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Estarei integrado?

No Luxemburgo existe uma estrutura, velha de quase três décadas, que pretende representar e defender a comunidade portuguesa que vive no país. A CCPL – Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo – começou por se chamar Confederação das Associações mas decidiu abrir o leque dos seus membros para poder ser mais representativa.

Infelizmente, a CCPL atravessa uma crise grave, com reduzido interesse das associações de portugueses, tendo contado apenas com uma dúzia no congresso de abril que, em tempos já reuniu dezenas de organizações.

O congresso da CCPL é um dos momentos na vida da comunidade portuguesa em que a palavra integração regressa à ribalta. Integração é palavra repetida no plano de ação, integração surge em cada discurso que se preze, e muitos portugueses medem-se entre si em graus de integração.

Falar ou não luxemburguês costuma ser o elemento com que se distinguem os portugueses que se acham mais integrados. E, nos últimos tempos, muitos políticos luxemburgueses insistem na mesma ideia: não há integração sem falar luxemburguês.

uma vez descrevi a singular situação linguística que se vive no Luxemburgo, que posso resumir assim: o luxemburguês é uma das línguas do país que tem vindo a ser utilizada como uma ferramenta seletiva pois limita o acesso de estrangeiros a certas posições na administração pública assim como no setor privado, ou seja, serve para dificultar a integração.

Reforçar o luxemburguês é também um fator perturbador na inclusão escolar pois nenhuma criança estrangeira chega ao Grão-ducado a falar a língua local, que não se utiliza em mais lado nenhum.

A integração não passa apenas pela língua, sobretudo num país onde se falam várias. Será que um letão russófono não está integrado em Riga? Ou que um britânico terá dificuldades para se integrar em Malta?

O Luxemburgo “escolheu”, depois da Segunda Guerra, os portugueses ou, anteriormente, os italianos para serem mão-de-obra importada. Esta imigração era trabalhadora, de confissão católica e considerada “bem-comportada”, ou seja fácil de integrar.

A integração, tal como definida pela União Europeia, é o respeito pelos valores básicos da sociedade mas também uma mútua acomodação pelos migrantes e residentes, ou seja, um processo dinâmico e bidirecional. Nos mesmos textos exemplifica-se que existem migrantes integrados economicamente que não falam a língua do país de acolhimento ou não participam politicamente, assim como existem imigrantes que tendo já adquirido a nacionalidade do país de acolhimento entretanto ficam desempregados.

Se a integração é um processo em dois sentidos, de transformação mútua das sociedades de acolhimento e dos migrantes, a dos portugueses no Luxemburgo já está estabelecida e confirmada. Para quem tenha dúvidas, aqui ficam alguns exemplos gastronómicos pois, como sabemos, a comida junta os povos.

Em quase todas as bombas de gasolina do Luxemburgo se pode comprar pastéis de nata, lanches, cerveja Super Bock ou mesmo água do Luso. Mas no último concerto de um artista português a que assisti, a rulote à entrada da sala vendia salsichas brancas e latas de Bofferding. Nos restaurantes portugueses é raro não encontrar na ementa “steak au poivre” ou mesmo um bife de cavalo, enquanto que muitos dos bares do Luxemburgo, portugueses ou não, servem café português.

E que dizer dos clubes de futebol luxemburgueses onde se ouve mais frequentemente “passa!” do que outras expressões luxemburguesas ou francesas? E depois temos a segunda e terceira gerações que representam perfeitamente a mistura de culturas e tradições, incluindo do ponto de vista linguístico, começando frases em francês, com umas palavras de português em seguida, e terminando com uma exclamação em luxemburguês.

Apesar de não existir um método científico para medir o grau de integração, há uma boa tentativa de o fazer na Declaração de Saragoça que, em 2010, estabeleceu uma série de indicadores em torno das áreas do emprego, educação, inclusão social e cidadania ativa.

E o domínio onde os portugueses do Luxemburgo pecam com mais gravidade é na reduzida participação política, mas essa fraqueza revela-se tanto no contexto luxemburguês como na política portuguesa. Ou seja, não é uma integração defeituosa mas certamente falta de vontade de estar na vida política através do voto e, ainda menos, pela candidatura a cargos públicos. Mas este seria assunto para mais um artigo…

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