Hantavírus: Quando o medo se espalha mais depressa do que o vírus
O regresso de um fantasma coletivo
O recente surto de hantavírus, associado ao navio MV Hondius, reacendeu, em muitas pessoas, uma pergunta quase automática: “Será esta a próxima COVID?” A questão é compreensível. Depois da experiência traumática da pandemia, qualquer notícia sobre um vírus mortal desperta, imediatamente, memórias emocionais ainda mal cicatrizadas. Contudo, é imperativo separar o risco real, da ansiedade coletiva.
Os dados conhecidos até Maio de 2026 indicam que o risco de pandemia global é considerado baixo pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por entidades europeias de saúde pública. A variante identificada — o vírus Andes — é rara e, embora possa ter transmissão entre humanos, isso exige contacto próximo e prolongado, muito distante da dinâmica altamente contagiosa que marcou a COVID-19. A OMS mantém a situação sob vigilância, mas não fala em cenário pandémico.
Nesta medida, por que motivo tanta gente reage como se o pior estivesse prestes a repetir-se?
O trauma não desaparece, apenas muda de forma
Do ponto de vista psicanalítico, o medo raramente responde apenas aos factos presentes na realidade externa. O medo convoca fantasmas antigos. A pandemia de COVID deixou marcas profundas: medo da morte, isolamento, perda de controlo, desconfiança institucional, luto colectivo, desamparo, e uma sensação inédita de vulnerabilidade global. Assim, quando surge um novo agente infeccioso com potencial letal, mesmo que limitado, não reagimos apenas ao hantavírus — reagimos à memória emocional da peste recente. Ergue-se uma repetição traumática.
Freud mostrou que o psiquismo tende a repetir aquilo que não elaborou. Quando um trauma não é simbolizado, reaparece sob novas formas. O aparecimento do novo vírus torna-se, assim, um palco onde regressam angústias antigas. Não se teme apenas a doença: teme-se reviver o confinamento, a solidão, a incerteza económica, a separação e o colapso do quotidiano.
Na clínica, isto manifesta-se de formas subtis, mas muito reveladoras. Uma paciente relatava ter voltado a usar máscara em espaços públicos fechados, apesar de reconhecer, racionalmente, que o risco actual não o justificava. O gesto não era motivado apenas pela realidade sanitária presente, mas por uma associação inconsciente à sensação de ameaça vivida durante os anos da COVID-19. A máscara funcionava quase como um objecto psíquico de protecção contra um passado que regressava, emocionalmente.
Outro paciente desenvolveu insónias persistentes poucos dias depois de ler notícias sobre o hantavírus. Dizia não compreender a origem da ansiedade. Quando, finalmente, conseguiu associar as duas realidades, afirmou: “Nem sequer acho que isto vá acontecer cá.” Contudo, o corpo reagia antes da consciência. O medo não era apenas do hantavírus, mas da reactivação da experiência traumática anterior — o medo invisível, constante, impossível de controlar.
O vírus invisível e o medo sem rosto
Há ainda outro mecanismo relevante: a necessidade humana de dar rosto ao invisível. A ameaça difusa angustia-nos mais do que a ameaça concreta. Um vírus desconhecido funciona como “objecto de medo” ideal: invisível, silencioso, imprevisível. A mente tenta dominá-lo através da vigilância obsessiva, do consumo compulsivo de notícias, dos “rumores” ou das teorias simplistas.
Muitas pessoas relatam voltar a monitorizar sintomas corporais mínimos — uma tosse ligeira, uma dor muscular, um cansaço banal — como se cada sensação pudesse anunciar uma catástrofe iminente. O corpo transforma-se num campo de vigilância permanente: a angústia procura um objecto externo onde se fixar. Daqui até à formação do(s) sintoma(s) vai um salto!
A sedução psicológica das teorias da conspiração
Face a esse medo sem rosto, há que encontrar justificações que paziguem. É por isso que, em momentos destes, proliferam rapidamente narrativas conspirativas. Quando a realidade é complexa, a fantasia oferece respostas fáceis. “Isto foi criado”, “estão a esconder algo”, “vem aí novo confinamento”, “andam a brincar às guerras e depois dá nisto”. Psicologicamente, a conspiração tranquiliza mais do que a incerteza: transforma o caos em enredo.
Também a erosão da confiança pública tem peso decisivo. Após anos de mensagens contraditórias, fadiga pandémica e polarização social, parte da população deixou de confiar, plenamente, em autoridades, especialistas, ou meios de comunicação. Onde falta confiança, surge espaço para a confabulação e cresce o pânico.
O verdadeiro contágio
Torna-se imprescindível, todavia, referir um dado essencial: ansiedade colectiva não é o mesmo que perigo coletivo.
Neste momento, o hantavírus merece atenção sanitária séria, não histeria social. Monitorizar casos, informar com rigor e agir preventivamente é sensato. Transformar cada surto localizado numa nova ameaça apocalíptica apenas alimenta o contágio psíquico — esse sim, veloz e global.
A grande contenda não parece ser saber se o hantavírus é o próximo coronavírus. A verdadeira questão parece ser uma outra. Aprendemos, verdadeiramente, a lidar com o medo desde o último? Porque, muitas vezes, o vírus biológico passa, mas o “vírus emocional” fica.
Sónia Soares Coelho
