De que está à procura ?

Lisboa
Porto
Faro
Colunistas

Em 2017 haverá mais (e em 2018, e em…)

Na Moldávia, apanhei com temperaturas de 40 graus à sombra. Curiosamente, não vi (nem ninguém me comunicou) incêndios florestais. Também curiosamente, não vi mares de eucaliptos ou pinheiros. A vegetação arbórea local é composta de nogueiras, carvalhos, freixos… manchas florestais pouco extensas, alternando com prados e campos cultivados.

Em Portugal, teima-se em transformar o país numa mancha contínua de espécies arbóreas alienígenas altamente combustíveis, em regime de monocultura que não se compadece com o tipo de clima que temos, caraterizado por verões muito secos e quentes. Eufemisticamente, chama-se-lhe «floresta», quando, na verdade, se trata de matas impingidas à força a ecossistemas com os quais pouco têm a ver.

Por algum motivo, quando há incêndios na ilha da Madeira, é a encosta sul, onde abundam eucaliptos e pinheiros-bravos, que arde. Sem dúvida que a encosta norte é mais fresca, sombria e húmida, mas também, sem dúvida, não há lá matas de eucaliptos. Por algum motivo, quando há incêndios no arquipélago, não é na ilha de Porto Santo, bem mais quente e seca (mas também menos insensatamente «florestada»), que eles ocorrem.

Por algum motivo, quando há incêndios no Continente, são, estatisticamente, as regiões Norte e Centro as mais castigadas — de facto, é aí que se concentram as grandes massas de eucaliptos e pinheiros-bravos. Nas últimas décadas, nasceu até uma nova região em Portugal: o «Pinhal». Ora, a toponímia tradicional refere inúmeros lugares como Carvalho, Carvalhal, Souto, Sobreiro, Sobreiral, Azinhal, Amendoal, Alfarrobeira… Nunca houve «Eucaliptos-de-Baixo» ou «Eucaliptais-o-Velho»; e o pinheiro que batizou muitas terras foi sempre o manso, o da simpática copa redonda, que nos dá pinhões e tão esteticamente tipifica a paisagem mediterrânica. O bravo é uma exótica intromissão de tempos recentes.

Por algum motivo, os locais do mundo que periodicamente nos noticiam incêndios devastadores são a Austrália, a Califórnia, por vezes o Canadá ou a Sibéria. A Austrália tem clima tórrido e é a pátria do eucalipto; a Califórnia tem igualmente verões quentes e secos e exibe grandes matas de resinosas. Quanto ao Canadá e à Sibéria, se não se podem classificar como terras quentes e secas, a verdade é que possuem extensões maciças de espécies arbóreas facilmente inflamáveis quando ocorrem longos períodos de secura e calor excecional. E, se até nessas paragens o pinhal intensivo é uma pira em potencial, como não o será num clima mais mediterrânico que atlântico, como o nosso…

Não sustento que, se em Portugal não houvesse grandes eucaliptais e pinhais, tampouco incêndios florestais haveria. Provavelmente, havê-los-ia de qualquer maneira. Mas não é crível que, de ano para ano, atingissem estas proporções catastróficas. O fogo tende a progredir mais devagar quando esbarra em massas de folhosas, as espécies arbóreas tradicionais da nossa zona geográfica: carvalhos, castanheiros, freixos, nogueiras, vidoeiros, choupos, oliveiras, sobreiros, azinheiras, alfarrobeiras, amendoeiras… Quando arde um olival ou um montado — fenómeno, aliás, relativamente raro no panorama dos incêndios —, não é nestas associações vegetais, variadas e pouco densas, que o fogo costuma ter início, nem são elas que mais contribuem para o propagar.

E é uma falácia proclamar que a culpa reside em não se limparem as matas. Por «limpeza das matas» entende-se a remoção do estrato herbáceo e arbustivo. Ora, num ecossistema equilibrado, a vegetação rasteira, génese da manta morta que enriquece o solo, não seria um elemento perturbador, mas sim um elemento integrante. O problema é que eucaliptais e pinhais são formações vegetais exóticas, que nada têm de equilibrado e para as quais tanto melhor se desaparecer a concorrência dos estratos herbáceo e arbustivo. Destinam-se a produzir maciçamente matéria-prima para uma indústria de celulose que, pela sua própria natureza, não tem como prioridade o futuro de Portugal a médio/longo prazo. Plantado assim o país de densas matas de eucaliptos e pinheiros, basta, em seguida, que a temperatura suba e a humidade desça a níveis críticos e que um criminoso (como o da Madeira, sob o efeito de álcool e drogas, ou o do Caramulo, em 2013, por «vingança» na sequência de uma multa rodoviária — e cito apenas duas gotas de água num oceano de vandalismo) resolva acender o isqueiro ou um fósforo. Porque, mesmo com temperaturas excecionais, não há matéria vegetal, sequer a mais combustível, que se autoinflame.

O problema dos incêndios em Portugal não desaparecerá enquanto persistirmos em ver «uma grande riqueza» nas gigantescas monoculturas de exóticas como os eucaliptos e os pinheiros-bravos em que, teimosamente, se transformou o país. Com o êxodo rural, tem-se vindo a perder a noção do que era a nossa vegetação tradicional. Há pouco tempo, numa antiga propriedade adaptada a museu rural, entre Portimão e Monchique, deparei-me, siderado, com o seguinte mimo: um mapa do terreno indicava determinado ponto como sendo «de interesse para apreciação da flora tradicional local»; fui ver; a «flora tradicional local» era um pequeno bosque de… eucaliptos e mimosas!

A ministra da Agricultura do governo anterior removeu as últimas restrições ao plantio de eucaliptos. Por decreto, esse australiano invasor tornou-se «espécie autóctone da floresta portuguesa», com todo o à-vontade que tal estatuto outorga a quem quiser eucaliptizar. Temo, pois, que o problema dos incêndios estivais não cesse — pelo contrário, a tendência é para que se agrave.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.