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Em ditadura ou democracia é mister ter padrinhos

Ao reler Érico Veríssimo, deparei em “Olhai os Lírios do Campo”, a passagem referente a homem, que desejava ir para o hospício.

Este ironicamente esclarecia que estava louco: Nunca perdera ponto. Só faltava ao trabalho por doença grave. Nunca aceitara gorjeta. Achava que o funcionário público tinha obrigação de atender todos com presteza. O que arranjou com isso? Nada. Os malandros subiram. Ele ficou-

O lúgubre desabafo desse inditoso homem, ao Dr. Eugénio, fez-me recordar, com mágoa, operário – que subiu a pulso na hierarquia da empresa, – que conheci na última década do século vinte; – que durante quase quarenta anos, labutou arduamente, e no crepúsculo da vida profissional, apartaram-no do cargo, por estar velho!

Foi o que lhe disseram, mas a verdadeira razão era colocarem no seu lugar, trabalhadora, militante do partido dos patrões. De olhos taciturnos e baços, dizia-me amarguradamente: – “Quantas vezes trabalhei para além das horas obrigatórias, para que o serviço estivesse pronto à hora combinada. Não ganhava mais por isso, apenas recebia um: muito obrigado…quando recebia! Os meus camaradas riam-se à socapa dessa dedicação e murmuravam entre si: “Ainda vai receber medalha de cortiça!”

“Não ganhei de cortiça, nem de prata, nem de ouro… mas surpreenderam-me quando me louvaram pelos anos de lealdade.

“Alegrei-me: afinal fui reconhecido!… Meses depois – três – o capataz, já falecido, chamou-me para informar: Estava próximo de ser aposentado; merecia, portanto, descansar… teria no tempo que restava, menos tarefas, portanto redução de salário, mas devido à idade, compensa…

“Ainda levantei a voz em modesto protesto, mas o capataz -chefe, aos brados, abafando as minhas tímidas palavras de espanto, vociferando quase histericamente: “Foram eles!…Foram eles!” (Eles quem?!)

Hoje o taciturno homem, quando me cruzo com ele, na rua, vejo-o de passo compassado, rosto envelhecido e macerado, de semblante descaído e sorumbático, e fico a cogitar: – quantos, como ele, ainda julgam candidamente que – ser honesto, respeitador e cumpridor, basta para ser compensado?!

Esquecessem os ingénuos, – que nos nossos dias, o sucesso não depende apenas da: inteligência, dinamismo e dedicação. Para alcançar cargo iminente, em qualquer firma importante, além desses predicados, é mister ser militante de partido do poder, e, principalmente, possuir “padrinhos” poderosos.

Disse nos nossos dias, mas diria muito melhor. Sempre assim foi, em democracia ou em ditadura…

Humberto Pinho da Silva

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