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Exposição-Viagem  

“Gostaria de escrever como um pintor. Gostaria de escrever como pintar. Como eu gostaria de viver. Como eu vivo, às vezes.  Ou antes:  como por vezes me é dado viver, no absoluto presente. No instante (…) é assim que eu vivo, é assim que tento escrever.

(Cixous, 1986, p. 171)”

 

Contemplar as telas da pintora portuguesa, Edite Melo, é encontrar este instante de presente de plenitude. O instante de meditação, observando a cor, a textura, o traço. Deixando-se levar pela musicalidade contemplativa do gesto, materializando no inconsciente os sons e as vibrações do universo.

Nas cores. Na luz que emana das telas da pintora há um convite, um convite de contemplação, de absorção do processo criativo, um convite à viagem. E que viagem! A viagem ao encontro do Eu, da transcendência, da revelação do Ser.

Somos todos, nesta jornada da vida, caminhantes num universo de luz e de sombras, de agitação e quietude. São estas dualidades que nos enriquecem, que nos guiam. A pintura ajuda-nos na revelação, na interiorização. As cores são o guia.

E despidos de todas as contingências da vida, dos preconceitos, seguimos viagem, a viagem do instante. O movimento cromático dirige-nos para o interior das catedrais, espaços de comunhão com o sagrado. Na simbologia dos azuis saciamos a sede de misticismo, encontramos o divino que nos habita, encontramos a nossa fragilidade e a nossa transcendência, o medo e a coragem.  Nos tons de azul seguimos viagem. Entramos na força enigmática dos oceanos. Na totalidade expressiva do elemento líquido que nos regenera, que cura.

Por vezes, temos medo, somos assaltados pelas sombras, pelo lado mais terreno da nossa caminhada. É preciso coragem. Coragem de olhar para o medo, coragem de entrar no precipício da existência. Coragem de ter medo. Como escrever o medo? A pintura retrata o medo e a coragem de um modo sublime: negros, vermelhos, branco!  A plateia do mundo onde cada um de nós encena a sua própria existência. A representação das dores e da salvação.

É esta a jornada de reflexão que a pintura de Edite Melo nos oferece, esta viagem no coração das telas, na materialização do mundo, do universo, na leitura dos símbolos e dos arquétipos dos homens.  O caos e a plenitude, a luz e a sombra, o profano e o sagrado.

 São Gonçalves 

 

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