Entre a “negligência benigna” e o controlo: Leitura psicanalítica da resiliência geracional
Um conjunto de estudos e leituras contemporâneas – trabalhos amplamente disseminados em meios de comunicação e plataformas de divulgação científica – tem difundido, com crescente insistência, a ideia de que as gerações das décadas de 60 e 70 se tornaram mais resilientes, não em virtude de práticas parentais mais eficazes, mas precisamente devido a uma certa forma de “negligência benigna”.
Este conceito de “negligência benigna” é entendido não como abandono, mas como uma margem de não intervenção que, segundo estas perspectivas, terá favorecido o desenvolvimento de recursos internos, nas crianças.
A ausência de supervisão constante, o tédio não estruturado e a exposição precoce à frustração, são apresentados como condições que favoreceram o desenvolvimento de autonomia, autorregulação emocional e capacidade de resolução de problemas. Estes aspectos terão, então, fortalecido as de competências emocionais e adaptativas daqueles que, actualmente, estão nas faixas etárias dos 40 e alguns, 50, 60 e 70 anos.
Embora esta leitura encontre eco em diversos discursos psicológicos contemporâneos, importa, do ponto de vista psicanalítico, complexificá-la — não para a negar, mas para a retirar de uma possível simplificação perigosa.
Desde logo, a noção de que a criança se desenvolve a partir de um “vácuo” de supervisão deve ser cuidadosamente interrogada. Em Psicanálise, o desenvolvimento do Eu não emerge da ausência pura, do vazio, mas da qualidade da presença. O ser humano estrutura-se em relação. A criança estrutura-se, não apenas porque é deixada só, mas porque existe um ambiente suficientemente estável que suporta essa solidão.
É aqui que o conceito de Donald Winnicott se torna central, nomeadamente, através da sua formulação de “mãe suficientemente boa”. Para este psicanalista, o desenvolvimento saudável não decorre nem de uma presença intrusiva, nem de uma ausência negligente, mas sim de uma adaptação, progressivamente falhada, às necessidades da criança. I.e., a mãe (ou figura de vinculação, cuidadora) começa por responder de forma bastante ajustada, mas, gradualmente, permite pequenas falhas. Assim, vai introduzindo a frustração em doses toleráveis.
Estas “micro-frustrações” são fundamentais: não esmagam o sujeito, mas também não o poupam à realidade. É neste intervalo que a criança começa a desenvolver a capacidade de tolerar a ausência, de simbolizar a perda e de criar recursos internos.
Dito de outro modo, o que hoje se designa como “negligência benigna” pode, em certos casos, corresponder a este espaço potencial descrito por Winnicott — um espaço onde a criança, não sendo constantemente invadida, ou corrigida, pelo adulto, pode brincar, imaginar, falhar e reparar. O chamado “ócio criativo” não é apenas ausência de estímulo: é um terreno fértil para a emergência do mundo interno.
No entanto, é precisamente aqui que se impõe uma distinção crítica essencial.
A Psicanálise não valida, de forma alguma, a ideia de que a exposição à frustração, “per si”, produza sujeitos mais fortes. A ideia de que – “Antigamente é que era!; Tinham que sofrer e só lhes fazia bem!; Levar umas “palmadinhas pedagógicas”; As dificuldades só os enrijeciam!” – é errónea, grotesca e simplista. A frustração só é estruturante quando ocorre dentro de um enquadramento relacional suficientemente seguro. Sem esse enquadramento, o que se produz não é resiliência, mas desamparo.
A diferença é subtil, mas decisiva:
- Uma criança que experiencia frustração sabendo, ainda que implicitamente, que existe um Outro disponível, pode transformar essa experiência em crescimento psíquico;
- Uma criança deixada num verdadeiro vazio relacional pode desenvolver defesas precoces, cristalizações. endurecimentos, ou mesmo falhas na constituição do Eu.
Assim, a leitura nostálgica da resiliência das gerações dos anos 60/70 corre o risco de romantizar condições que, em muitos casos, também implicaram sofrimento psíquico, solidão emocional e ausência de reconhecimento. E que vieram a desembocar em índices de saúde mental e de consumo de psicofármacos absolutamente elucidativos e assustadores: nunca, como hoje, existiram tantas patologias mentais, nem tanto consumo de ansiolíticos e antidepressivos (apenas para mencionar alguns dos psicofármacos).
Por outro lado, a contemporaneidade parece oscilar no extremo oposto: uma parentalidade marcada pela hiperpresença, pela antecipação constante das necessidades da criança e por uma tentativa de eliminação da frustração. Este movimento, embora frequentemente motivado por cuidado – “Não quero que ele passse o que eu passei…” – pode, paradoxalmente, fragilizar o desenvolvimento psíquico.
Sem experiência de falta, não há desejo.
Sem espera, não há simbolização.
Sem frustração, não há construção de recursos internos.
A criança excessivamente regulada pelo exterior pode ter dificuldade em desenvolver mecanismos internos de autorregulação, tornando-se mais dependente do ambiente para gerir estados emocionais.
Ainda assim, importa sublinhar com clareza: não se trata de defender uma pedagogia da privação, nem de legitimar práticas negligentes sob o pretexto de promover resiliência. A frustração não deve ser infligida — deve emergir, naturalmente, no encontro entre o sujeito e a realidade, sendo acompanhada por um ambiente que a torne pensável.
O ponto central não é “deixar a criança sofrer para que se torne forte”, mas permitir que ela encontre, progressivamente, os seus próprios meios de lidar com a ausência, com o tédio e com o limite — sabendo que não está, verdadeiramente, só.
Nesta medida, a questão não é escolher entre negligência e controlo, mas repensar a qualidade da presença: uma presença que sustenta sem invadir, que acompanha sem substituir, que falha sem abandonar.
Assim, é neste delicado equilíbrio que se joga, ainda hoje, a possibilidade de formar sujeitos capazes de habitar a incerteza — não porque foram deixados ao acaso, mas porque tiveram espaço para se encontrar.
Sónia Soares Coelho
