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Eu e a Rádio Felgueiras

“Imagine que está em casa, sozinho, e alguém bate à porta. Quando vai responder à chamada, ao abrir a porta dá de caras com Bruna Lombardi. O que fazia?”

O meu primeiro contacto com a Rádio Felgueiras aconteceu no tempo em que esta estação emissora era ainda uma rádio pirata.

Estávamos algures nos princípios da década de 80, num domingo onde o marasmo que antecedia a hora do almoço se estendia comigo numa cadeira de encosto, e por acréscimo eu ouvia um programa na rádio local, a Rádio Felgueiras. Por acréscimo porque os verdadeiros ouvintes do programa eram o meu pai e o meu irmão mais velho, o Zé.

No entanto, era um programa divertido, com vida, preenchido com muita música, (totalmente oposta àquilo que são os meus gostos pessoais) passatempos, (nenhum que me despertasse a vontade de participar) discos pedidos com direito a dedicatória, (nada o meu estilo) participação em direto e ao vivo dos ouvintes, (em bom português se diga, para mim, o fim da macacada).

O programa tinha apesar de tudo popularidade e era uma boa companhia para muitos dos ouvintes que naquelas manhãs de domingo sintonizavam a sua rádio na estação emissora. O meu pai e o meu irmão eram dois desses ouvintes.

Na minha perspetiva pessoal o programa tinha todos os condimentos que me não levariam a sintonizar a rádio voluntariamente para que eu o ouvisse com qualquer interesse, muito embora, e isto não passa apenas de uma lembrança da qual não tenho certezas absolutas, os apresentadores, (recordo nomes como Torcato de Sousa, Rogério Mesquita e Orlando Sousa) fossem animados, alegres e comunicativos.
Mas não era o meu estilo de programa e isto não é sequer uma critica, apenas um facto.

No entanto, nesse Domingo de manhã os apresentadores metiam no ar um desafio que desde logo me despertou a atenção. “Imagine que está em casa, sozinho, e alguém bate à porta. Quando vai responder à chamada, ao abrir a porta dá de caras com Bruna Lombardi. O que fazia?”

Bruna Lombardi é uma atriz brasileira e na época era considerada como uma sex symbol.

O mote estava dado e o seu conteúdo não poderia ser mais vulgar. E por essa razão me despertou um repentino interesse.

Desafiar a imaginação, pegar num tema vulgaríssimo e dar-lhe a volta necessária para que em torno dela pudesse criar uma história, que ganharia contornos de expectativa levando o leitor à ilusão de que algo estaria na iminência de acontecer, quando de facto o esperado daria lugar ao que se não estava à espera.
A estratégia funcionou e eu ganhei o primeiro prémio.

Quando me desloquei aos estúdios da Rádio Felgueiras para o receber, situados na casa do Outeiro, fiquei fascinado com tudo o que vi.

Mais tarde, quando o meu amigo Carlos Diogo, um dos nomes veteranos ligados à Radio Felgueiras, me convidou a colaborar com a estacão, não hesitei nem um segundo em dizer que sim, e a partir desse momento as minhas atenções centravam-se na elaboração de um projeto de rádio que satisfizesse duas das minhas grandes paixões. A música e a literatura. E assim nasceu o meu primeiro programa de rádio a que dei o nome de “Música e Letras”.

O programa ia para o ar às sextas-feiras entre as 20 horas e as 22.

Além de me dar um trabalhão a preparar, tinha um conceito simples. Era dedicado a poetas e escritores, com especial incidência para os de língua portuguesa.

Na primeira hora apresentava uma biografia explicita do autor escolhido para essa noite, e também falava de maneira breve e sucinta acerca das suas obras. Na segunda hora, escolhia um pequeno texto ou poema desse autor que era lido com música de fundo, e mais para o final do programa recomendava alguns livros de vários autores, que na minha opinião mereciam ser lidos. Tudo isto era regado com muita e boa música, para que o programa não se tornasse massudo, e que ao mesmo tempo cativasse a atenção do ouvinte em relação a alguma boa literatura, ajudando dessa maneira a um serão agradável e culto, na companhia do Música e Letras.

Alguns dos programas que me ficaram na memória e que recordo com saudade, são por exemplo o que fiz com um grande poeta, escritor, jornalista e acima de tudo grande mestre das letras, A. Garibaldi, que teve a amabilidade de me conceder uma entrevista para o dito programa.

Em S. João da Madeira entrevistei Lena D’agua, e fiz um programa dedicado ao seu livro de poesia chamado “A Mar Te.”

A destacar também o programa póstumo que realizei dedicado a Zeca Afonso, com a preciosa colaboração do José Carlos Pereira na elaboração e condução de entrevistas com nomes conceituados da música e da cultura em Portugal, bem como da política também. A atriz Maria do Céu Guerra, Hélder Costa, Otelo Saraiva de Carvalho, Eduardo Luís Cortesão, entre muitos outros.

O Música e Letras esteve no ar durante cerca de três anos e depois disso, avancei com um novo projeto a que dei o nome de “A Face Oculta da Lua”.

Este programa ia para o ar às terças-feiras ao início da noite. Era dada prioridade à poesia, divulgava algumas curiosidades de interesse geral e mais para o final do programa havia um espaço de humor que normalmente era preenchido com as histórias gravadas do saudoso Raul Solnado, Badaró, Nicolau Breyner, Herman José, etc.

Estes programas davam-me um trabalhão a preparar porque requeriam por vezes um exaustivo esforço de pesquisa e preparação prévia, uma vez que, nessa altura as informações não estavam à distância de um clique na Google. Era preciso procurar enciclopédias, consultar arquivos, etc. etc.

Depois disso veio o programa que foi o mais fácil de fazer, no sentido de não requerer muito trabalho de preparação antecipada. O programa chamava-se “Aplauso”, e como o nome assim o indica, era preenchido com música gravada ao vivo.

Nesse programa, entre as músicas tinha uma espécie de sketch com a voz de Sérgio Godinho, José Cid e Pedro Barroso, a convidar o ouvinte a ficar com o “Oliveira Magalhaes” na Rádio Felgueiras com o Programa “Aplauso”.

O programa não durou mais do que um ano. Parecia-me um projeto simples de mais para que lhe desse continuidade por muito tempo.

Sendo assim, nasceu a ideia de um programa que desse destaque à música que vinha da década de 60/70/e 80. Que explorasse todo o conceito do nascimento dos movimentos hippies, das grandes contestações a nível mundial, as conquistas e também as derrotas que nessas décadas, com uma enorme influência da música e das bandas que a representam, se foram alastrando e ao mesmo tempo moldando ao que se veio a tornar o futuro ao grito de contestação surgido nessa altura. Épocas essas onde se deu a emancipação da mulher, onde surgiu o uso da minissaia, a revolução sexual, o Maio de 68 e as suas ramificações e consequências, a luta contra o capitalismo, o consumo de drogas, e as suas nefastas consequências etc. etc. o projeto tinha pano para mangas e por esse motivo agradava-me pô-lo em prática.

Este projeto chegou a ser o programa com maior duração em antena, da Rádio Felgueiras. Nasceu, “O Regresso dos Velhos Heróis”, programa que durou cerca de 10 anos consecutivos na antena da Rádio Felgueiras.

O programa foi ganhando o seu leque de ouvintes fieis e prova disso foi quando, por motivos que não vale a pena explorar muito, em discordância com certa exigência da rádio eu decidi acabar com o programa, pois com muita pena minha, parecia-me a melhor opção em vez de ceder à exigência que me era feita. Depois de ter anunciado aos microfones da rádio que o próximo programa seria o último, sei que nessa semana que antecedeu o programa, a direção da rádio recebeu algumas cartas com abaixo-assinado a pedir a continuação do mesmo. Uma dessas cartas com várias assinaturas veio da Universidade do Minho, e a outra da Polícia municipal de Fafe.

O Regresso dos Velhos Heróis ganhou muito maior consistência, tanto em termos de conteúdo como de música, quando convidei o António Teixeira a participar no programa. Os seus conhecimentos musicais eram por vezes melhores do que uma enciclopédia musical. Com a minha discografia e com a do Antonio Teixeira, muito raramente usávamos material da rádio pois tínhamos música mais do que suficiente para fazer os programas sem nos tornarmos nem de longe nem de perto, repetitivos.

Por vezes surpreendíamos os nossos ouvintes com especiais. Especial Pink Floyd, especial The Who, especial Led Zeppelin, etc. etc.

A Rádio Felgueiras foi das melhores experiências da minha vida. Momentos inesquecíveis que funcionavam muitas vezes como um antídoto ao stress do dia a dia. Era como entrar num outro mundo onde a serena tranquilidade de se fazer o que se gosta ajusta em todos os seus mecanismos o encaixe perfeito.

Para melhor explicar a teoria, eu que gosto de futebol só em ocasiões de especial manifestação de orgulho patriótico, passei algumas das melhores tardes de sempre ao acompanhar os jogos fora, do Futebol Clube da Lixa, na cobertura e comentários da partida de futebol, juntamente com o Manuel Alves.

Foram muitos e bons os momentos dedicados à rádio. Lembro bem quando fazíamos a cobertura das eleições autárquicas, com uma vasta equipa dentro e fora do estúdio para dar a informação em primeira mão à medida que o dia ia desenrolando. No fim do trabalho feito reuníamos num restaurante da cidade para saborear o prazer imensurável da sensação de missão cumprida.

Na rádio criei uma outra família por quem tinha grande respeito, admiração e carinho.

Lembro da enorme responsabilidade que sentia quando cobria esporadicamente programas da Luísa Faria, ela que tinha uma intimidade quase familiar com os seus ouvintes. Não era fácil estar devidamente à altura da popularidade da Luísa Faria, e sabendo isso, o mais que eu me esforçava era para dar o meu melhor. A mais do que isso não era obrigado.

Para mim, recordar a Rádio Felgueiras é lembrar bons amigos como o Gabriel Soares, o António Novais, O eng. Avelino Pereira, o Manel Novais, a Dora Gaspar, o Pedro Alves, o Agostinho Duarte, o Manuel Alves, o Rogério Mesquita, o Pedro Vasconcelos, O Luís Adão Martins, o Mário Martins, o Leonel Teixeira, Vítor Oliveira e outros que já apareceram neste texto, bem como muitos outros que continuam no meu álbum de recordações.

Lembro também o programa do Raul Reis, se não me falha a memória, chamado Etecetera, programa esse gravado no Luxemburgo, assim dizia o pessoal da rádio, e que tinha uma saga continuada a cada programa, e que muito me fazia rir por vezes, saga essa e programa bem ao estilo do talento e do humor refinado do Raul.

A Rádio Felgueiras faz parte da história da minha vida, e mesmo que já esquecido, eu faço também parte da história da Rádio Felgueiras.