É só uma opinião ou talvez uma forma diferente de estar na sociedade
A Assembleia da República votou por maioria uma lei que proíbe o uso da burca em locais públicos. Como justificação li algures que a lei „protege as nossas mulheres“
Será mesmo? Ou a lei é mais uma medida de populismo racista?
Em nome da liberdade da mulher ouvimos muitas vozes a defender a proibição generalizada da burca, não só em Portugal mas também em outros países europeus (alguns com uma forte comunidade muçulmana). Em Portugal aprovou-se uma lei que proíbe a burca em lugares públicos; à boa maneira portuguesa deixa-se uma interpretação „elástica“ sobre o que é o espaço público.
Considerando que a percentagem de muçulmanos em Portugal, segundo dados empíricos, com base nos dados estatísticos de 2021, é inferior a 100 000 pessoas (o que representa menos de 0,95% da população); devemos também considerar que o universo dos muçulmanos a residir em Portugal não é oriundo de países qualificados como fundamentalistas; portanto a „burca“ no contexto de „defender as nossas mulheres e a nossa civilização“ é um problema inventado pela extrema-direita com a conivência e aceitação dos partidos do centro-direita e liberais.
Mas em vez de seguirmos discursos fáceis e falaciosos, devemos, a meu ver, questionar o seguinte:
– Quantas mulheres usam a burca em Portugal? Estamos perante uma questão de defesa dos direitos das mulheres ou perante um aproveitamento político baseado em percepções e medo?
– Será que não devemos ser nós a questionar o que esperamos das comunidades que não vêm do mesmo círculo cultural que nós, em vez de tentarmos colonizar as comunidades migrantes com diferentes bases culturais?
– Não seria mais eficiente tentarmos perceber essas culturas? Lutar por uma integração plena em vez de assimilação pontual?
Só com igualdade e liberdade se chega à verdadeira emancipação das mulheres, não com proibições ou obrigações. Não devemos esquecer que há aproximadamente 50 anos, a luta pela emancipação das mulheres em Portugal, estava na ordem do dia…
Mas voltando ao tema que me leva a escrever este texto, ou desabafo como queiram! A luta das mulheres deve ser pelo seu direito de escolha, não pela imposição da aceitação de um modelo cultural único! Não deve ser o Estado a decidir como uma mulher se deve vestir – seja obrigá-la a cobrir-se ou a descobrir-se.
A grande maioria das mulheres muçulmanas em Portugal ou nos países europeus à nossa volta, vive em paz, trabalha, estuda, contribui para a sociedade. Reduzir todas a um símbolo de opressão é uma forma subtil de paternalismo / colonialismo — e uma maneira de continuar a tratá-las como “outras”.
Por isso, quando políticos populistas falam da burca, não estão preocupados com os direitos das mulheres. Esses são os mesmos que votam contra a igualdade salarial, contra o apoio à maternidade, contra as creches públicas e contra a educação sexual nas escolas. O seu “feminismo” ou a sua “luta pelo direito das mulheres“ aparece apenas quando serve para atacar o Islão ou as minorias. È o que podemos chamar feminismo instrumentalizado: usam o discurso da libertação feminina para justificar políticas racistas. E fazem-no porque a imagem de uma mulher de burca — algo exótico para o nosso quotidiano — serve perfeitamente para criar medo, serve para fabricar um inimigo e serve para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”, entre „normais“ e „diferentes“
Portugal não precisa de proibir véus. Precisa de garantir que todas as mulheres — muçulmanas, cristãs, ateias, brancas, negras, migrantes ou portuguesas — tenham acesso à educação, à autonomia económica e ao respeito. É aí que se mede a igualdade.
O populismo quer que lutemos sobre panos de cabeça, enquanto ignora a desigualdade que existe dentro das nossas próprias fronteiras.
Mas nós (os que pensam como eu) escolhemos outro caminho: o da empatia, da liberdade e da convivência. Porque defender as mulheres é ouvir as mulheres — todas elas.
A burca não é o problema de Portugal. O problema é o racismo disfarçado de preocupação moral e de boas intenções! E a melhor resposta a esse populismo é simples: – mais liberdade, mais justiça, mais humanidade.
Alfredo Stoffel
