
Como vimos no anterior artigo sobre este tema, a língua é um veículo de comunicação. Mas, não é somente útil para comunicarmos; é também um utensílio de exclusão e de poder, que tanto pode promover a igualdade entre as pessoas como contribuir para injustiças e exclusões sociais. Tudo depende de como for utilizada, em consequência de como foi aprendida.
A língua é veiculada por frases, e as frases são compostas por palavras, cuja ordenação dentro da frase obedece a regras e convenções gramaticais; uma frase não é um conjunto de palavras postas em fila sem qualquer sentido. Cada palavra é definida por um conjunto de sons que a constitui, lhe dá especificidade, a torna única e tem a sua própria história.
No primeiro artigo, falei-vos da palavra “alfacinha”, que me toca de perto, visto que sou natural de Lisboa. Continuando na minha digressão pela História das Palavras… com História, vou agora debruçar-me sobre o que considero o princípio da aventura da escrita: a invenção do alfabeto. Sem as letras do alfabeto não haveria escrita.
“Alfabeto” é, pois, mais do que qualquer outra, uma palavra com uma história de extrema importância, pois se não fosse essa invenção, não teria sido possível a escrita tal como a conhecemos hoje, portanto, a História e as suas histórias ter-se-iam perdido no tempo.
Nunca é demais lembrar que foram os Fenícios os inventores da escrita fonográfica que utilizamos hoje no Ocidente, embora o nosso alfabeto tenha evoluído do alfabeto grego, este sim derivado directamente do alfabeto fenício.
Claro que existiram variadíssimas formas de escrita na Antiguidade, mas essas eram de difícil aprendizagem e de morosa execução. Os Fenícios, além de extraordinários navegadores, eram também um povo de mercadores. Precisavam, pois, de utilizar uma escrita rápida, mas eficaz, para registar as suas transacções. O seu alfabeto acompanhava-os para todo o lado.
O alfabeto fenício era composto por 22 letras, consoantes unicamente, como aliás era o caso nas línguas da Antiguidade. Com as inevitáveis distorções ocasionadas pela diferença de pronúncia entre o Fenício e o Grego, os nomes das duas primeiras letras deram origem à palavra “alfabeto”: aleph (que significava “boi”) deu alpha em grego e alfa em português; e beth (que significava “casa”) deu o beta grego, igualmente beta em português. A letra alfa corresponde ao “a”, que nas línguas modernas é uma vogal, mas que para os Fenícios era uma consoante; quanto ao beta, tornou-se no “b” moderno.
Curiosamente, a cidade de Biblos (hoje conhecida pelo nome árabe Jubayl), que está na origem da palavra Bíblia como veremos noutra altura, tem igualmente um papel importante na história da palavra “alfabeto”, pois foi nas ruínas dessa cidade que se descobriram as inscrições fenícias mais antigas, datadas do 11° século antes de Cristo.
Dulce Rodrigues
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