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Epístola a Pedro

Então Pedro, Pedro Romano, ó Grande Pedro
o advento que aguardamos é para quando?
Tanto que por ti esperámos, ansiámos
desde os tempos de Melmedoc de Armagh
e olha agora, o tão pouco que fazes
o tão pouco que muda…

Se derem o poder a um homem
de mudar o mundo, ele muda-lo-á?
Muda-lo-á realmente?
Para o bem? Para o mal?
Ou mudará apenas o que lhe for favorável e fácil?
Ou ficará paralisado a cismar da sua varanda de marfim
que não fazer nada é bem mais prudente
do que destruir o mundo como o conhecemos?
Mas e se o estabelecido está podre e a ruir
se é mau e nefasto, que lado do bem escolher?

Enquanto a religião e o poder servirem de disfarce
para camuflar violações, desculpar ‘desvios’
ocultar infanticídios e crimes de lesa-humanidade
enquanto censurarmos as vítimas
e protegermos e calarmos os nomes dos agressores
enquanto a economia travestida de paz e democracia
servir de paradigma para semear a miséria e a guerra  
para multiplicar órfãos e migrantes e apátridas
enquanto não vivermos como as crianças vivem
enquanto não olharmos como as crianças olham
enquanto não as protegermos
para lhes deixarmos um mundo melhor
do que ontem e do que hoje
nem Malaquias nem Nostradamus
nem Russell nem Pedro nem ibn Qasim
nem a religião ou a filosofia
nenhuma escritura ou profecia
virá salvar-nos.

Apenas tu, homem, te podes salvar a ti mesmo
olha as tuas mãos e considera
as linhas que pensavas desenharem o teu destino
sob as rugas que realmente desenham a tua vida
considera também o bem que espalhas
e o mal que disseminas
que balanço fazes dos teus actos
e das tuas palavras
e de que valem as tuas palavras
se não são seguidas por actos?

Sê consciente que a paz e a alegria
tão somente habitarão o teu coração
quando o que fizeres
for coerente com o que disseres.
A tua vida não acabou
pois nunca é tarde para mudar,
olha Aurélio de Hipona!

Depois do último papa
veio outro papa e assim sucessivamente.
Depois do fim do mundo
veio outro dia igual ao anterior
e assim sucessivamente.

O mundo mudou
mas muda mais lentamente
do que se sucedem os fins do mundo.
A Humanidade não está a redigir
o seu epílogo, apenas inda agora balbucia
e titubeia num títere prólogo.

‘Promittens!’, apelam os anjos.
Metatrone agastado revira-se
na sua poltrona alada
o dedo no botão do reset!
Joshua, um joelho no chão,
colhe um punhado de terra
e lançando-a ao vento diz: ‘Só mais estes!’

Gonçalo põe de lado a manica e o martelo
e anota o que viu na gáspea, curte e cose
melhor com a sovela do que peneja os escrevinhados.
Na mesma carteira, ao seu lado, mais aplicado
Miguel afasta os pêndulos e os mapas do céu  
assistiu ao mesmo gesto, mas terá mais verve,
assim o ditarão os séculos vindouros.

E tu, o que olhas daqui?
“Quando o sábio aponta para as estrelas
o idiota olha para o dedo.”
Então não olhes, vê!
Recua mais se não vês.

José Luís Correia

JLC20012022

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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