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Exposição “O Estado das Coisas” encerra em Berlim com lançamento de catálogo

A exposição “O Estado das Coisas”, composta por nove artistas lusófonos, termina esta quarta-feira no Camões – Centro Cultural Português em Berlim com o lançamento do catálogo homónimo, que também toca a atualidade da Alemanha.

A exposição e o catálogo adotaram o nome de uma das obras expostas, de Ângela Ferreira, que é, entre outros aspetos, uma crítica ao pós-25 de Abril e à forma como os retornados, “que também se poderiam chamar refugiados”, foram recebidos em Portugal.

Trata-se de uma obra que, para a artista, ”faz sentido” estar exposta na Alemanha, país que tem acolhido milhares de migrantes.

A imagem da artista, nascida em Maputo, é de 2003 e faz parte de uma série de trabalhos em que a autora experimenta “mais diretamente o uso do corpo, a performance e a autorrepresentação”.

“É feita no início do meu desencantamento com o estado da mercantilização da arte. Estava preocupada com a ideia de que os museus se estavam a tornar numa espécie de festividades para turistas. Portugal tinha acabado de sair de um período de crescimento económico e estava a aproximar-se uma crise que amedrontava. E havia uma espécie de vontade minha de pensar as utopias do 25 de Abril e da construção de uma sociedade que se tinha proposto, e de alguma desilusão com as falhas do processo”, conta a artista Ângela Ferreira.

A essa vontade, juntou-se a inspiração através do filme “O Estado das Coisas”, de 1982, do realizador alemão Wim Wenders. Ângela Ferreira conta que é “um filme muito forte, a preto e branco, que mostra Portugal depois do 25 de Abril, com problemas políticos, mas também com entusiasmo e esperança”.

“Era filmado no hotel da Praia Grande na altura em que não servia como hotel turístico. As imagens são muito evocativas, a piscina está vazia, as dunas estão sem pessoas, o hotel está decrépito, delapidado, decadente, por má utilização. Ele captura esse sentido de espera, de vazio e de falta de atividade comercial e política. Há um lado muito evocativo”, refere a artista, recordando que o hotel da Praia Grande, em Sintra, recebeu centenas de retornados.

“Deu-me na gana ir ao hotel e habitar os espaços de novo, levei comigo, na minha mente e impresso no papel, aquele poster famoso do 25 de Abril do menino a pôr um cravo na metralhadora. Fui lá à piscina, vesti o meu fato de banho de nadadora, levei uns cravos, e fiz uma data de ações diferentes que fomos documentando. Há uma mistura de evocação ao 25 de Abril e uma desilusão. Já não é uma espingarda, mas sim um suporte para um chapéu de praia, de verão, de lazer”, acrescenta Ângela Ferreira, que integra a lista de nove artistas que formaram a exposição “O Estado das Coisas”, patente em Berlim.

Ângela Ferreira sublinha que o tema dos refugiados “tem imenso significado”.

“Sendo africana como sou, apesar de não ser de uma família de retornados, é um assunto que me preocupa muito. Quando eu vim viver para Portugal a primeira vez nos anos 1990, encontrei um país extremamente racista e pejorativo para com os retornados e filhos de retornados. Apesar de haver manifestações contra, a Alemanha tem sido um país exemplar em relação ao acolhimento de refugiados nos últimos três anos.”, considera a artista.

Ana Rito, Cecília Costa, Filipa César, Isabel Carvalho, Jorge Dias, Julião Sarmento, Noé Sendas e Pedro Barateiro fizeram também parte desta exposição que deu origem a um catálogo.

“A articulação entre as peças não existe necessariamente”, explica Patrícia Severino, conselheira cultural da embaixada de Portugal em Berlim e diretora do Camões Berlim, acrescentando que há ligações que é possível “identificar, como por exemplo, o fato de haver alguns artistas que têm uma conexão com Berlim, como a Filipa César, ou o Pedro Barateiro, que tem a palavra alemã ‘Bildung’ na sua obra.”

“São ligações que podemos experimentar na nossa visita a esta exposição e na relação que estabelecemos com ela”, adianta Patrícia Severino, que acrescenta que o catálogo “O Estado das Coisas” vai também estar acessível em todas as feiras do livro alemãs com presença portuguesa.

É a primeira vez a Fundação PLMJ tem uma exposição da sua coleção de arte no Camões – Centro Cultural Português em Berlim, já tendo, contudo, apresentado a sua coleção no Camões – Centro Cultural Português de Maputo e de Luanda.