de extrema-direita, conservadores e antieuropeus. O absurdo da internacional ultraconservadora e antieuropeia ficou bem patente com a interferência inaceitável do vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, na campanha húngara e no apoio entusiástico de Trump a Orban.

É por isso que também entre os derrotados estão os Estados Unidos e a sua cruzada contra a Europa, e a Rússia, que tudo tem feito para destruir a União Europeia. Entre os derrotados estão também os partidos de extrema-direita, que tinham em Orban uma referência, apesar da pobreza e corrupção em que mergulhou o país. Convém lembrar, que o Fidez de Orban e o Chega de Ventura, pertencem à mesma família política no Parlamento Europeu, os Patriotas pela Europa, juntamente com outros partidos, como o Rassemblement National, em França, ou o Vox, em Espanha.

Ganhou, por isso, a liberdade, o projeto europeu e a coesão europeia, os valores do humanismo e dos direitos humanos, da dignidade humana, mesmo que seja também preciso dizer que, em matéria de gestão da imigração, um assunto central no debate europeu, Magyar não deverá afastar-se muito da linha dura de Orban.

Seja como for, a vitória de Peter Magyar é a derrota daqueles que querem impor valores e modos de vida contra a vontade das pessoas, condicionar as liberdades individuais e o respeito pelos outros, independentemente da sua opção política, sexual, religiosa, da sua origem ou raça.

A sua vitória é um sinal muito claro de que o movimento extremista que tem avançado como um veneno não é uma fatalidade e que a Europa e o mundo não estão necessariamente a caminhar para o abismo, com sociedades cada vez mais fechadas, repressivas, autoritárias e cruéis para outros seres humanos, para os migrantes e todas as diversas minorias que fazem parte da vida coletiva no espaço da União Europeia.

Paulo Pisco

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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